Tiago Queiroz/ Estadão
Tiago Queiroz/ Estadão

Jamil Maluf e Jorge Takla voltam a colaborar em ópera

Para diretores, Stravinski reverencia a tradição ao mesmo tempo em que aponta caminhos em 'The Rake’s Progress'

João Luiz Sampaio - O Estado de S. Paulo,

07 de junho de 2013 | 14h52

Para o maestro, a revelação se deu por meio do texto; para o diretor, foi o encantamento provocado pela música. E a inversão de papéis dá a pista da eficiente combinação de elementos que fez de The Rake’s Progress, do compositor russo Igor Stravinski, uma das principais óperas do século 20. Na quarta, a obra sobe pela primeira vez ao palco do Teatro Municipal, em montagem comandada por Jamil Maluf e Jorge Takla, inaugurando a primeira temporada lírica da casa sob direção artística do maestro John Neschling.

"Foi o meu trabalho mais difícil", diz Takla ao Estado durante um intervalo nos ensaios na tarde de terça-feira. "Em um primeiro momento, há o encantamento, o maravilhamento provocado pela música de Stravinski. Mas, em seguida, é preciso encontrar em meio às múltiplas possibilidades de leitura um eixo que permita narrar essa história de modo eficiente." Maluf teve sensação semelhante. À frente da Orquestra Experimental de Repertório, ele sempre esteve às voltas com a busca por obras não tradicionais. "Mas nunca sofri tanto", ele conta, rindo. "E foi só ao estudar o texto que entendi o que o compositor propõe na partitura."

A história da ópera está repleta de obras em que o talento do compositor nem sempre é igualado pela qualidade literária do autor do libreto. Não é o caso de The Rake’s Progress, batizada no Brasil de A Carreira do Libertino. Isso porque, para escrever o texto, Stravinski, no início dos anos 50 já estabelecido como um dos principais nomes da composição internacional, convidou o inglês W.H. Auden, ele também figura de proa da poesia contemporânea. A ideia para a ópera surgiu durante uma visita a um museu de Londres, no qual o compositor teve contato com gravuras do século 18 de William Hogarth. As obras sugeriam a história de um rapaz, Tom Rakewell, que troca a existência pacata no campo por uma vida de excessos, luxos e prazeres na capital inglesa. Stravinski ficou fascinado pelo tema – e dali tirou o argumento daquela que seria sua principal ópera.

"A imagem que me veio, de cara, foi justamente a de Stravinski no museu, observando as gravuras", diz Takla. "Elas não contam uma historinha. Mais do que isso, estão repletas de símbolos, códigos, sinais a serem decifrados. Por que ele se interessou tanto por essas gravuras? Talvez exista nelas algo da cultura russa, da literatura russa, com seus personagens fantásticos, suas tramas inacreditáveis. Seja como for, ele traduz esse universo em música e ao diretor cabe decodificar esses símbolos para narrar o enredo."

Auden fez alguns acréscimos na história retratada por Hogarth. Incluiu na trama, por exemplo, uma namorada para Tom; e, mais importante, criou Nick Shadow, figura demoníaca que, como Mefistófeles, acompanha o jovem em sua jornada rumo à autodestruição. Destruição ou conhecimento? "Acho que há uma leitura psicanalítica muito clara e estruturada no libreto", diz Takla. "O que está exposto ali é um processo de individuação, quer dizer, aquele mecanismo de transformação do indivíduo até achar enfim o seu equilíbrio. Daí surgiu o conceito de que esta ópera narra a história da formação de um homem – e tudo aquilo que acontece se passa dentro da sua mente. A figura de Nick Shadow, por exemplo, é uma invocação de um lado mais escuro, muito forte, de Tom. Minha concepção, assim, vê tudo como projeção da mente dele. Mas sem perder o caráter de fábula, o lado cômico, a ironia."

Para Jamil Maluf, a ironia – assim como a capacidade de subversão – está no cerne também da música de Stravinski. Ele relembra que a ópera faz parte do chamado período neoclássico da carreira do compositor, marcado pelo retorno a formas clássicas e tido por alguns como um retrocesso em sua atuação na vanguarda europeia da primeira metade do século 20. "Isto para mim é o que menos importa, porque ele subverte de tal forma a ordem harmônica e métrica que não sobra nada sobre nada", afirma o maestro.

"No programa da estreia, Stravinski se pergunta: será possível um compositor usar o passado e mesmo assim se mover para o futuro? Encontrar o passado nessa música é a coisa mais fácil do mundo: temos números musicais ligados por recitativos, o uso do contraponto, resquícios de tonalidade. Logo no início da ópera, você pode fazer relações entre a partitura de Stravinski e o Orfeu, de Monteverdi, o Cosi Fan Tutte, de Mozart, a Traviata, de Verdi", explica Maluf. E o futuro? "Está na forma como Stravinski revê, filtra o passado, às vezes de forma irônica, em outros momentos, de modo amoroso, crítico, enamorado."

A própria composição da orquestra, diz o maestro, é exemplo dessa ligação entre épocas. "Trata-se de uma orquestra clássica, a que usaríamos para interpretar uma sinfonia de Mozart. Mas o que ele tira de timbre desse conjunto é algo extraordinário. O segredo não está na paleta de instrumentos disponíveis na orquestra, mas sim o que fazer com eles, que sons explorar."

Esta é a terceira ópera de Stravinski encenada por Maluf no Municipal. A primeira foi Édipo Rei, em 2003; a segunda, O Rouxinol, apresentada no final do ano passado. Como define a evolução do compositor no gênero? "Há um refinamento. As duas primeiras eram obras curtas, de menos de uma hora de duração. Aqui, ele expande o tempo. Mas os números têm no máximo dois minutos de duração. Ou seja, ele continua a trabalhar com formas mais curtas. Os números aqui são como peças de um quebra-cabeça irregular, que formam um todo fascinante. A ópera, para ele, é uma junção de microcosmos. E chama atenção o contraste entre eles. Não há nenhum resquício de regularidade. E isso, a preocupação maior com o contraste do que com o desenvolvimento, é extremamente contemporâneo."

THE RAKE’S PROGRESS

Teatro Municipal. Pça. Ramos de Azevedo, s/nº, tel. 3397-0397.

Dias 12, 14, 16, 20 h; dia 16, 18 h.

R$ 40/ R$ 100.

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