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Janacek desconhecido e deslumbrante

Com interpretação irretocável, coro de câmara francês Accentus faz refinado CD de alta voltagem emocional

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2014 | 02h05

O compositor checo Leos Janacek nasceu em 1854 e morreu em 1928. Passou praticamente a vida inteira marginalizado dos grandes centros onde rolava a chamada grande música europeia. Construiu sozinho sua linguagem musical pessoal a partir das inflexões da língua checa. Retirou muitos temas para obras de notícias de jornal, como a da sonata para piano 1905, a partir do relato da morte de trabalhadores numa manifestação política naquele ano; ou então a ópera A Raposinha Esperta. Ele chamava sua técnica de "melodias da fala". Hoje é conhecido por suas óperas, como Jenufa e Katia Kabanova.

Sua produção coral é grande, mas só agora começa a ser gravada com regularidade. O coro de câmara francês Accentus faz um recorte original em Brumas Infantis (Harmonia Mundi). O CD é uma verdadeira revelação. A escrita sutil para vozes, o refinamento do acompanhamento instrumental, o encanto da melodia da fala - tudo deslumbra neste Janacek pouco conhecido.

Os títulos são enganosamente simplórios, mas trazem música da mais alta qualidade. O CD abre com uma peça despretensiosa de 1885, O Pato Selvagem. Mas a sequência é de arrepiar. Na "fonte das lágrimas", peça da maturidade, escrita durante a Primeira Guerra Mundial, mas só executada em 1923, é notável pelo modo como Janacek faz a flauta dialogar com a soprano solista e com o conjunto das vozes femininas. Em Elegia Sobre a Morte de Minha Filha Olga para tenor, coro e piano, de 1903, a voltagem emocional sobe muito. Na primeira, brilham a soprano Caroline Chassany e a flautista Raquele Magalhães; na segunda, o tenor Romain Champion. Sem falar na afinação e precisão do Accentus, regido por Pieter-Jelle de Boer.

Alain Planès, o excelente pianista francês, promove um hiato instrumental com as quatro peças que compõem o ciclo Nas Brumas. Escritas em 1912, são uma resposta criativa de Janacek à obra pianística de Debussy, que acabara de ouvir pela primeira vez em Brno (por lá, Debussy era praticamente desconhecido àquela altura).

O núcleo central deste admirável CD, no entanto, é a interpretação irretocável do Accentus para o ciclo 19 Poemas Infantis, que Janacek compôs em plena maturidade sobre pequenos poemas de uma coletânea ilustrada que toda criança checa conhecia e curtia muito - até hoje, diz o anônimo autor do texto do CD, estes versinhos são muito populares entre os pequenos daquela região. As dez vozes são mistas e o acompanhamento instrumental inclui, além da flauta e do piano, viola, ocarina e piccolo. Encantadoras miniaturas, que deliciam qualquer criança, seja de onde for, pela empatia da música.

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