Simon Fowler
Simon Fowler

Jaroussky apresenta obras de Händel em dois concertos na Sala São Paulo

Contratenor francês tem voz rara e especial

João Luiz Sampaio, ESPECIAL PARA O ESTADO

22 Abril 2017 | 15h15

Philippe Jaroussky era um jovem aspirante a violinista ou pianista - ele ainda não havia conseguido decidir - quando, ao lado de colegas de conservatório, resolveu assistir a um concerto em uma Igreja em Paris. A atração era o cantor Fabrice di Falco, nascido na Martinica, que no final dos anos 1990 provocava sensação nos palcos franceses, não apenas pela técnica e pela musicalidade, mas pelo seu registro vocal: um contratenor, ou seja, um homem cuja voz se assemelha à de uma soprano ou mezzo-soprano. “Eu me lembro ainda hoje do choque provocado pelo descompasso entre seu aspecto físico e aquela voz aguda. E durante a apresentação, foi crescendo em mim a sensação de que era aquilo que gostaria de fazer”, lembra Jaroussky que, sem hesitar, largou o piano e o violino. 

Jaroussky apresenta-se nesta segunda e terça na Sala São Paulo, pela temporada da Cultura Artística, ao lado dos músicos do conjunto Le concert de la loge. A escolha pelo canto não significou um caminho particularmente fácil - ouviu da professora de di Falco, a quem procurou, por exemplo, que deveria voltar aos instrumentos aos quais já se dedicava. Mas foi acertada: é hoje uma das estrelas do canto lírico internacional, um dos responsáveis por ampliar o mercado para contratenores e, nesse processo, ajudar a fazer do período barroco um sucesso mercadológico difícil de ser previsto.

“Eu acho sinceramente que a ideia de passar horas estudando, debruçado sobre um instrumento, nunca me agradou. Havia sempre algo de superficial, e esse, claro, era um sentimento extremamente pessoal, de forma alguma gostaria de generalizá-lo. A voz, no entanto, é um instrumento interno, está dentro do nosso corpo. A técnica, nesse sentido, tem a ver com as nossas sensações, com a maneira como nos sentimos. A técnica, no canto, não pode existir longe da expressão. Foi então que encontrei de fato o sentido de minha relação com a música”, conta Jaroussky.

A relação de Jaroussky com a música, e com o público, não parece se limitar, no entanto, à união entre técnica e sentimento. Há também o carisma, algo difícil de definir, mas facilmente verificável em alguns números. Em um momento da indústria fonográfica que está bastante distante dos dias em que estrelas do canto gravavam com regularidade, o contratenor francês tem em seu currículo mais de trinta gravações - entre CDs e DVDs - em menos de vinte anos de carreira. Além disso, vídeos seus no YouTube passam com facilidade das quatro milhões de visualizações, o que para um artista da ópera não é feito pequeno - ainda mais um que fez do repertório barroco, tido (nem sempre com razão) como altamente especializado, o seu foco.

 

O repertório, por sinal, seria o item seguinte na tentativa de explicar o espaço que Jaroussky passou a ocupar no cenário internacional. “Como violinista, meu repertório era o da música romântica. O barroco era uma novidade muito grande”, ele conta. Uma novidade que ele aprendeu sobre o palco - afinal, do início dos estudos de canto até a estreia profissional foram apenas dois anos, “tudo muito rápido”. “Meu corpo ainda não estava pronto. Mas com o tempo, não apenas eu conheci melhor essa música como ela me ajudou a encontrar a minha expressão pessoal”, ele explica. Ao lado do repertório mais conhecido, no entanto, Jaroussky tem resgatado autores e obras menos celebradas. “Meu interesse pelo repertório tem a ver, claro, com o que minha voz pede, mas também com uma curiosidade, um desejo de expandir limites. Mesmo dentro do barroco, o século 17 costuma ser a prioridade. Mas se voltarmos ao século 16, descobrimos um repertório que carrega elementos estimulantes”.

Exemplo disso é o seu novo disco, La storia di Orfeo, com seleções de obras que tem o personagem como tema (leia mais abaixo), ou então o repertório das duas apresentações que ele faz em São Paulo, dedicadas unicamente a trechos de óperas de Händel - Jaroussky, no entanto, escolheu títulos menos óbvios, como Radamisto, Flavio, o Rei dos Lombardos, Siroe, Rei da Pérsia ou Giustino. “Há em Händel algo que se sente de imediato, como em Mozart: uma paixão pela voz, pelo cantor. Ainda jovem, ele visitou a Itália e tenho certeza de que o fascínio que deve ter sentido pela expressão vocal italiana o marcou de forma definitiva, dialogando com o lado germânico, orquestral. É uma inspiração que parece não ter limites.”

Inspiração, repertório, técnica e expressão são temas que Jaroussky entende não apenas dentro do universo da música - mas também no diálogo com a sociedade. Foi daí que nasceu a Academia Musical Philippe Jaroussky, criada por ele nos arredores de Paris. “A ideia é ser um ponto de encontro de talentos, visando a excelência artística, sempre, mas compreendendo que o fazer musical é uma oportunidade também de inserção social e profissional”, ele diz. “Eu sei o quanto é importante ter alguém te orientando, te ajudando a encontrar caminhos. E isso não se restringe apenas à música.”

PHILIPPE JAROUSSKY

Sala São Paulo. Pça. Julio Prestes, 16, tel.: 3256-0223. 

Segunda (24) e terça (25), às 21h. De R$ 50 a R$ 430 

Novo CD leva ouvinte à época do nascimento da ópera

O novo disco do contratenor Philippe Jaroussky, La storia de Orfeo, lançado no Brasil pela Warner Classics, tem como tema a figura do músico e poeta da mitologia grega, capaz de encantar a todas as coisas com a sua música. “Não era uma ideia original, outros artistas já fizeram algo parecido. Mas eu queria revisitá-lo e, então, tentei descobrir um viés diferente, que soasse diferente”, ele explica.

A lenda de Orfeu, que desce ao submundo em busca de sua amada Euridíce, morta no dia dos casamento dos dois, está ligada de maneira indissociável à história da ópera. O gênero surge em Florença, no final do século 16, propondo uma nova relação entre texto e música, na qual a música está a serviço da compreensão do poema e de seu significado. Nas palavras de um de seus idealizadores, Vincenzo Galilei, era preciso, ao escrever a partitura, “penetrar no espírito do verso”.

Exemplo dessa proposta é a Euridice, do italiano Jacopo Peri, a mais antiga ópera a ter sobrevivido. Anos mais tarde, com La favola de Orfeo, Monteverdi levaria o gênero a uma maior sofisticação: a música, agora, não apenas se fundiria com o poema, mas passaria a integrar a própria essência da evolução do drama. Com o tempo, porém, a atenção à palavra levaria a um foco extremado no cantor, com as habilidades vocais se sobrepondo ao todo indivizível do drama monteverdiano. Isso levaria, nos séculos seguintes, a uma série de reformas - uma das mais importantes levada a cabo por Gluck, autor, olha eles lá de novo, de Orfeu e Eurídice.

O viés diferente encontrado por Jaroussky foi dar a Eurídice, que em Monteverdi, por exemplo, é uma personagem pouco explorada, maoir importância. Sua “história de Orfeu”, assim, coloca como protagonista o amor do personagem por sua noiva, recontando a lenda por meio de trechos de obras de diferentes compositores, intercalados em busca de novas possibilidades de significado (e com a participação da soprano Emöke Barath).

Mas o mais fascinante aspecto da audição é a (re)descoberta de autores que estão longe de gozar da fama e reputação de Monteverdi, também presente na coletânea. Um deles é Antonio Sartori, cuja escrita em Orfeo traz uma série de novidades formais, fundamentais para o desenvolvimento do gênero operístico. O mesmo, talvez, não se possa dizer de Luigi Rossi, autor de Orfeo, apresentada em Paris em 1647 (prova de que a ópera, nascida pouco antes na Itália, seria logo aceita em outros centros europeus). Mas pouco importa, na verdade. Se sua obra costuma ser criticada pela ausência de ligação dramática entre os números, a presença no disco de passagens como Mio ben ou Che dolcezza è la certezza, vistas de forma isolada, revelam um lirismo sensual que ajuda a explicar o impacto que a ópera pode provocar quando interpretada por mestres como Jaroussky, Barath e os músicos do conjunto I Barocchisti.

LA STORIA DE ORFEO

Philippe Jaroussky

Gravadora: Warner Classics/Preço: R$ 42

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