Jair Rodrigues lança novo CD no reino do samba

Sambista lança 'Jair Rodrigues em Branco e Preto', com produção assinada pelo Quinteto em Branco e Preto

Adriana Del Ré, especial para o Estado,

25 de março de 2008 | 15h52

O samba tem dessas coisas: aproxima distâncias sociais, junta raças, unifica gerações. Jair Rodrigues e o Quinteto em Branco e Preto foram favorecidos por esse cenário e seus caminhos se cruzaram. Eles vêm de universos diferentes. Com cinco décadas de carreira, Jair se firmou como intérprete eclético, marcou história nos festivais de música, foi parceiro de Elis, mas se fez mesmo no samba. Já o Quinteto, formado em fins dos anos 90, reúne uma nova geração com pés fincados no samba tradicional. É encabeçado por dois irmãos negros e outros três irmãos brancos (daí, o nome do grupo), oriundos da zona sul e leste de São Paulo. Ouça trecho de 'Orquestra Popular'  O que esse encontro rendeu? Jair acaba de lançar mais um CD de samba, Jair Rodrigues em Branco e Preto, com produção assinada pelo jovem Quinteto, que, por sua vez, põe no mercado o disco Quinteto em Branco e Preto - Patrimônio da Humanidade. Ambos da Trama.  Quando esse 46º álbum de Jair começou a ser confabulado, João Marcello Bôscoli, presidente da gravadora, perguntou ao cantor se conhecia o Quinteto e se toparia trabalhar com eles. Jair gostou da idéia, ainda mais porque tinha em mente um repertório basicamente de músicas inéditas. E nisso, o Quinteto poderia ajudar. Afinal, seus integrantes estão ligados ao Samba da Vela, comunidade que abre espaço para que compositores mostrem a própria obra.  Criada em 2000, no bairro de Santo Amaro, essa comunidade lembra outro celeiro do samba, o histórico Cacique de Ramos, no Rio, de onde despontaram nomes como Fundo de Quintal e Zeca Pagodinho. Mas o Samba da Vela tem suas particularidades. "A gente precisava colocar um limite de tempo nas rodas de samba e veio a idéia: quando a vela chega ao fim, a roda pára de tocar", conta o cavaquinista Maurilio de Oliveira, do Quinteto. Ali, os encontros ocorrem religiosamente às segundas. "Outras comunidades surgiram depois da Vela", emenda seu irmão, o músico Magnu Sousa.  O grupo levou para Jair alguns sambas conhecidos entre os freqüentadores da comunidade, mas nunca gravados. Logo, se estabeleceu um clima de entendimento. "Era hora de eles terem uma oportunidade maior, têm talento para que isso aconteça", diz o cantor. Quando ele e o grupo se encontraram, o Quinteto acabara de terminar a gravação de Patrimônio da Humanidade, em que tiveram carta branca para controlar todas as etapas do CD, da escolha das composições até a produção. Foi o laboratório que precisavam para assumir a função de produzir um disco de Jair. "Mostramos os sambas da Vela e incluímos os sambas que Jair queria gravar", diz o violonista Everson Pessoa. No final das contas, Jair Rodrigues em Branco e Preto emplaca várias inéditas, como Orquestra Popular (Luis Vagner e Bedeu) e Toda Maria (Azambuja e Almir Santana), e regravações. No bem-humorado Como Tem Ladrão (Ary do Cavaco e Otacílio da Mangueira), Jair canta as ladroagens que existem por toda parte. Ele traz ainda um samba-choro do filho, Jair Oliveira, Vida em Sonho. E mostra um lado autoral não muito recorrente em sua carreira, em Quem Falou?, parceria com Paulinho Dafilin.  No samba-forró Migração (Magnu Sousá e Maurilio de Oliveira), decidiu-se chamar um sanfoneiro para reforçar o tom regional da história do nordestino contada na letra. Jair logo lembrou de Dominguinhos. O cantor quis a presença de outro amigo, Germano Mathias, na gravação de Baiano Capoeira, de Jorge Costa e Geraldo Filme. Germano foi o primeiro a gravar um samba de Geraldo Filme e o fez justamente com Baiano Capoeira, no LP Ginga no Asfalto. "Germano é um dos grandes sambistas de São Paulo e essa nova geração não o conhece. Ele arrastou multidões nos anos 50", exalta Jair, que também atualiza outra canção, E Lá se Vão Meus Anéis. Parceria de Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro, ela foi vencedora do Festival Universitário da Música Popular, em 1971, na voz dos Originais do Samba.  No CD, há ainda um momento para relembrar a estreita relação entre o cantor e os sambas de enredo, no medley Marquesa de Santos (Nenê de Vila Matilde/1961), Independência ou Morte (Vai-Vai/71) e Exaltação a Tiradentes (Império Serrano/49). Jair ajudou a popularizar os sambas-enredo, registrando-os em discos. "Esse é o disco mais completo de samba do Jair Rodrigues", arrisca Vitor Pessoa, do Quinteto. O grupo também usa de seu CD Patrimônio da Humanidade para arquitetar uma radiografia do samba e suas variantes, rítmicas e temáticas. Explora as pequenas crônicas, as abordagens sociais, as letras sarcásticas. "O samba é patrimônio da humanidade, tudo se resume nesse título", define o percussionista Yvison Pessoa. "Deixou de ser um gênero musical e virou modo de vida." Sobretudo, para eles, que cresceram ouvindo o que o samba poderia oferecer de melhor.  A lição foi bem assimilada. Tanto que hoje quem os admira são os velhos mestres, os mesmos que os cinco rapazes reverenciavam na infância e adolescência. Caíram nas graças de Beth Carvalho, que se tornou sua madrinha e não se cansa de citá-los em entrevistas. O padrinho Nei Lopes também não. "Beth apareceu lá no bar Boca da Noite, no Bexiga, onde a gente se apresentava. A gente cresceu ouvindo o trabalho dela, todos os compositores que conhecemos foi através dela", conta Yvison. Além de acompanhar a madrinha, o Quinteto trabalhou com Monarco, Almir Guineto, Moacyr Luz, Paulinho da Viola, Jamelão, João Nogueira, entre tantos outros.  Eles gostam de fazer a ponte entre o tradicional e o novo. Por isso, além dessa exaltação explícita aos mestres, usam o Samba da Vela para descobrir talentos e dar oportunidade a eles em seus discos. Duas faixas do novo Patrimônio da Humanidade não poderiam contextualizar melhor essa via de mão dupla. São elas: o Pot-Pourri do Samba da Vela, uma homenagem aos compositores da comunidade, e a União da Velha Guarda, que reúne o coro da Velha Guarda da Camisa Verde e Branco a cantar Agora Que Eu Quero Ver, O Desfile e Eternamente Camisa.  Defensor da criação de um "business de samba", o Quinteto em Branco e Preto acredita que, a partir do momento que o gênero seja encarado de forma séria e profissional, terá chances de ganhar maior projeção. Para aproximar mais distâncias sociais, juntar mais raças e unificar mais gerações.

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