Jair do Cavaquinho: raridade no palco

Jair do Cavaquinho está com a mala feita há uma semana. É a ansiedade, a enorme vontade de subir ao palco para cantar suas músicas. Ao lado da cantora e compositora Teresa Cristina e do Grupo Semente, ele é a atração do fim de semana do Sesc Ipiranga. O show é o mesmo que estreou há um ano no Teatro Rival, no Rio. Naquela ocasião, Jair estava comemorando os 80 anos de idade e fazia seu primeiro espetáculo-solo.Oitenta anos de idade, mais de 70 de samba, conta Jair de Araújo Costa, um carioca de Madureira que antes de fazer 10 anos já freqüentava os ensaios da Portela, levado pela mãe. Durante um tempo, foi o Jair do Tamborim, por causa do instrumento que tocava na bateria da escola. Mas usava o cavaquinho para compor. Virou Jair do Cavaquinho, venerado por Paulinho da Viola, que ajudou a revelar, e por todo o mundo do verdadeiro samba.Começou a gravar nos dois volumes da coleção A Voz do Morro, em 1960; em 1965, integrou o conjunto Rosa de Ouro, que tocava no musical do mesmo nome, organizado por Hermínio Bello de Carvalho - os outros integrantes do Rosa de Ouro eram Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Sagento e Anescarzinho do Salgueiro. A principal voz do espetáculo era a sexagenária estreante Clementina de Jesus.Mais tarde, participou do grupo Voz do Morro (não confundir com os discos A Voz do Morro) - com os músicos do Rosa de Ouro mais Zé Kéti, Oscar Bigode e José Cruz - e do conjunto Cinco Crioulos - com Elton Medeiros, Anescarzinho, Nelson Sargento e Mauro Duarte.Se vale o "diga-me com quem andas", e vale, Jair do Cavaquinho está apresentado, no alto de sua glória. Suas composições começaram a ser gravadas nos anos 60. O primeiro sucesso foi Meu Barracão de Zinco, na voz de Jamelão, que foi também seu parceiro. Com Nélson Cavaquinho, fez, entre muitos sambas, Vou Partir, Eu e as Flores e Enquanto a Cidade Dorme. Elisete Cardoso, Noite Ilustrada, Nara Leão e o já citado Jamelão estão entre os intérpretes que registraram em disco suas músicas.No entanto, Jair do Cavaquinho nunca havia feito um disco-solo - o primeiro está pronto e vai ser lançado até o meio do ano, pela gravadora Acari - e nunca havia feito um show só seu. "Não houve chance, nenhuma fábrica me convidou antes e eu tinha os conjuntos, então fui levando", conta Jair, sem fazer queixa. "Eu cantava as minhas músicas, nos discos dos conjuntos", lembra. "E nem estava pensando em gravar um disco só meu, em fazer um show só meu. Aconteceu e me sinto de um jeito que nem parece que tenho 80 anos."Talvez a participação de Jair no show e disco (produzido por Marisa Monte) Tudo Azul, com a Velha-Guarda da Portela, tenha chamado a atenção de um público mais amplo para sua música sensível. Não são poucos os que acham que a música mais bonita do disco e do show é a valsa Eu te Quero, que ele canta acompanhando-se ao cavaquinho.Mas a idéia do disco-solo foi da cantora e compositora Teresa Cristina, uma portelense de 33 anos, integrante da ala dos compositores da escola. Teresa Cristina é a voz de frente do Grupo Semente, que se apresenta aos sábados, na Lapa, no centro do Rio. Aqueles encontros - com outros, de outros pontos da cidade - estão formando novo público para o samba, ajudando a fazer lembrados os grandes nomes do gênero, revelando novos valores."A Teresa Cristina é minha irmãzinha, ou melhor, minha filha, porque assim estou pondo idade demais nela, que me chama para tudo", diz Jair, carinhosamente. Teresa Cristina conta: "Quando seu Jair me disse que ia fazer uma festa para os 80 anos, eu achei que estava na hora de fazer um show." Os companheiros de roda de samba fizeram a vaquinha, alugaram o Teatro Rival. O bandolinista e violonista Pedro Amorim, integrante do conjunto O Trio, resolveu produzir o disco. Que só poderia mesmo ser bancado pela gravadora Acari, capitaneado pela cavaquinhista Luciana Rabello e pelo violonista Maurício Carrilho. Gente que fala a mesma língua - por sinal, Maurício toca com Pedro Amorim n´O Trio.Portanto, a chegada de Jair do Cavaquinho à frente da cena é resultado do esforço coletivo de gente que lida com a música de raiz. Uma resposta ao falso samba dos grupos de pagode de butique que invadiram as rádios e TVs - não um desagravo, mas a reação natural de quem trabalha de fato com a cultura da tradição popular, e não com tolices boladas em salas refrigeradas de multinacionais do disco.Cultura da tradição popular não quer dizer somente samba. Embora a Portela já tenha entrado na avenida cantando samba de Jair (Treze Naus, 1969) e suas composições mais conhecidas sejam sambas - originalmente sambas de quadra, ainda que eventualmente modificados na hora da gravação (Leny Andrade, por exemplo, transformou Vou Partir em bossa nova - e Jair achou muito bonito), ele faz marchas, marchas-rancho, sambas-choro, caxambus, maxixes, jongos e até cateretês - como é o caso de Soltaram Minha Boiada, que está no repetório do disco - mas não no do show.O espetáculo tem direção musical (e participação instrumental) de Pedro Amorim. Outra participação instrumental é a de Carlinhos Sete Cordas. O Grupo Semente é formado por João Callado (cavaquinho), Bernardo Dantas (violão), Pedro Miranda (pandeiro), Ricardo Cotrim (surdo) e Pretinho (percussão). É a mesma turma que está no disco. E que promete voltar aos palcos, acompanhando Jair do Cavaquinho, quando o CD de estréia for, finalmente, lançado.Jair do Cavaquinho. Amanhã (16) e sábado, às 21 horas. De R$ 6,00 a R$ 12,00. Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822, tel. 3340-2000.

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