Jack Johnson levanta suas ondas de som no Anhembi

Não duvide: ele não é um surfistafarsante, um Peterson Foca fanfarrão, daqueles que só usa aprancha para tirar foto. Nascido em Oahu, no Havaí, vizinho degente como Gerry Lopez e Laird Hamilton, ele surfa desde os 4anos, foi campeão pela primeira vez aos 10 anos e com 17 eraprofissional. Jack Johnson, ainda por cima, é filho de JeffJohnson, de South Bay, uma das grandes lendas da história doesporte, hoje beirando os 60 anos. Mas atualmente, as ondas que Jack Johnson levanta sãomansas, relaxantes, tocadas delicadamente em seu violão. Depoisque um acidente feio no Pipeline Masters o obrigou a interrompera carreira no mar, ele encarou profissionalmente o lado demúsico. Sua primeira aposta musical foi a canção Rodeo Clowns,cedida para o disco de G. Love, Philadelphonic, em 1999. Em 2002, ele já alcançava o topo das paradas com umálbum repleto de baladas acústicas, Brushfire Fairytales. Folke blues temperados com reggae e hip-hop. No ano passado, saiu oultracool In Between Dreams, produzido por Mario Caldato Jr.Poucas coisas foram mais tocadas nos últimos meses que suaondulante balada Sitting, Waiting, Wishing. Johnson acaba de lançar, com amigos como Ben Harper, atrilha sonora Sing-A-Longs & Lullabies (Universal), para ofilme Curious George, sobre personagem de H.A. Rey. Uma dascanções do disco, Upside down, está entre as mais tocadas nasrádios de São Paulo há um mês. No disco, coube até um cover deWe?re Going To Be Friends, do White Stripes. Johnson faz 31 anos no mês que vem. Ele começou a tocarviolão aos 14 anos, dividido entre Metallica e Cat Stevens.Graduado em cinema pela Universidade de Santa Bárbara(Califórnia), dirigiu filmes de surfe, como Thicker than Water e, na música, confessa influências, entre outros, de Nick Drake Beatles, Bob Dylan, Neil Young e Akira Kurosawa. O show que faz nesta sexta, às 21h30 no Anhembi, em São Paulo, está com ingressos esgotados, Agência Estado - Então, Jack, o que espera desseprimeiro show no Brasil? Jack Johnson - Cara, estive esperando por isso durantemuito tempo! Tenho amigos no Brasil, todos me falam maravilhasdaí. E eu nunca estive no seu país antes, embora goste muito dosritmos brasileiros. Então, espero que tudo seja uma grande festa Terei ainda um dia de folga no Brasil depois dos shows, querover se consigo conhecer um pouco melhor o seu país.Atualmente, há um monte de novos cantores folk nosEstados Unidos, gente como você, Bright Eyes, Devendra Banhart,Sufjan Stevens. Porque você acha que isso está acontecendo?Não sei dizer. Acho que o que define essaspessoas que você cita é que a música vem antes da produção e àsvezes não requer acabamento. Um homem sozinho cantando implicamenos mídia, menos armação. Hoje em dia, a internet também tornaas coisas mais fáceis, um garoto pode produzir sozinho seu somem casa, contando apenas com seu violão ou seu teclado. Há maisliberdade. Desses nomes que você falou, meu preferido é BrightEyes.E como era no seu começo? Quem você ouvia mais?No meu início, ouvia muito Cat Stevens, BobDylan. Quanto tinha uns 18 anos, muito rock. Mais recentemente,devo confessar que Ben Harper foi uma influência. E como foi trabalhar com Ben Harper, tendo sido eleum influenciador?Foi maravilhoso. Primeiro, conheci J.P.Plunier, que trabalha com Ben. Ele tinha ouvido uma demo que eugravara no final dos anos 90. J.P. trabalhou comigo no meu discode estréia, e trouxe Ben para fazer uma participação. Tocamos aovivo em um festival e depois disso mantivemos contato. Depois,excursionei abrindo shows para ele. De certo modo, ainda sou umaluno dele, um grande fã que tem a sorte de tocar com ele.Ben Harper declara influência maior da Motown e damúsica negra dos anos 70.Mas eu também amo a Motown e aquela músicanegra. Sempre ouvi muito Ray Charles, Otis Redding. Liricamente,fui mais influenciado pela folk music, mas musicalmente, mesinto mais próximo do soul dos anos 60 e 70 do que da folk musicE quanto ao Havaí? Você é havaiano, mas sua músicasoa muito mais como música californiana.O violão é algo muito havaiano. Mas vocêprecisa ver que, no Havaí, há muita música, como em todo o mundo O reggae é muito popular por lá. Bob Marley é muito influentetambém. No disco In between Dreams, eu gravei uma música queevoca a tradição havaiana, Constellations. É algo que está emmim, mas que eu não forço.Seus shows mostram duas coisas interessantes.Primeiro, que sua platéia é sempre composta de gente muito jovem que compartilha um espírito meio comunitário com você, essacoisa da ecologia, da natureza. Como você consegue isso?Pergunto a mim mesmo e não acho a resposta.Sorte minha que são pessoas tão jovens, que entendem o que digo,mas não sei por quê. De fato, é nossa linguagem comum, a música,que permite o entendimento. Eu apenas adoro o que faço, dou omelhor de mim no palco, e isso é entendido pelos jovens. É umagrande sorte.Quem viu um show seu disse que é impressionantecomo você consegue colocar 20, 30 mil pessoas em silêncioouvindo sua música.Às vezes é preciso que fiquem em silêncio paraouvir a letra, para entender o significado. O fã quer saber queestá ali pela razão certa. Mas não faço questão que fiquem emsilêncio. Muita gente canta comigo, e isso é arrepiante. Esperoque todos aproveitem a noite aí no Brasil.Jack Johnson. 16 anos. Anhembi. Av. Olavo Fontoura, 1209. Sexta, 21h30 (17h30, abrem portões; 20h15, banda ALO).R$ 120 (pista) e R$ 380 (VIP). Ingressos esgotados.Crítica do novo CD, por Lauro Lisboa GarciaCertos radicais torcem o nariz para o bom-mocismo e a música de surfista de Jack Johnson, mas, como se não bastasse a trajetória interessante entre adolescentes e adeptos do neo-folk, ele agora tem vez com o público infantil. Seu quarto trabalho é a trilha sonora do desenho animado Curious George, que deve estrear este semestre no Brasil. Puxado pela simpática Upside Down, o CD é uma expedição vitoriosa do compositor/cantor pela seara infantil, inspirado no macaquinho do filme. Uma das virtudes de Johnson é o despojamento, reflexo da vida mansa que leva, com pé na areia, prancha, violão e rodas de amigos. Neste Sing-Alongs And Lullabies: Songs For The Film Curious George (Universal) ele até acrescentou um "and friends" ao próprio nome, reforçando o clima de camaradagem. É claro que o bacana Ben Harper, um dos que mais o incentivaram, está entre eles; bem como o tecladista e cantor Zach Gill, líder da banda ALO (Animal Liberation Orchestra), que vai abrir o show de Johnson amanhã. Meio áspera, sussurrante, a voz de Johnson soa confortável, bem como seu violão e o ukulele, dedilhados com a naturalidade compatível com seu estilo. As canções - entre alegres, suaves, educativas, ternas e divertidas - em formato acústico, também não oferecem ?perigo? aos ouvidos sensíveis. São todas bem bonitinhas. Johnson é o mesmo de sempre, mas aqui não aborda só as amenidades com as quais alimenta os sonhos femininos. Sem perder a ternura, parece subir um grau na ?responsabilidade? ao lidar com os menores. Como muitos que fazem música em torno do universo infantil hoje, ele preza também a relação com os adultos; e com isso acaba flechando os dois alvos. The 3 R?s, por exemplo, alerta de forma lúdica para a necessidade de reduzir, reusar e reciclar, que nem passa pela cabeça de muito marmanjo. The Sharing Song desperta o senso de solidariedade. E por aí vai... Dez das 13 faixas do CD são novas, as outras são regravações. A mais bacana delas é We?re Going to Be Friends, bem mais serena que a original do White Stripes. É uma daquelas boas oportunidades para todo mundo cantar junto.

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