Hannibal Hanschke / POOL / AFP
Hannibal Hanschke / POOL / AFP

Jamala: da vitória no Eurovision ao refúgio da guerra na Turquia

A cantora venceu o concurso em 2016 com "1944", uma canção sobre a repressão sofrida pelos tártaros da Crimeia, sua comunidade

Fulya Ozerkan, AFP

08 de março de 2022 | 15h37

Em 2016, a ucraniana Jamala venceu o concurso Eurovison com "1944", uma canção sobre a repressão sofrida pelos tártaros da Crimeia, sua comunidade. Hoje, sua situação é muito diferente: vive como refugiada em Istambul, algo que nunca teria imaginado.

A jovem tornou-se uma heroína nacional graças a essa canção interpretada na língua tártara, dois anos depois da Rússia ter anexado a península ucraniana da Crimeia, em 2014.

Milhares de tártaros da Crimeia, uma comunidade de língua turca de maioria muçulmana, foram deportados por Stalin em 1944 para a Ásia Central, acusados de colaborar com os nazistas. A letra da música, que lembra aquele trágico episódio, provocou pedidos de boicote à Rússia.

"Falava sobre minha avó, sobre minha família, sobre todos os tártaros da Crimeia que foram deportados pelo exército soviético", disse Jamala, de 38 anos, à AFP em Istambul, onde se encontra refugiada desde o início de março, depois de fugir de Kiev com seus dois filhos.

"Hoje estamos revivendo isso. Achei que era coisa do passado", confidencia a cantora, visivelmente afetada, aludindo à ofensiva lançada pelo presidente russo Vladimir Putin.

Uma nova geração

Na última sexta-feira, ela foi convidada a cantar "1944" durante o concurso de pré-seleção da Alemanha para o Eurovision, concurso do qual a Rússia foi excluída. Lá, representaria a resistência ucraniana à invasão russa.

"Honestamente, eu nem sei como consegui cantar". aponta. "Somos uma nova geração, pensamos em paz, como cooperar, como nos unir, mas coisas terríveis acontecem. Esta guerra está acontecendo diante dos olhos do mundo", diz Jamala, cujo nome verdadeiro é Susana Jamaladinova.

Às 05:00 do dia 24 de fevereiro, seu marido a acordou: "A guerra começou, a Rússia atacou a Ucrânia".

Naquele dia, Jamala foi para um abrigo com seus dois filhos e seu marido, mas depois decidiu se mudar para Ternopil, 400 km a oeste. A viagem, de carro, durou dois dias. Assim que chegaram, se viram obrigados a sair. "Acordei às 06:00 com o som de explosões... dois dias depois, chegamos à fronteira romena".

Seu marido a deixou com seus filhos e retornou a Kiev para se juntar aos voluntários ajudando a evacuar mulheres e crianças para regiões mais seguras. Com as crianças, Jamala atravessou a fronteira a pé. Mais tarde, foi recebida por sua irmã, que mora em Istambul.

Desde então, lê ansiosa as notícias sobre a Ucrânia em seu telefone. "É muito difícil quando você sabe que seu marido está lá. Não consigo dormir. A cada minuto me pergunto como ele está", acrescenta.

Os músicos de seu grupo estão escondidos em abrigos em Kiev. "Meu técnico de som me escreveu ontem, dizendo que não tinha água... ele não pode sair, é perigoso", diz. "Esta é uma guerra muito cruel, no coração da Europa. Destrói os valores da Europa que construímos desde a Segunda Guerra Mundial".

"A Ucrânia é um grande país, com sua língua, sua própria cultura, sua história. Não tem nada a ver com a Rússia", insiste. "Não sei o que podemos fazer (...) só sei que temos que vencer".

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