Jamelão é o famoso intérprete da Mangueira há mais de 50 anos

Sambista símbolo da escola de samba começou como cantor de casas noturnas no centro do Rio de Janeiro

Da redação, estadao.com.br

14 de junho de 2008 | 17h02

A carreira artística de José Bispo Clementino dos Santos, que foi operário, jornaleiro, e policial civil, teve início como a de tantos outros de sua geração. Jamelão se revezava entre as rodas de samba, e tentava a sorte em programas de calouros. Foram os programas que abriram portas para o morador de São Cristóvão, filho de lavadeira, e de pintor. Logo conseguiu emprego como cantor em casas noturnas do centro do Rio de Janeiro, a mais conhecida era o Dancing Avenida, onde cantava todas as noites. A performance na noite carioca lhe trouxe admiradores, a sua voz rouca e lamuriosa que trazia uma interpretação inconfundível aos sambas-canções chamou a atenção da Odeon, que em 1950 o convidou para gravar seu primeiro disco em 78 rotações, com repertório de sua autoria, A Jibóia comeu.   Veja também: Imagens do sambista    Em 1954 a Continental, gravadora que por mais de 30 anos gravaria seus discos, fez-lhe uma proposta, e Jamelão ao aceitar tornou-se o maior sambista intérprete de compositores como Custódio Mesquita, Wilson Batista, Ataulfo Alves, e Lupicínio Rodrigues seu amigo e ídolo, gravaram dois discos juntos, e por toda a vida dividiriam a paixão pelas músicas dor-de-cotovelo.   Jamelão era conhecido por ser ranzinza, contra a exposição na mídia, tinha sempre uma frase mordaz sobre os rumos do samba no país do carnaval. Em entrevista par o Estadão em 1986 declarou sobre o samba autêntico: "aquele que está em vias de extinção, com a conivência dos brasileiros. Na realidade, quem manda no carnaval são os estrangeiros, que pagam a peso de ouro para ver um show que bem poderia acontecer num teatro qualquer."   A crítica não parava por aí, ele que tinha verdadeiro horror de ser chamado de puxador de samba, pois sempre fora um "intérprete", e seguia decretando a morte do samba na avenida: "Pior do que isso é a qualidade das músicas. Hoje temos tudo na base do mesmo acompanhamento, e isso se estende às casas de samba que durante o ano convidam 50 sambistas para cantar, mas as pessoas que lotam os salões não conseguem distinguir uma composição da outra. Disso tudo nada ficará".   Desafeito a exposição na mídia, Jamelão não poupava críticas à ninguém, como em outra entrevista ao Estadão em 2006, quando desta vez falou sobre outro filho ilustre de sua escola do coração. "O Cartola, o negócio já era outro. Ele só gostava assim... de jornalista. Quando era jornalista, ele recebia com toda a pompa. Reunia aquele bando na casa dele. A mulher, a Zica, fazia aquelas comidas todas pra turma de jornalista. Eles ficavam ali o dia todo naquele come e bebe. Fora disso aí, com gente do morro, ele já não chegava junto. Tava sempre em casa com jornalista. Isso porque ele tinha aquelas músicas lá, então cantava, pegava o violão e pá pá pá e cantava e cantava. O pessoal saía de lá todo empolgado com o Cartola...".   A única coisa que trazia doçura nos lábios de Jamelão era sua adorada Mangueira, que desde 1950 teve seus sambas-enredos interpretados por ele ao entrar na Sapucaí. Foi compositor de apenas um samba-enredo, "As quatro Estações do ano", de 1955, que não garantiu o título para a escola. Talvez por isso existisse o desafeto com Cartola, por seu insucesso como compositor. Mas Jamelão esteve presente em todos os 16 títulos conquistados pela Estação Primeira de Mangueira.   Nos próximos carnavais, seguirá presente como mito, e já tem seu nome gravado no chão da Sapucaí. A área reservada à concentração das alas leva seu nome, chama-se Espaço Jamelão.

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