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Jack Bruce, baixista que ensinou Clapton a tocar em trio, vem ao Brasil

Prestes a fazer show em São Paulo, lendário baixista fala de Ringo Starr, Eric Clapton e do pai de todos, o blues

Jotabê Medeiros - O Estado de S.Paulo,

15 de setembro de 2012 | 12h31

Se Eric Clapton era Deus, quem diabos era Jack Bruce?, escreveu o jornalista Marco Rossi na revista Shinding!

Jack quem?, dirá o desavisado. Bom, Jack Bruce tocou com John Mayall. Compôs com Frank Zappa. Recusou integrar a banda de Marvin Gaye. Integrou o grupo de Tony Williams. Tocou com Ringo Starr, Peter Frampton, Mick Taylor, Gary Moore, Paul McCartney. Foi convidado para tocar com Crosby, Stills, Nash & Young.

Mas Jack Bruce só precisou gastar dois de seus 69 anos para virar lenda. Foi entre 1966 e 1968, na banda britânica Cream, cometa do blues rock que Bruce integrou ao lado de uma jovem promessa da guitarra, Eric Clapton, e do seminal baterista Ginger Baker.

Pois bem: Jack Bruce está vindo ao Brasil pela primeira vez. Toca com uma big band de blues no Teatro Bradesco no dia 24 de outubro (no dia 26, apresenta-se em Porto Alegre). O grupo que traz consigo: Tony Remy (guitarra), Frank Tontoh (bateria), Paddy Milner (piano e teclados). Nick Cohen (baixo), Winston Rollins (trombone), Derek Nash (sax tenor) e Paul Newton (trompete).

“Sempre volto para meu primeiro amor, o blues. O blues atravessa toda a boa música, nos reconecta com a África, traz as memórias de todo nosso desenvolvimento”, disse Bruce ao Estado, falando com exclusividade por telefone, de Londres.

O sr. está vindo ao Brasil pela primeira vez. O que conhece de música brasileira?

Conheço um pouquinho. Villa-Lobos, por exemplo, e também um pouquinho de bossa nova, um outro pouquinho de Jobim.

O sr. toca música clássica, jazz, mas sempre volta ao blues. Por quê?

Acho que o blues atravessa toda a boa música. O blues nos reconecta com a África. Toda a música, inclusive a música clássica, pode conter o sentimento do blues. Gosto de tocar coisas diferentes, mas estou sempre voltando para o meu primeiro amor, que é o blues.

Ouvi que uma de suas mais remotas influências foi um baixista da Motown chamado James Jamerson. Isso é verdade?

Acho que todo baixista, de uma maneira ou de outra, teve influência de James Jamerson. Penso que ele está entre os mais influentes dos velhos dias: James Jamerson, Paul McCartney e eu. Jamerson foi um dos primeiros, senão o primeiro, a tocar coisas melódicas no baixo.

Por que o sr. escolheu o baixo?

Por que não? Eu adoro segurar a música no topo, fazer duas coisas ao mesmo tempo, apontar a direção e criar uma música em torno dessa trilha.

O sr. acaba de lançar um disco, Spectrum Road, sobre o legado de Tony Williams. É uma colaboração com diversos músicos.

Eu toquei com Tony numa banda chamada Lifetime. Vernon Reid é o guitarrista, John Medeski toca teclados. É um jeito de manter o nome e o legado de Tony Williams vivos.

É verdade que o sr. fez um transplante de fígado em 2003?

Não é algo de que eu goste de falar muito, mas aconteceu. Só digo que tenho muita sorte de ter sobrevivido. Não me tornei mais espiritual ou menos espiritual por causa disso. Não mudou muito na minha forma de ver o mundo. Só acho que é maravilhoso estar vivo, mas ainda sou a mesma pessoa.

Seu álbum solo Songs for a Taylor foi o mais bem-sucedido depois do Cream, certo? O que o tornou tão referencial?

Foi muito bacana porque o Cream se celebrizou por ser uma banda ao vivo muito poderosa, com reputação de fazer grandes apresentações. Depois do Cream, eu me aventurei a fazer um disco no estúdio, então eu usei quatro metais, teclados, George Harrison participou. Era algo diferente do Cream, em outra direção, de ir para a frente, acho que isso também ajudou a tornar o disco autônomo, interessante. É o que sempre tento quando gravo um disco: mover-me para a frente. Recentemente, toquei em uma orquestra sob a regência do alemão Eberhard Schoener.

O sr. vai tocar alguns standards aqui, não?

Não sei tocar standards. Vou tocar algumas canções velhas e outras canções recentes. É uma das melhores bandas ao vivo desse país neste momento. Frank Tontoh, o baterista, é de uma banda africana, e é fenomenal. Amo tocar com esses caras.

Há uma diversão muito frequente entre críticos de música, que é fazer listas. E o baterista Ginger Baker, seu ex-colega de Cream, sempre está no topo como o melhor baterista de todos os tempos. O sr. o considera o melhor?

Eu sempre digo que a música não é igual ao futebol. Não é uma competição. Mas bateristas são muito competitivos. Ginger está entre os melhores, é fato. Há outros fabulosos. Gosto demais de Tony Williams e Billy Cobham. E de Simon Phillips e Ringo Starr. E Aynsley Dunbar, um belo baterista. Cada um deles é grande de um jeito único. Se me perguntasse qual o maior com que já toquei, eu diria Tony Williams. Mas se me perguntasse qual o maior do rock, seria Ginger Baker.

O sr. também mencionou Ringo Starr. Ele divide opiniões, há quem não o ache relevante.

Ringo mudou completamente o jeito de se tocar bateria no rock. Ele não tem o reconhecimento que merece.

Qual é seu relacionamento com Eric Clapton hoje em dia?

Não tenho falado com ele há algum tempo. Acho que ele está um pouco recolhido ultimamente porque trabalhou duro a vida toda. Quer dar um tempo agora. Eu, da minha parte, não penso em me aposentar. Sempre tenho um projeto novo. Agora, estou indo para o Brasil, país do qual eu admiro muito o futebol. Não gosto tanto do futebol inglês, é comercial demais, tem dinheiro demais. Sou torcedor do Liverpool. A Espanha tem o futebol mais vistoso do momento, isso é fato.

JACK BRUCE

Teatro Bradesco. Rua Turiassu, 2.100, 3º piso do Shopping Bourbon, tel. 3670-4111.

Dia 24/10, às 21 h. R$ 100/ R$ 250.

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