J.F. Diório/Estadão
J.F. Diório/Estadão

Jeff Beck promove celebração à guitarra no Best of Blues

Às vésperas de seus 70 anos, faz, em trio, uma homenagem a Jimi Hendrix no festival

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

12 de maio de 2014 | 03h00

O caminho até a glória prometida pela ostentação do Best of Blues Festival, que teve sua segunda edição em São Paulo no final de semana cobrando até R$ 900 por um bilhete, foi longo. Começou sexta, com uma interessante e irregular mostra de guitarristas de três gerações; seguiu sábado com uma mistura de mundos às vezes incomunicáveis; e terminou ontem, quando o negócio começaria a virar qualquer coisa menos um festival de blues, com os shows de Trombone Shorty, Marcelo D2 e Aloe Blacc.

Mas foi no meio de tudo, quando já passava das 23h de sábado, que o teatro do World Trade Center abrigaria a maior celebração à guitarra de sua temporada. Jeff Beck, 70 anos a partir do dia 24 de junho, foi generoso ao blues sem abrir mão da liberdade de pensamentos com a qual criou sua escola. Fez um show raro, muito diferente daquele que trouxe em 2010 ao extinto Via Funchal, intercalando temas instrumentais a blues e rocks cantados pelo vocalista Jimmy Hall.

O que impressiona em Beck é sua capacidade de não repetir uma frase, uma ideia, um único padrão de solo. Não seria um crime. Eric Clapton, BB King, Buddy Guy e Angus Young cansam de brincar assim. Chuck Berry fez a vida sobre três ou quatro riffs. Stevie Ray Vaughan, do alto de sua imaculada maestria, deixava claro por onde sua fúria seguiria. Mas Beck, como Jimi Hendrix, prefere surpreender-se o tempo todo. Quando os ouvidos pedem um caminho, ele segue por outro. Quando pensam que tudo vai terminar no grito dos agudos, lança um harmônico suave e entrega a mais bela nota pela duração mais precisa. Sua criação ganha sentido ao mesmo tempo em que puxa a cadeira do espectador.

Beck tira da cartola um novo coelho a cada segundo mesmo quando sai do centro gravitacional e convida um vocalista para assumir a frente. Ainda que na condição de "guitarrista base", acha um efeito que o diverte e olha sorrindo como criança para o baterista Vinnie Colaiuta, o gigante de seu blues trio (de muito trabalho prestado a Frank Zappa). Supertition, de Stevie Wonder, sai cheia de som e fúria. Rollin’ and Tumblin’, um clássico do delta blues de 1929, vem com tensão e êxtase. E quando a noite já está ganha, ele saca uma homenagem a Jimi Hendrix de dar agonia nos seguranças que tentam fazer as pessoas respeitarem a frágil divisão de plateias. Little Wing e Foxy Lady terminam com a civilizada audiência de até então, fazendo o público ficar de pé, multiplicando as câmeras erguidas na plateia.

Joss Stone vem graciosa fazer com ele o blues I Put a Spell On You, levando a voz à cerca de arames farpados que a separa de Etta James. Joss usa todos os atributos que Deus lhe deu. Sabe ser irresistível dentro do longo vestido branco, seduz acariciando a ponta de seus cabelos loiros. Sua apresentação, feita antes de Beck e depois da cantora Céu, é a mais perfeita tradução do novo soul pop. Quem quer boa música tem o grupo que a acompanha. Quem quer dançar tem as baladas e as discos que atingem a massa e garantem sua vida artística. Mas a cabeça de Joss bate logo no teto. Ela acredita naquilo que canta e sabe que canta muito. Mas ainda é produto de um simulacro, uma projeção de grandes cantoras negras do soul e do blues. Ainda falta aquilo que faça o público sair de seu show dizendo algo como "só Joss Stone pode fazer isso".

'Meio' festival de blues já uma vitória a ser festejada

Anunciado como festival de blues até a medula, e patrocinado pela empresa de eletrônicos Samsung, o Best of Blues Festival, realizado até a noite de ontem no imponente teatro do World Trade Center, zona sul de São Paulo, foi um meio festival de blues. Um comportamento que tem causas e consequências e que revela uma triste situação do gênero no País.

Até o final dos anos 90, o blues vivia dias de glória no Brasil, iniciados no finalzinho da década anterior, em 1989, com a realização de um festival em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, que teve Buddy Guy, Junior Wells, Albert Collins, Magic Slim e Etta James. Um sonho. A cidade era tomada por uma cena particular, com bandas brasileiras fazendo seus próprios festivais e sobretudo dois nomes no front: Nuno Mindelis e André Christovam. Um outro festival grande se ergueu, o Nescafé in Blues, e casas de jazz e blues eram abertas em São Paulo. Uma em especial, a Bourbon Street, em Moema, era inaugurada por ninguém menos do que BB King.

Os anos enfraqueceram o seguimento, as bandas rarearam, os patrocinadores tiraram seus investimentos e o próprio Bourbon teve de abrir sua escalação de grupos para outros gêneros. A única revista de blues da cidade, a Blues & Jazz, diminuiu sua periodicidade.

Hoje, para não correr riscos, o festival que tem um grande patrocinador tentou misturar os mundos para garantir público e não correr o risco de envelhecer sua imagem (já que blues ganhou também essa pecha, de "música para pessoas com mais de 40 anos").

Uma explicação plausível para que colocassem no evento que tem blues no nome artistas como a cantora Céu, que faz música essencialmente brasileira com sotaques de jovem guarda e algum regionalismo muito bem embalado em arranjos que mesclam música orgânica e eletrônica. O rapper Marcelo D2, Aloe Blacc e o próprio Trombone Shorty, que mais próximo está do gênero por fazer um jazz funk rap de New Orleans, também são mecanismos de defesa de um patrocinador que está tateando um mundo ainda arriscado. O saldo final é um sucesso, já que a cidade, ainda que pela metade, já tem um festival de blues.

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