Selo Sesc
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Jacob do Bandolim ganha uma última homenagem em seu centenário

Depois de Hamilton de Holanda lançar caixa com quatro discos, Selo Sesc traz álbum com as duas pontas geracionais do choro influenciadas pelo mestre: os bandolinistas Fabio Peron e Joel Nascimento

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2018 | 03h00

E Jacob criou Joel, Paulinho, Henrique, Izaías, seus chorões e toda uma linhagem de homens que tiveram filhos banhados em suas águas. Vieram Fabio, Hamilton, Henrique, Yamandú – e tudo leva a crer que outra geração chegará em seu nome, e depois outra. E outra. Seria bíblico se não fosse científico. Há cem anos, o homem que definiu as fronteiras elásticas do choro como linguagem nascia simbolicamente no bairro da Lapa, no Rio, filho de um capixaba, Francisco Gomes Bittencourt, e de uma judia polonesa, Raquel Pick. Alguém que jamais deixaria de buscar os melhores resultados em discos lançados entre 1947 e 1967, obcecado pelo acabamento, pela qualidade e pela limpeza estética, faria a maior escola em seu instrumento. O criador que tinha o bandolim como peça que ligava o mundo interior ao exterior com uma riqueza verbal das mais profundas não envelhece. “Ele deixou a discografia mais perfeita de um solista da música brasileira”, diz Henrique Cazes.

Cavaquinhista, violonista e pesquisador de música brasileira, Cazes é coprodutor do álbum Jacob do Bandolim 100 Anos – Sentimento e Balanço ao lado de Carlos Alberto Sion, que o Selo Sesc coloca às vistas neste final de ano. Um álbum de acabamento sublime, como gostava Jacob, e que promove um grande encontro entre linguagens de duas pontas geracionais do bandolim igualmente influenciadas pelo criador de Vibrações, Doce de Coco e Noites Cariocas. De um lado, Joel Nascimento, 81 anos, uma das últimas referências de sua era no choro. Do outro, Fabio Peron, de pensamento modernizador e desenhos ágeis, vigorosos, envolventes. As duas escolas ali, unidas por um homem que já tocava com uma das mãos na tradição e outra no que um dia seria objeto de desejo dos mais jovens: o virtuosismo. “Embora tivesse um discurso muito conservador, dizendo que a harmonia deveria ser sempre quadrada, ele mesmo não praticava isso”, diz Henrique. “Seu discurso, no final, era mais conservador do que a prática.” 

Assim, a pureza de Jacob, pelas mãos de Joel e Fabio Peron, com o centro criado pelas sete cordas do violão de João Camarero (um próximo ás que as rodas já conhecem bem, um talento irrefreável), o pandeiro de Beto Cazes (irmão de Henrique), e músicos convidados, como o Silvério Pontes e Rogério Caetano (outro grande das sete cordas de aço), aparece em temas como Vibrações, Bola Preta, Por Que Sonhar?, Gostosinho, Doce de Coco, Dolente, Pé de Moleque e Noites Cariocas.

O coprodutor e diretor artístico Carlos Alberto Sion fala do que percebe ao liderar um projeto como esse: “Jacob imprimiu, com o bandolim criado por ele, um toque de qualidade na música instrumental brasileira do século passado tirando a ranço de ‘coisa de cabaré’ ou de ‘sarau dos elegantes da época’.” Sua identidade se forma, diz Sion, “por cultura e formação musical influenciada pela mãe europeia, que permitiu que o choro, hoje, fosse considerado, por seus inúmeros recursos de improvisação, o jazz brasileiro.”

Se era em discurso um conservador, Jacob não poupava riscos em suas composições. Quando uma nova safra de instrumentistas surge, há coisa de 15 anos, isso fica claro. Em nome do músico, eles levam as possibilidades do instrumento ao limite máximo. Hamilton de Holanda aproveitou o ano do centenário de Jacob e lançou logo uma caixa. Hamilton de Holanda toca Jacob do Bandolim traz quatro álbuns, Jacob Black, Jacob Bossa, Jacob Jazz e Jacob Baby. Os tradicionalistas que interpretavam os provérbios de Jacob do Bandolim literalmente podem acusar heresias. Os reformistas, jamais. 

A presença de Joel Nascimento no projeto é um feito. Joel, nome fundamental ao choro, vive um drama e uma vitória a cada tema gravado. Seus 80 anos pioraram o que, desde os 19, nunca foi excelente: a audição. 

Mesmo esforçando-se para se firmar na carreira de músico, seu ouvido direito ficou completamente comprometido já aos 22 anos. Com o passar do tempo, o esquerdo piorou e, hoje, funciona muito pouco. Resultado: Joel, sem ouvir quase nada, toca por instinto, por acreditar no som que não vem mais do ar, mas da alma.

“Não é fácil”, conta Henrique Cazes. “Varia, conforme o dia. Às vezes ele está tranquilo, mas há dias que é desesperador. Ele fica ansioso e as coisas passam a não funcionar muito bem.” Da mesa de som, Henrique precisa ajudar o mestre a se guiar com o pouco que consegue perceber de sons. “Mais violão, mais pandeiro, mais cavaquinho. Temos de saber como podemos ajudá-lo mais no momento de colocar um instrumento como guia.”

Henrique Cazes e seu grupo conhecem bem Joel. Juntos, fizeram no ano passado uma turnê para celebrar seus 80 anos de vida. “Vivi momentos que posso dizer que são assustadores. Aqueles em que perguntamos ‘será que acabou? Ou será que ainda vamos fazer mais um disco?’”.

Ao mesmo tempo, há passagens fisicamente inexplicáveis. Como, por exemplo, entender o dia em que Joel chegou ao estúdio com um bandolim que não era o seu e depois percebeu um truque na mixagem final? Naquele dia, Henrique fez um belo trabalho e acabou aproximando o som do bandolim novo ao que Joel tanto gosta. Quando ouviu, o músico comentou: “Mas você fez meu bandolim soar como se fosse o outro”. Seu ouvido, nesse dia, resolveu funcionar muito bem.

Outro dia, Joel iria usar um paletó para tocar, mas foi advertido por Henrique. “É melhor não usar isso, Joel. Assim, você não vai sentir a vibração do instrumento em seu corpo.” Essa é uma das estratégias que um músico surdo ou com deficiência auditiva em algum grau pode usar para perceber a intensidade das notas que toca. Joel se guia pela vibração de seu instrumento no peito.

Está sendo preparada, para o próximo ano, o lançamento de uma biografia de Joel Nascimento. O jornalista Jorge Roberto Martins, filho do compositor Roberto Martins, é o autor. Henrique Cazes fez a introdução do livro.

“Se fosse outro músico de 80 anos, esse encontro não seria possível”, diz Henrique sobre o pensamento contemporâneo de Joel. Muitas vezes ao contrário do que o próprio Jacob pregava – o purismo e a negação de linguagens modernas à época, como a bossa nova –, Joel não se limita a padrões. “Nunca foi um conservador, só gravou choro tradicional nos anos 1990. Não fez isso em seus primeiros 20 anos.” O improviso, quando comparado ao jazz, se diferencia por uma questão crucial. No choro, mesmo quem sola, serve ao outro. No jazz, a história é outra.

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