Jackson do Pandeiro ganha sua primeira biografia

Analfabeto, franzino, tímido, desengonçado, cabeça chata, subnutrido, órfão de pai, ajudante de padeiro, músico de prostíbulo, chegado a uma birita, marido de "mulher da vida", mulherengo, acusado de bigamia. O menino Jack só seria rei de alguma coisa se fosse do submundo. Só daria certo na vida por intercessão de Padre Cícero. Mesmo que o caminho que ligava o sertão paraibano ao trono fosse longo e ressecado, ele existiu para Jackson do Pandeiro. Registrado José Gomes Filho em 1919, Jack pastou até receber o título de "Rei do Ritmo". E, mesmo depois de recebê-lo, comeria migalhas com a chegada da bossa nova, do iê-iê-iê e da tropicália.Roteiro da fama - Jackson morreu aos 62 anos, em 1983, quase tão esquecido quanto era em sua miserável infância vivida nas ruas de Alagoa Grande, na Paraíba. Mas, descobre-se agora, não silenciou seu Pandeiro um dia sequer.Sua primeira biografia, assinada pelos jornalistas Fernando Moura e Antônio Vicente, remonta, além do perfil mais realista e completo já feito sobre o percussionista, toda uma obra que permanecia pulverizada por cidades que o músico usou como seu roteiro para a fama. Jackson do Pandeiro - O Rei do Ritmo (Editora 34, 412 páginas, R$ 32) levou oito anos para ser concluído. Moura e Vicente seguiram pegadas deixadas por Jackson nas paraibanas Alagoa Grande, Campina Grande, João Pessoa, no Recife e Rio de Janeiro. Em cada cidade, mais e mais criações jacksonianas eram descobertas. Resultado: há exatas 415 gravações deixadas pelo ritmista catalogadas na obra.De mãe para filho - "Quem mais conhece Jackson do Pandeiro deve saber de umas 50 músicas ou um pouco mais. Ninguém tem noção da riqueza e grandiosidade de seu trabalho.Há coisas curiosíssimas que conseguimos encontrar com as pessoas que, em algum momento, viveram ou tiveram algum contato com ele", conta Moura, que é também músico e presidente da Associação Centro Histórico Vivo de João Pessoa.Na época das vacas gordas, mais precisamente de 1953 a 1962, Jackson do Pandeiro gravava média de três discos por ano. Esta produção despencaria com o advento da turma de João Gilberto. E seria quase que enterrada com a chegada da jovem guarda e, em seqüência, da tropicália. Nos anos em que a bossa nova começou a aflorar, Jackson já estava no Rio de Janeiro sendo chamado de rei dos cocos, emboladas e forrós tão em ascensão no "Sul maravilha". Filho da cantora de emboladas Flora Mourão, mulher forte que criou os quatro rebentos praticamente sozinha e com pulso militar, o menino Zé Gomes ganhou o Jack tamanha sua admiração pelo ator da terceira divisão dos filmes de bang bang hollywoodianos, Jack Perrin. Fascinado ao ver sua atuação no cinema, Jackson o imitava em seus trejeitos. Para desespero da mãe, passou a ser chamado de Jack pelos amigos de infância. "Mas é danado mesmo. A pessoa batizar o filho por José e aparecer agora com o nome de Jack, que nem sei de onde veio", reclamaria Flora. A morte do pai fez a família deixar Alagoa Grande e se mudar para Campina Grande. Lá, o garoto de 13 anos imprimiu um ritmo curioso em sua vida. De dia, trabalhava como ajudande de padeiro. À noite, freqüentava as casas da região do baixo meretrício, onde conseguia se apresentar como pandeirista e, obviamente, conquistar mulheres. Uma delas seria sua primeira mulher, novamente para desencanto de dona Flora. Como lembra o jornalista Tárik de Souza no texto de apresentação do livro, Jackson do Pandeiro chegou a vender 50 mil cópias de seu primeiro disco 78 rotações na cidade do Rio de Janeiro. Na mesma época, a cantora Ângela Maria atingia a média de 20 mil. O barulho do coco Sebastiana e do rojão Forró em Limoeiro despertou o interesse dos cariocas. Mas nada do moço arretado dar as caras pela cidade.Sua guinada começa então em 1954, quando resolveu chegar ao Rio. Mas não de avião, de navio. Seu pavor de vôos o fez encarar a exaustiva viagem pelo mar. Jack na bossa - Até o declínio ocorrido em meados dos anos 60, ora com a companheira Almira Castilho, ora sozinho, ora com a fã que se tornou musa, Neuza Flores, Jackson seria a sensação nas rádios e nos programas de televisão.Compositor e instrumentista compulsivo, gravou tanto que morreu sem ter a exata noção do quanto havia contribuído para a valorização dos ritmos nordestinos na música brasileira. Ironicamente seriam os próprios tropicalistas, nos anos 70, que redescobririam um artista preterido por gravadoras e programas de televisão. A Gilberto Gil, que teve grande sucesso com a gravação de Chiclete com Banana, Jackson agradeceria até o fim de sua vida.No material da dupla de pesquisadores aparecem Jacksons inimagináveis. Nos anos em que se sentiu ameaçado pela bossa nova, chegou a gravar temas com características harmônicas e melódicas semelhantes ao ritmo carioca. Algo absolutamente inesperado para um cantor que tinha como característica principal a quebradeira rítmica que imprimia em seus cocos, que da complexidade harmônica do jazz passavam longe.Outra que poucos sabem é a ligação de Jack com os sambistas cariocas. Logo que chegou ao Rio de Janeiro, criou uma produtiva rede de amigos partideiros. Bezerra da Silva, antes de assumir a malandragem dos pagodes, lançou-se com um disco de cocos produzido por Jackson. Uma canção desconhecida, chamada Twist Não, é outra de suas fagulhas de genialidade encobertas. Usando-se do ritmo americano, incorporado ao mercado brasileiro pelo pessoal de Roberto Carlos, Jackson satiriza o gênero importado.Fernando Moura lembra que, nos oito anos em que se embrenhou pelo País, foi mais um arqueólogo do que qualquer outra coisa. "Encontramos gravações em sebos, feiras e museus, principalmente no Museu Luiz Gonzaga. Na verdade, foi um grande mutirão para recuperar Jackson."

Agencia Estado,

15 de outubro de 2001 | 10h15

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