Jazz, vozes do rádio e... rock and roll

Em 1956, As avenidas Ipiranga e São João eram então referência obrigatória em São Paulo

Zuza Homem de Mello, Especial para o 'Estado'

23 de novembro de 2012 | 21h23

Até setembro de 1956 o que era ouvido pela maioria no Brasil, sobretudo no eixo Rio-São Paulo, não fornecia pista alguma do que estava para acontecer na música popular. Apenas em certos bares e em determinados programas de rádio, como o Pickup do Picapau, é que a porção de jovens inquietos satisfazia sua aspiração pela modernidade ao perceber o que de fato coçava sua ansiedade. A ansiedade de seu espírito insatisfeito com a maioria dos sucessos da época, irradiados, por exemplo, no programa Paraaada de sucessos, patrocinado pela cadeia das Lojas Assunção.

O grande êxito desse ano foi Conceição que se consagraria como a mais emblemática interpretação de Cauby Peixoto. Tanto que hoje, mais de 50 anos depois, ele não pode ir para casa sem cantá-la pela enésima vez num dos imperdíveis shows do Brahma. 

As avenidas Ipiranga e São João eram então referência obrigatória na cidade. Em 56 a prainha, sob a monumental marquise do cine Ipiranga que era ponto de bate papo de jornalistas e ratos de biblioteca, ficava a poucos passos de outro ponto, o dos músicos. Na esquina com o Largo do Paissandu, defronte ao Ponto Chic, acertava-se valor, hora e endereço dos bicos em bailes e bailinhos. Qualquer músico tinha que saber tocar, de ouvido ou por música, o que mais animava os casais quando ainda se dançava enlaçado e, se possível, de rostinho colado. Eram sucessos identificados por seus intérpretes como Maracangalha, de Dorival Caymmi, Mulata assanhada, do Ataulfo Alves, antes de grudar para sempre em Elizeth Cardoso, Lisboa antiga, que conquistou o mundo, ou Espinita, com o Trio Los Panchos. Os mais românticos suspiravam com Unchained melody, do Roy Hamilton, ou Arriverderci Roma, com Mario Lanza. 

Mas o que não podia faltar em hipótese alguma em qualquer reunião dançante, era a onda do que iria conquistar o mundo: o Rock around the clock com Bill Halley and his Comets, da trilha do filme Ao balanço das horas. Suas cenas da violência juvenil, brincadeirinhas hoje em dia, provocaram tamanha confusão nas salas de cinema que o prefeito Jânio Quadros foi obrigado a mandar prender arruaceiros que pulassem nas poltronas durante a exibição. Nos bailes, contudo, bastava atacar os primeiros compassos do rock de Bill Halley, aliás um tanto quanto démode com seu ridículo pega-rapaz na testa, para encher a pista com garotas e rapazes se esbaldando. Sucesso garantido em qualquer tipo de festa de dança ou baile de formatura.

Inegavelmente o maior acontecimento no jazz em 1956 foi a temporada da orquestra de Dizzy Gillespie realizada no extinto Teatro Santana da Rua 24 de Maio. O rei do bebop trouxe uma troupe de craques como jamais se vira no Brasil, incluindo os saxofonistas Benny Golson e Phil Woods e um pistonista bonitinho e muito jovem que, para espanto geral, já era arranjador. Seu nome: Quincy Jones. Essa temporada acabou resultando num contraponto dos jazzistas brasileiros que se identificavam com o jazz west coast, o estilo que dominou o II Concerto Brasileiro de Jazz realizado no Copacabana Palace em 29 de novembro e mostrou pelo menos dois jovens músicos que prometiam, o pianista Luiz Eça e o saxofonista Paulo Moura. O peixe fora d'água do espetáculo foi o conjunto Farroupilha cantando......Rock and roll.

A vida noturna de São Paulo, realçada na boate Oasis, foi contemplada regiamente em 1956 com a mudança do pianista Johnny Alf do bar do Plaza, em Copacabana, para A Baiuca. Já ídolo dos inquietos cariocas, foi ele quem abriu a cabeça dos paulistanos inquietos que se familiarizaram com os sinais de modernidade na música brasileira a partir do Rio. De fato, foi justamente em setembro de 1956 que se realizou no Municipal da capital federal a curta temporada do musical Orfeu da Conceição, essencial na fase preparatória da mudança de nossa musica.

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