Jakob, filho de Bob Dylan, abre o jogo sobre carreira

Jakob Dylan não lembra da primeira vez em que assistiu ao filme Don?t Look Back ou de quantas vezes o viu. ?Só lembro que sempre soube da existência dele ? é um retrato de família básico?, diz, sobre a fascinante crônica da turnê britânica de 1965 do pai de Jakob, Bob Dylan, feita por D.A. Pennebaker. ?Por um lado, é o melhor documentário de rock já feito. Mas, ao mesmo tempo, é sobre um dos meus pais, quando ele era mais novo do que eu.? O Dylan mais velho tinha acabado de fazer 24 anos quando Pennebaker o retratou na escalada para a fama. Jakob, hoje um cantor e compositor bem-sucedido, fez 30 no ano passado. ?O mais interessante?, continua, ?é observar as regras sendo escritas naquela época. Foi o momento em que o rock deixou de ser bonitinho?.Jakob está bebendo café no lobby silencioso do hotel Four Seasons em Nova York. Parece estar vestido para trabalhar: Calça preta, sapatos marrons pesados e uma jaqueta de brim abotoada até o pescoço. Ele também chegou na defensiva, usando óculos escuros que fazem com que se pareça com um inseto guerreiro. Mas quando finalmente tira os óculos, seus olhos azuis como o oceano brilham com profundo orgulho enquanto ele fala sobre as cenas dos bastidores e as entrevistas em Don?t Look Back ? e como o filme mostra seu pai no momento em que criava um novo estilo estrela de rock?n?roll. Duas noites depois, Jakob está lindo de morrer. Ele e o Wallflowers ? o tecladista Rami Jaffee, o baixista Greg Richling, o guitarrista Michael Ward e o baterista Mario Calire ? estão nos estúdios da MTV para gravar um episódio de First Listen, onde bandas apresentam novas músicas, tocam ao vivo e respondem à platéia. O Wallflowers está lá para promover seu trabalho mais recente, Breach ? seqüência de Bringing Down the Horse, fenômeno de 1996 que vendeu 6 milhões de cópias no mundo inteiro ? e tocam duas das músicas mais pungentes do álbum, Sleepwalker e Hand Me Down.O melhor do programa é que durante as duas horas de gravação nem o apresentador nem a platéia mencionam o nome Bob Dylan. ?É bom estar numa posição onde o importante é a nossa música?, diz Richling, mais tarde, com um alívio visível. É como se Don?t Look Back nunca tivesse acontecido. ?A história dele é independente da minha?, Jakob admite, ao se referir ao pai. Durante a conversa Jakob nunca diz o nome Bob ou usa palavras como meu pai ou papai. É sempre a elíptica terceira pessoa: ele, dele. ?A música dele? - a música de Bob - ?é tão importante. E permanece há tanto tempo. Está nos livros de história, nas escolas. Há inúmeras biografias. Na maioria delas deve haver uma página que cita o nome dos filhos dele. E só.? A voz de Jakob se torna dura como aço. ?Eu não quero ser uma página em um livro.?A presença de palco de Jakob Dylan praticamente acontece do pescoço para cima. No pequeno palco de um estúdio em Manhattan, ele pára em frente ao microfone com um porte neutro, dedilhando uma guitarra Telecaster bege e não deixando transparecer nada de linguagem corporal enquanto o Wallflowers toca algumas músicas de Breach no ensaio para o First Listen: as melódicas memórias da turnê em Letters from Wasteland; Sleepwalker, áspera e com referência a Cupid de Sam Cooke; Some Flowers Bloom Dead, canção folk que fala sobre a total exaustão emocional. Seu cantar é baixo e rouco, mais próximo em textura e dinâmica aos ídolos de adolescência, Joe Strummer do The Clash e Paul Westerberg do The Replacements, do que a Bob Dylan. Quando ele chega a algum verso interessante ou a alguma vogal prolongada sua boca se parte em algo que é parte um sorriso, parte um estremecimento. E há os olhos. ?Às vezes eu brinco: ?Os olhos azuis ? é tudo o que as garotas querem??, diz Rammi Jaffee, 31 anos, um nativo de Los Angeles com uma personalidade calorosa e divertida, que, além de Jakob, é o único sobrevivente da primeira formação do Wallflowers no início dos anos 90. ?Os olhos do Jakob valem mais do que todos os meus teclados divertidos.??Nunca fiz macaquices no palco?, Jakob diz depois do ensaio, morrendo de desgosto. ?Rock de estádio ? eu nunca treinei muito essa especialidade. Eu sou muito realista também quando eu vejo outros caras implorando pelo amor do público. Isso me irrita. Você tem de acreditar no que faz.? O trabalho duro deu frutos. O Wallflowers ganhou dois Grammy em 1997 por One Headlight, incluindo a categoria Melhor Canção de Rock. Casado e pai de três menininhos, Jakob já não era só o ?filho do Bob?. Mas Jakob não se sentia confortável com o sucesso, em parte por causa da maneira como Bob e Sara Dylan criaram ele e seus irmãos mais velhos, Maria, Jesse, Samuel e Anna. ?Nós não crescemos com discos de ouro em casa?, Jakob diz. O guitarrista Michael Ward lembra-se de uma ocasião na turnê do Wallflowers, depois de a banda receber discos de ouro por Bringing Down the Horse na House of Blues, em New Orleans: ?Jakob me disse: ?Não sei se quero que este disco vire platina?. Ele esperava que o disco não virasse platina porque pareceria muito brega, muito popular?.Para escrever as canções de Breach, Jakob alugou uma pequena casa em Los Angeles, transformou-a em um pequeno estúdio e impôs a si mesmo horários de trabalho, das oito às cinco, na tentativa de encontrar uma nova e mais clara forma de compor. Ele a descobriu no último lugar em que procurou: na sua própria história. Nas músicas mais importantes de Breach, I?ve Been Delivered e Hand Me Down, Jakob vai fundo no assunto do parentesco e as expectativas que ele traz ? de maneira figurativa na primeira música e literalmente na última (?You won?t ever amount to much... How could you think you would be enough?? ? algo como ?Você nunca vai conseguir muita coisa... Como pôde pensar que você poderia ser suficiente??). Ferido, mas sem dúvida mais forte, ele toca a todos com sua vontade de confrontar o óbvio.?Sempre achei que Jakob tinha talento próprio como compositor?, declara o baixista Greg Richling, com orgulho fraternal. ?Vejo as pessoas dizendo ?Ele não é o pai?. Minha reação é ?Você também não, cara. Quem você pensa que é para dizer isso? Você quer compará-lo a alguém incomparável.?Jakob está sentado nos fundos de um jardim em um bistrô na região de Chelsea, em Manhattan, há apenas alguns quarteirões da Parsons School of Design, onde, em 1988, ele escreveu o que considera ser sua primeira música, 6th Avenue Heartache. Jakob tinha 18 anos e acabado de desistir de uma carreira em Arte depois de apenas três semanas estudando na Parsons. ?Ficou muito claro para mim que eu queria compor canções.? Ele não ia bem na escola; suas notas sempre foram baixas no colegial. Produzia mais em casa, onde aprendia música. Ouvia punk britânico ? The Clash, Elvis Costello e Buzzcocks ? com seus irmãos mais velhos e discretamente observava se Bob dava qualquer sinal de encorajamento e aprovação.Esses sinais eram muito sutis, Jakob diz, ?mas perceptíveis?. Coisas simples como Bob olhando a contracapa de London Calling do The Clash tinham grande importância. ?Não acho que ele desperdiçaria um minuto olhando para o disco se ele achasse que fosse terrível. E eu ansiava por isso. Eu não queria perguntar. Queria compreender as coisas sozinho, para de alguma maneira me sentir parte de uma geração diferente.? As turnês de Bob Dylan foram a outra escola de rock de Jakob. ?Nós sempre íamos junto?, Jakob diz, sobre as turnês do pai. Ele se lembra muito bem da turnê européia de 84. ?Foi quando eu comecei a encontrar pessoas que eu realmente admirava e pude ver como elas reagiam? ao encontrar Bob Dylan. ?Não vou revelar os nomes deles. Eles eram meus ídolos. E eu via como eles se derretiam. Eu vi isso inúmeras vezes? ? acrescenta ? ?e então percebi o por quê?.Sentindo-se confortável agora com seus feitos para falar publicamente sobre o pai, Jakob usa a analogia do negócio de família ? ?Quantos filhos e filhas fazem exatamente o que os pais faziam??, pergunta. ?Eu queria ouvir o som dos amplificadores sendo ligados; queria ver fios pela sala de estar. Eu adorava viajar de ônibus. Era assim desde que nasci. A única maneira de manter estas coisas seria fazendo o mesmo trabalho.?Aos 17 anos, Jakob ainda tinha sentimentos confusos ? uma devoção monástica ao compor músicas; uma relutância perversa em tocá-las para os outros. Ele morava na garagem da casa da mãe. Tinha uma guitarra e um amplificador. Um dos integrantes do Apples trabalhava como entregador de comida chinesa e quando Jakob precisava de dinheiro ele substituía o amigo nos turnos. Fora este, ele não teve nenhum outro emprego além de compor música. Slater e os outros Wallflowers falam bem da ética de Jakob no trabalho e da extrema relutância , desde o ínicio, de usar suas conexões familiares. Slater foi a um dos primeiros ensaios do Wallflowers num muquifo barato chamado Fortress Studios. ?O pior lugar em Los Angeles ? cinco dólares a hora?, diz. ?Pensei: ?Aqui está um cara que tem obviamente acesso a qualquer instrumento que quiser em qualquer estúdio. E ele está nesse buraco. Gostei disso.??Nas duas primeiras semanas de Jaffee no Wallflowers ele nem sabia o sobrenome de Jakob. ?Ele disse apenas que o nome dele era Jake?, Jaffee diz. ?Quando o sobrenome Dylan tornou-se apenas um detalhe e as pessoas queriam ouvir sua música, Jakob ficou muito mais relaxado?, conta Tom Whalley, presidente da Interscope/Geffen/A&M, que contratou o Wallflowers em 1995. Enrolando para beber o café naquele jardim em Chelsea, Jakob examina seu sucesso com um olhar mais duro. Ele compreende, de uma maneira que muitos de seus colegas nunca conseguiram, a diferença entre vender discos e fazer a história. ?Nada pelo que eu passei me impressiona?, diz. Ele não soa humilde ou com auto-piedade. Mas também não está brincando. ?Quero fazer algo que dure. Quero atingir as pessoas de alguma maneira que valha a pena. Não quero distraí-las. Não quero ser temporário?, fala. ?Acho que tenho uma chance ?, diz Jakob, com uma urgência aumentada ainda mais pelo brilho de seus olhos azuis. ?Eu cheguei até aqui. Eu posso fazer alguma coisa ou então desperdiçar tudo.?

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