Jair Rodrigues recebe amigos para sambão no Supremo

O bom humor característico e a disposição de Jair Rodrigues, 61 anos, foram os responsáveis pelos shows de hoje e amanhã no Supremo Musical, onde o cantor irá dividir o palco com sambistas como Noite Ilustrada, Almir Guineto, Tobias da Vai-Vai e seus filhos Jairzinho e Luciana Melo. Durante um show no Memorial da América Latina em novembro, em comemoração ao dia da Consciência Negra, Jairzinho viu o pai receber em seu camarim os amigos que hoje participam do show. Não demorou para que alguém começasse a cantar um samba e ser acompanhado por todos. Jairzinho achou que a brincadeira era muito boa para ficar só no camarim, avisou o pai, os amigos dele e armou os shows. A tônica, claro, será o samba, em composições de Ary Barroso, Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues e outros. "Mas não há nada esquematizado. Vamos fazer um pagode de mesa, uns partidos altos. Será uma brincandeira", explica Jair, que já admite fazer parte da velha guarda: "A molecada me trata de mestre", ri. Com 40 discos lançados, Jair começou a carreira como crooner em bares e casas noturnas. Seu primeiro álbum, em 78 rotações, foi lançado em 1962. O primeiro sucesso foi com Deixa Isso Prá Lá, samba meio falado, que hoje é conhecido como o primeiro rap brasileiro. Mas o que marcou sua carreira foi o primeiro lugar no Festival da Record, em 1966, com a música Disparada, de Geraldo Vandré e Téo de Barros. A partir daí mesclou sambas de sucesso com músicas sertanejas como Majestade o Sabiá e Menino da Porteira. Enquanto viajava para Jundiaí, onde se apresentou ontem divulgando o mais recente trabalho, o disco 500 Anos de Folia 2 - um apanhado da carreira gravado ao vivo - Jair falou ao Grupo Estado sobre sua carreira e o que pensa da nova geração. Grupo Estado - O que você anda ouvindo e o que pensa da mistura de MPB e música eletrônica?Jair Rodrigues - Ouço a mesma coisa dos anos 60 e mais. Pra poder comentar a gente tem que ouvir de tudo. Acho que toda mistura é boa. Em algumas músicas não funciona, mas acho positivo. Quando nós começamos, eu a Elis, o Jorge Ben, o Simonal, também éramos novidade. O negócio na época era só bossa nova. Só acho algumas letras de agora meio elitizadas. A nova geração tem curiosidade de conhecer a velha guarda?Sim, o pessoal que vai em casa ou que encontro nos shows está ficando fã de autores que eram desconhecidos pra eles. Eu acho bom a troca de informação. E o trabalho de seus filhos? (Jairzinho e Luciana Melo lançaram discos pela Trama este ano.) Eu amo. O trabalho deles é diferente. O Jairzinho é diferente de mim e a Luciana é diferente de nós dois. E o Jairzinho também produz, fez meus dois últimos discos. Ele passou cinco anos estudando em Boston (na Berklee School of Music). É mais fácil começar a carreira hoje em dia?Pra quem faz essas músicas que somem, só pra ir na televisão, sim. Mas pra quem faz trabalho mais próprio ainda é difícil. Novos festivais, como o da Globo, seriam a solução?Olha, meu irmão, a Globo tentou, foi válido. Mas os festivais entraram pra história. O que tem que ter hoje são programas musicais na TV onde se abram espaços para quem está começando. E as rádios também tem que começar dar valor à música brasileira. Você se considera um sambista ou um intérprete?Desde os anos 60 eu procurei fugir do rótulo de sambista. Claro que eu gosto de samba, está enraizado em mim, mas eu fui crooner durante quase dez anos. Eu tenho um repertório variado, vai do forró às serestas. Você trabalhou com Elis Regina no `O Fino da Bossa´ (programa da Record de 1965) e agora está na gravadora do filho dela, o Marcelo Bôscoli, como foi isso?Quem viu o programa foi feliz, já quem não viu... É uma pena que a Record não tenha mais esse material gravado, nem dos musicais. Quanto ao trabalho com o Marcelo, aconteceu. Meus dois últimos discos foram lançados pela Trama, que está assustando o mercado. Ela dá espaço para os novos valores e também para o pessoal das antigas. E você sabe que esse nome era da Elis? Trama?Sim, era uma idéia da Elis de criar um selo, uma gravadora que fosse uma proteção para o artista. Foi numa época em que todos nós estávamos sendo dispensados pelas gravadoras.Jair Rodrigues e convidados - Supremo Musical (Rua Oscar Freire, 1.000 tel.: 3062-0950). Hoje e amanhã, às 22h. Ingresso R$ 15.

Agencia Estado,

15 de dezembro de 2000 | 11h48

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