Jakob sai da sombra de Bob, mas leva o Dylan

Se há algo que incomoda Jakob Dylan é ter sua música e carreira comparadas a do pai, o genial Bob Dylan. Em outubro o rapaz de olhos azuis e rosto delicado foi capa das principais revistas norte-americanas. O The New York Times publicou extensa reportagem sobre sua banda, o The Wallflowers, que acaba de lançar o sucessor de Bringing Down The Horse. O aguardado Breach chegou ao mercado, para delírio das 6 milhões de pessoas que adquiriram o primeiro rebento de Jakob e companhia.Uma das frases ditas pelo cantor, compositor e guitarrista de fina estirpe, deve ser lembrada: "Eu não quero ser a página de um livro". Ele a disse pensando nas inúmeras biografias escritas sobre seu pai. Em algum momento, em alguma delas, ele acredita que citem o seu nome. Ele não quer estar apenas nessa página. Pretende construir a sua própria história. E sabe que apenas os grande sobrevivem à superexposição promovida pela indústria cultural. Talvez seja por isso que o novo disco de Jakob chame Breach, algo próximo de quebra. Após o sucesso obtido com Bringing Down The Horse, dos hits One Red Light e 6th Avenue Heartache, a banda passou quatro anos preparando meticulosamente Breach. Nesse meio tempo, apareceram apenas em trilhas sonoras, como na de Godzilla, em que tocam Heroes, de David Bowie. Os destaques da banda continuam a ser as comedidas guitarras, a Telecaster de Jakob e a Les Paul de Michael Ward, as melancólicas linhas de baixo de Greg Richiling e os teclados anos 70 de Rami Jaffee. Simples e bem feito. Há também muita influência das folk songs, seja nas baladas conduzidas por violão e arranjos de cordas, seja pelo uso da técnica de slide guitar (que consiste em utilizar um dedal de ferro ou vidro deslizado sobre as cordas do instrumento). Para comprovar esse sotaque sulista, ouça Hand Me Down, Witness, Up From Under e Birdcage. A última, homenagem ou não, lembra muito Donovan.Breach não Break - A quebra, essa do título, não é profunda. Breach apenas corrobora a trajetória de Jakob, que busca fazer música atemporal e não ser apenas um rostinho famoso da indústria musical. Por isso, é mais melancólico que seu antecessor. Mas tem tanto apelo pop quanto Bringing.... Basta ouvir Letters from the Wasterland, Some Flowers Bloom Dead Mourning Train, Sleepwalker, que tem algo de californiano, e a agitada Murder 101, cujo refrão, de tão melódico, fica na cabeça por horas a fio. Para completar o disco, I´ve Been Delivered. Letra extensa, harmonia bem construída e teclado quase minimalista fazem com que ela se destaque. E a divisão e o timbre de voz de Jakob nessa faixa lembram muito a do pai, Bob Dylan. As letras permanecem tratando de temas cotidianos, de sentimentos comuns a todos os seres humanos. "Ligue as suas luzes/Estou voltando para casa/ Eu me libertei pela primeira vez" canta Jakob em tom de confissão em I´ve Been Delivered.

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