James Carter dá aula e faz show em SP

O saxofonista James Carter, de 32anos, foi eleito o melhor sax tenor de 2001 pela revistaespecializada Down Beat. Nenhum título vem como surpresapara Carter, norte-americano de Detroit, considerado com raraunanimidade um dos grandes jazzistas das novas gerações há maisde uma década. Já é um clássico. Vê-lo em ação é um privilégio que não pode ser perdido.Participar de uma master class de Carter, então, é algo aindamais raro. Pois as duas coisas poderão ser usufruidas em SãoPaulo a partir da semana que vem. Carter inicia temporada noBourbon Street na quarta-feira e, na quinta-feira, faz a oficinaWeril Master Class, às 15 horas, no auditório da Faculdade SantaMarcelina (Rua Dr. Emílio Ribas, 89, Perdizes; inscrições pelotelefone: (0--11) 3826-9700 - Ramal 208). Carter vem com seu Organ Trio - ele no saxofone, maisGerard Gibbs pilotando um órgão Hammond B3 e Leonard King nabateria. A formação sugere um show estruturado na tradição damúsica gospel americana, e realmente tem tudo a ver, mas não ésó. Durante o concerto, ele toca canções de diferentes escolas,como Winter Meeting e Killer Joe e Along Came Betty, do veteranoBenny Golson. "Eu tinha 16, 17 anos quando ouvi Lester Bowie(1940-1999) pela primeira fez, e depois ele foi à escola onde euestudava música e tudo pareceu claro para mim", contou Carter,em entrevista à reportagem na semana passada. "Foi Lester quemme fez ir para Nova York, em dezembro de 1985 ou 1986, não melembro bem - eu nunca tinha ido à Nova York - e então eu toqueiem muitos lugares até que um dia nós acabamos tocando no mesmolugar, no Sweet Basil, e para mim essa é minha maiorinspiração." A noção de música que Bowie "transferiu" para o jovemsaxofonista muito magro e comprido - tem 2 metros de altura - éuma visão universalista, escorada na tradição da música negraamericana. "A canção gospel americana, por exemplo, não tratasó de um universo espiritual, mas é principalmente um rito derelações sociais, de aproximação entre diferentes conceitos demúsica negra", ele diz. "O espectro musical ao qual eu me atenho inclui o somtradicional e também a cultura industrial, das grandes cidades" diz o músico, que é fã do som da época da Motown, de Diana Ross Supremes e Temptations. "É preciso ver que a música negra daMotown, por exemplo, baseada no soul, no blues e na músicagospel, também foi feita por músicos de jazz", teoriza osaxofonista. "Para mim, nada está separado, onde está uma geraçãoestá a outra", pondera, ao comentar a gravação de Conversin´With the Elders (1996), na qual emparelhou forças com seuídolo, Lester Bowie, e outros dois grandes mitos do jazz, Harry"Sweets" Edison e Buddy Tate. "As mesmas pontes nos unem, ehá similaridades entre cada trabalho." James Carter começou a despontar como prodígio do jazznos tempos em que militava na banda de Wynton Marsalis, entrandopara substituir um "dissidente" do grupo, Branford Marsalis, oirmão "pop" de Wynton. Desde então, tocou com Johnny Griffin,Herbie Hancock, Cyrus Chestnut, entre muitos. Este mês, tocarácom o Nicholas Payton Quintet no Newport Festival. Em outubro de1996, Carter se lembra bem, esteve no Free Jazz Festival, em SãoPaulo e Rio. "Foi lindo", conta. Entre outras coisas, Carter (que toca saxes alto, tenore barítono e ainda clarineta, oboé e flauta) é conhecido por suaprodigiosa coleção de instrumentos de sopro. Possui mais de 60deles. "É verdade, tenho uma coleção, mas em geral sãoinstrumentos de palco, não é um museu", tergiversa, para emseguida falar de pelo menos uma de suas preciosidades: "Tenhoum sax tenor que pertenceu a Buddy Tate, de 1939, era com eleque Tate tocava na banda de Count Basie." Natural de Detroit, Carter concorda com a tese doscríticos que dizem que sua cidade lhe deu um pulso diferente, umjeito específico de tocar. "Sou um nativo, aprendi a tocar lá,mas não é apenas uma ligação emocional, tem a ver com o ambienteindustrial, algo que impõe uma certa intensidade, mais metálicae urgente", considera. O saxofonista gravou seu primeiro disco, JC on theSet (Columbia), em 1993, tendo como partners o pianista CraigTaborn, o baixista Jaribu Shahid e o baterista Tani Tabbal. Comum repertório ousado (escolheu gravar Hour of Parting, deSun Ra; Lunatic, de um desconhecido compositor texanochamado John Hardee e algumas coisas de Duke Ellington, comoCaravan e Sophisticated Lady), Carter embeveceu acrítica, que o situou em uma esfera distinta do outro prodígioque surgia na época, Joshua Redman. Há dois anos, Carter lançou dois discos simultaneamente,pela Atlantic: Chasin´ The Gypsy, tributo de um saxofonistaa um mito da guitarra, o belga Django Reinhardt, e Layin´ InThe Cut, seu primeiro registro com uma banda inteiramenteeletrificada. Sobre seu atual trio, ele lembra que é uma banda degrandes individualidades. "Leonard (King, o baterista) écompositor, Gerard tem suas idéias musicais e nós montamos todoo espetáculo atento às nossas escolhas como indivíduos, mais doque por uma tese comum", afirma.Serviço - James Carter. Dias 14 e 15, às 22h30. De R$ 65,00 a R$ 120,00(couv. art.). Bourbon Street Music Club. Rua dos Chanés, 127,tel. (11) 5561-1643. Patrocínio: Diners Club International

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