Janis Joplin: sai a biografia de um mito

Há 30 anos, no dia 3 de outubro, morreu uma texana de cabelos desgrenhados, voz rouca e risada intensa. O corpo foi encontrado 18 horas depois, emborcado no carpete imundo de um hotel de Hollywood, o Landmark. Seus habitués o chamavam de Land Mine, ou campo minado, pela facilidade de se obter drogas por lá. Foi por esse motivo que ela hospedou-se no hotel - e foi por esse motivo que morreu. "Morte acidental devido à extraordinária pureza da heroína", informou a autópsia, registrando 14 marcas recentes de agulha em seu braço esquerdo. Naquele mesmo fim de semana em Los Angeles, outras oito pessoas morreriam da mesma causa. Contudo, só a morte da texana transcendeu as paredes do hotel e chegou aos jornais de meio mundo. Ela era Janis Joplin e, de certa forma, sua existência conturbada e seu abrupto fim refletiam fragmentos de outras tantas vidas e mortes, anônimas ou não, que arderam na fogueira dos anos 60. É exatamente esse olhar atento à época e às pessoas que a viveram, o traço a distinguir Janis Joplin - Uma Vida. Uma Época (376 págs., R$ 38), de outras biografias da cantora. Lançado nos Estados Unidos há um ano e só agora trazido ao Brasil pela Global Editora, o livro, prefaciado por Rita Lee em sua edição brasileira (leia texto abaixo), é permeado pela aguda percepção da autora Alice Echols, tida como uma das principais historiadoras americanas dos anos 60. Desviando-se dos clichês É essa percepção que a leva a concentrar esforços para desviar-se dos clichês - tarefa das mais delicadas, uma vez que mito e clichê muitas vezes se confudem. Especialmente em se tratando de Janis Joplin. A estratégia da autora para evitar explicações estereotipadas é evitar explicações. Em vez disso, Nichols tenta contextualizar, compondo um mosaico com detalhes e histórias colhidas ao longo de cinco anos de entrevistas com amigos, parentes, conhecidos, namorados e namoradas da cantora. A Janis que emerge desse mosaico se compraz em chocar e sofre quando não é aceita, rejeita adequar-se aos padrões de beleza ao mesmo tempo em que se declara preocupada com a aparência, tem consciência de seu talento e, ainda assim, suplica a um jornalista que o confirme, troca de parceiros e de parceiras a cada minuto mas guarda sonhos de casamento - tudo isso embalado em uma intensidade explosiva, voraz. Entre sua "descoberta" pela imprensa e público no Festival de Monterey, em 1967, e sua morte, em 1970, Janis deixou três discos (o último, Pearl, que ela gravava quando morreu, foi lançado postumamente), algumas performances memoráveis, muitos escândalos e, com certeza, sua personalíssima marca na música. O início dessa trajetória, tão breve quanto fulgurante, foi em Port Arthur, no Texas, cidade surgida à margem de uma refinaria de petróleo. Ao contrário do que pregava a lenda que criou para si, Janis chegou a ser boa filha, aluna exemplar e estrela do coro da igreja local. Aos 14 anos, porém, o prestígio de que desfrutava se esvaneceu com as espinhas, a obesidade e demais aflições adolescentes. Mas em Port Arthur, cidade onde os jovens se divertiam olhando cartazes de criminosos no correio ou pendurando-se nas janelas dos carros com bastões nas mãos para derrubar os negros que passavam, não havia lugar para quem fugisse, ainda que involuntariamente, das convenções. Então Janis optou voluntariamente pela rebeldia. Choque calculado As roupas, o linguajar, as maneiras, a fama de promíscua - tudo passou a ser calculado para provocar o choque. Uma amiga lembra-se de Janis ensaiando uma gargalhada estridente e perguntando: "Incomoda o suficiente?". O preço a pagar era alto, e incluia de abusos verbais a levar cusparadas dos garotos da escola. Apaixonada pela música que considerava "autêntica"- como o blues cantado pelos negros - foi para San Francisco disposta a ser cantora. Acabou fazendo de tudo: roubou em supermercados, trabalhou como perfuradora de cartões, vendeu drogas, esmolou e cantou. Foi com a banda Big Brother and the Holding Company que ela fez sua histórica apresentação em Monterey, em 67. Logo ficou evidente que a banda já não comportava seu talento e ela partiu para outras. Ganhou as páginas dos jornais, teve o nome ligado ao de Jimi Hendrix e Jim Morrison - o rápido affair com o líder do The Doors terminou quando ela quebrou uma garrafa na cabeça dele - e foi fundo nas drogas. "Eu só quero um pouco da maldita paz, cara", rosnava a quem se atrevia a aconselhá-la. Entre 68 e 69 escapou com vida de seis overdoses de heroína. Mas não teve a mesma sorte em outubro de 70. E, aos 27 anos, morreu sozinha no hotel Landmark. "Janis não foi uma versão dos anos 60 de Madonna ou de Courtney Love", frisa Alice Echols. Em sua época não havia qualquer celebridade feminina que se assemelhasse à persona que Janis criou para si. Depois, quando as outras vieram, já tinha existido uma Janis Joplin.

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