Jotabê Medeiros/Estadão
Jotabê Medeiros/Estadão

Jean-Paul Delfino analisa 40 hits da MPB na França

Autor de livro referencial sobre música brasileira, escritor conversou com exclusividade ao 'Estado' em passagem pelo Brasil

Entrevista com

Jean-Paul Delfino

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

16 de novembro de 2014 | 07h00

SÃO LUIS (MA) - Ex-quarto-zagueiro de futebol, o escritor francês Jean-Paul Delfino foi colega de Paulo César Caju e Jairzinho no time do Aix-en-Provence, em 1982. Ele era do time Sub-20. “Eles conheciam muito mais os night clubs da região do que o campo de jogo”, lembra, divertido, o escritor. Mas foi nessa época que Delfino começou a nutrir vigorosa admiração pela cultura brasileira. Isso só aumentaria quando, jovem “foca” de jornalismo, recebeu a incumbência de entrevistar Baden Powell.

“Era para ser uma entrevista de 1 hora e eu fiquei 10 horas com ele”, contou o autor essa semana, no centro histórico de São Luís (onde iniciou pesquisa para um novo livro). Fascinado pelas histórias e pela música de Baden, ele foi a uma livraria de Paris para buscar saber mais sobre o artista. “Me indicaram livros sobre o criador do escotismo, que tinha o mesmo nome dele”. Foi então que resolveu, ele mesmo, tentar definir para os franceses o que era aquela música fabulosa que ouviu, e que o conquistou. Veio morar em Santa Tereza. Foi a Caetano Veloso, a João Gilberto. Surgiram assim títulos como Brasil Bossa Nova (1988) e Brasil: A Música (1998), hoje clássicos em francês sobre a música brasileira.

O livro mais recente de Delfino, de 50 anos (também roteirista de cinema e TV), não foi traduzido para o português. Em Couleurs Brasil - Petites et Grandes Histoires de la Musique Brésilienne (France Bleu/Le Passage), ele analisa e contextualiza 40 canções brasileiras que entraram para o imaginário da França e do mundo, de Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu, até Ai, se eu Te Pego, de Michel Teló. Delfino veio ao Brasil a convite do Consulado Francês em São Luís e da Aliança Francesa para lançar o livro e fazer uma palestra, e conversou com exclusividade com o Estado.

“Morei em Santa Tereza. Mas quando Santa Tereza era mais ou menos uma favela. Não aquele lugar de filhinhos de papai que é hoje. Como a Lapa, que era legal quando era bairro dos malandros. Hoje ficou mais comercial. É o que vai acontecer em São Luís do Maranhão quando descobrirem o potencial disso aqui, vai ser um novo Ouro Preto”, profetizou. “E aqui há uma sombra sobre a cidade que é a sombra de José Sarney. É uma coisa do século 19, um fazendeiro todo-poderoso que é uma espécie de “padrinho” do povo. Mas eu gosto mais do Marlon Brando como padrinho”.

O que o levou a crer, 30 anos atrás, que era necessária uma decifração da cultura brasileira para o cidadão francês?

Imagine que você está namorando pela primeira vez. Você gosta daquela mulher, dá um beijo, dois beijos, e depois você vai apresentar aquela mulher aos seus amigos. Você aprecia que os amigos gostem do exterior de sua namorada, mas vê que eles não entendem nada do interior. O livro Brasil Bossa Nova foi, para mim, o primeiro grito de revolta. A França, que foi o País de Lumière, o País da cultura, dos direitos humanos, a França não conhecia nada do Brasil. Se você fala com o povo, vão dizer que a capital do Brasil é Buenos Aires, é um desconhecimento muito grande. Conhecem o Pelé, o Carnaval, os viados, a violência e as favelas, só isso. Então, era para mim uma coisa incrível que o povo francês fosse tão ignorante da riqueza do Brasil. Eu também era. Mas eu já morava em um banlieu (subúrbio) em Marselha, tinha como entender.

O filtro que você usou para compreender o Brasil, primeiramente, foi a música. Por quê?

A primeira entrevista que eu fiz como jornalista, jovem jornalista em meus 20 anos, foi com o Baden Powell. Imagine. Era 1985. Eu me lembro que fumamos baseados, bebemos cachaça. Ele estava em turnê pela Europa, foi o último concerto. Era para ficar com ele de 9h da manhã até as 10h, e para falar a verdade eu fiquei com ele até 19h. Quando acabou a entrevista, foi meu carro quem me levou para casa, eu não dirigia mais. Impactado, bêbado, tudo que você imagina. Naquela época, encontrar um brasileiro na França ainda era uma coisa rara. Hoje é comum. E meu primeiro brasileiro foi justamente o Baden Powell, o Mozart do violão. Foi quando eu conheci a ideia do Brasil, que me dei conta de que haviam homens do Brasil. Eu pensava em escrever um artigo de jornal. Mas eu me senti desafiado e fui à livraria comprar um livro sobre o Baden. O balconista quis me levar à seção de livros religiosos. Depois, à seção de livros argentinos. “Bossa nova? Isso não existe”, me disse. Isso se repetiu. Eu entendi que não havia nada na Europa inteira sobre a bossa nova, e até hoje o meu livro é o único escrito por um europeu. Um amigo músico me recomendou ir ao Brasil para conhecer a bossa, entrevistar os músicos da bossa. Eu vim. Era louco, eu não falava nada de português, fui morar numa favela, na casa da primeira mulher do Vinicius de Moraes. O milagre aconteceu: entrevistei o Caetano, o Gil, fiz a última entrevista de Nara Leão, que viria a morrer alguns dias depois.

Entrevistou João Gilberto também?

Eu vou te contar sobre João Gilberto. Cheguei a ficar 7 horas escondido no prédio do João Gilberto, uma vez, dentro de um armário, esperando que ele saísse. Nunca saiu. Mas, em 1991, 1992, houve um concerto do João com Caetano e João Bosco. Eu fui ao show e fiquei fascinado, três artistas incríveis juntos. E quando João Gilberto parou de tocar, tentei ir ao backstage. O maestro tinha decidido que ninguém passaria, me barraram. Mas o Caetano estava lá e ele me chamou e disse: “Vem aí, vou te apresentar o João!”. Eu não acreditava. Estava sentado ali o João Gilberto, o último homem que havia inventado um ritmo musical internacional, a bossa nova. Bebia uma taça de champanhe, eram 2 horas da manhã, ele estava a 10, 12 metros dos outros. Eu fiz uma coisa que não se faz: eu peguei a mão dele e apertei intensamente. Isso é uma heresia, você pode quebrar os dedos do maestro! Então, quando eu compreendi isso, disse a ele: “Desculpe, eu estava perdido...”. Caetano morria de rir. E o João: “Você não é aquele Delfino que escreveu o Brasil Bossa Nova? Muito bom livro, parabéns. Tenho coisas para falar com você”, ele disse. Meia hora depois, ele me levou à beira do mar e ficou caminhando e conversando comigo. Falou longamente sobre tudo. Quando voltamos, ele se sentou de novo com o champanhe e me chamou: “João Paulo, posso te pedir uma coisa?”. Claro, eu disse. “A entrevista que eu dei para você agora, nunca escreva nada disso, ok?”. E eu nunca escrevi.

Você também tem um trabalho extenso no cinema e na TV, não?

Sim, eu fiz o filme United Passions, que fala do futebol. Também assinei um contrato com a Rede Globo e a Arte da França, para um docu-ficção sobre os 450 anos da fundação do Rio de Janeiro, para o ano que vem. E agora eu assinei um contrato para fazer um filme sobre a Bossa Nova. O produtor é a Cine Novo, que tem escritórios em Paris e São Paulo. Sabe o filme do Milos Forman, Amadeus, que é alegórico? É exatamente o que eu quero fazer. Se você quer ouvir a bossa nova, tem de ir a um concerto, ouvir um disco. Mas o que me interessa na bossa é mais o procedimento de criação da bossa nova: o que aconteceu exatamente para que, um dia, das estrelas, caísse uma música no violão de um homem chamado João Gilberto? O espírito da bossa nova é João Gilberto, uma pessoa à parte. Jobim é um gênio, Vinicius é um gênio. Mas João é outra coisa. O que me interessa é exatamente isso, o que fez, em 1958, nascer a bossa nova. Os musicólogos admitem que o disco inicial é Chega de Saudade. Como se fez isso? João não queria ser uma estrela, nunca quis. No início, até tentaram, mas ele entendeu rapidinho que era muito difícil ser uma estrela e fazer a música que queria fazer. Ele tentou fazer folk, jazz, um monte de coisas. Mas a bossa nova apareceu e ela simboliza aquele parêntese entre 1958 e 1964, com a chegada da ditadura. Antes de 1958, o Brasil era quase colonial. Houve a decepção do Maracanã de 1950, houve a chanchada, Getúlio Vargas, os cantores de rádio: isso para mim era o Brasil colonial, que tentava aprender o que os norte-americanos tentaram lhe ensinar. Mas em 1956, 1958, algo aconteceu: Juscelino, uma nova Capital, o cinema novo, a bossa nova, a passeata da Atlântica, um sonho, uma utopia. Mas aí chega a ditadura, o Brasil não é mais democrático e se apaga durante 21 anos e a única coisa que resistiu à ditadura foi a música - mas não a bossa nova. Foi a canção de protesto, o tropicalismo. Uma mulher como Nara Leão, uma mulher como Maria Bethânia cantando Carcará na Casa dos Estudantes em 1967, 1968, era uma demonstração de assombrosa coragem.

O Eumir Deodato costuma dizer que a batida de João Gilberto foi emulada de um disco do Barney Kessel, e que a bossa é fortemente derivada do jazz.

É outra história, outra dinâmica. O Baden me contou que o canto falado característico da bossa aconteceu porque todo mundo se juntava para cantar no apartamento da Nara Leão na Avenida Atlântica. Mas depois das 11 horas da noite, os vizinhos de cima e de baixo reclamavam, e todo mundo tinha de calar a boca, eles tinham de abaixar o tom. Senão chamavam a polícia. Todos podem dar boas razões, boas explicações, mas nenhuma delas explica a magia e o sucesso da bossa nova. Isso não pode explicar. Dois meses atrás fiz uma palestra em Marselha com Sérgio Mendes, e ele também acha. Ele falou o seguinte: “Tentar explicar a magia da bossa já é matar a magia da bossa”. Não sou um musicólogo cartesiano. Se você é um professor de violão, já sabe tudo. Mas o que me interessa é que a rapaziada estava lá, comendo uma macarronada, debatendo as origens do candomblé com Vinicius, ouvindo os afro-sambas de Baden. O Baden me falou: a batida é africana. E o que fez o sucesso internacional da bossa nova foi uma questão política, simplesmente. O grande problema dos Estados Unidos com Cuba, naquele momento, fez com que os americanos boicotassem a música cubana. E a natureza odeia o vazio. Então os americanos resolveram importar algo novo, e havia justamente a bossa ali. Daí veio foi o concerto do Carnegie Hall, em 1962, que foi uma merda total, mas que instaurou essa ponte. O bloqueio cultural a Cuba acabou por beneficiar o Brasil. E a bossa nunca reivindicou nada. O Tropicalismo sim, como uma expressão da contracultura. Já a bossa foi o parênteses mais lindo do mundo, não quis nunca reivindicar nada. Quando o jovem João Gilberto entra no apartamento de Nara Leão, um jovem Tom Jobim está ao piano, dois metros adiante alguém tocando chorinho no cavaquinho, outro querendo fazer rock’n’roll, outro que destrincha a música clássica no violão. Estava ali toda a música do Brasil. É uma música que, na sua letra, não tem nada de revolucionária. É música para cantar para uma mulher, para fazer o amor. Não precisa de mais nada, um pouquinho de cachaça, uma cerveja gelada.

No seu novo livro, você analisa até o megasucesso de Michel Teló, não?

São 40 sucessos de rádio. Meu editor me pediu um livro com essas canções da MPB que se tornaram muito conhecidas fora do Brasil. Eu explico como cada uma delas foi composto e como a transformaram para o mercado francês. Analisei o sucesso de Teló, mas sobretudo o que ele roubou, porque a música não é dele, ele se apropriou dela. Era uma música que umas meninas usavam para dançar. Escolhi as músicas para explicar algumas coisas. Por exemplo: Tico Tico no Fubá, de 1893, era muito conhecida na França. Era importante mostrar como Zequinha compôs, como era o Brasil daquela época. É uma maneira de educar um pouquinho um pouco. Fio Maravilha, que é de Jorge Ben, era cantada na França por uma mulher chamada Nicoletta, nos anos 1970, e por causa da versão para o francês todo mundo tem a certeza que aquela canção fala da favela, da miséria, de um pai que quis algo com sua filha, que a polícia chegou lá. Mas é uma canção sobre futebol, sobre um craque efêmero. 

COULEURS BRASIL

Autor: Jean-Paul Delfino 

Editora: France Bleu/Le Passage Editions (236 págs.)

Ouça músicas que Delfino cita no livro:

Água de Beber (Ce n'est que de le'eau) - Pierre Barouh:

Balancê (Balancer, J'sais sa danser) - Georges Moustaki:

Fio Maravilha (Fio Maravilla) - Nicoletta:

O que sera (Tu verras) - Salvatore Adamo:

Desafinado - Sasha Distel:

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