Izabel Padovani se apresenta hoje no Sesc Carmo

Antes de vencer a oitava edição do Prêmio Visa de Música Brasileira em 2005, pouca gente tinha ouvido falar de Izabel Padovani. Paulista de Campinas, radicada na Áustria desde 1996, ela passou quatro anos sem voltar ao País. O resultado do prêmio contribuiu para acelerar seu retorno. Com outros três álbuns no currículo, Izabel acaba de lançar seu primeiro trabalho no mercado nacional, Desassossego (Gravadora Eldorado). Ao lado do baixista Ronaldo Saggiorato ela se apresenta hoje no Sesc Carmo, mesclando o repertório do novo CD com o do anterior, Tons. No roteiro, canções de Chico Buarque e João Bosco (Mano a Mano), Caetano Veloso (Circuladô de Fulô), Villa-Lobos (Prelúdio n.º3) e Vitor Ramil (Foi no Mês Que Vem), entre outros. "Apesar de ser só voz e contrabaixo, não é um show nada intimista", avisa a cantora. Não duvide: o suingue que ela imprime a sambas como Mano a Mano é de impressionar. Izabel já se prepara para percorrer o sul do País em junho e julho. No dia 28 de junho ela se une a Saggiorato e Marcelo Onofri no Sesc Pinheiros para mostrar o novo trabalho. Para setembro já está agendada sua participação no Festival de Itajaí, em Santa Catarina. Depois, eles seguem em turnê pela Áustria e Alemanha. "É muito gratificante essa volta ao Brasil, que é um país lindo. Depois de vencer o prêmio ficou tudo mais fácil; de outra maneira não seria possível", diz a cantora. "Não gosto de rótulos para definir se a música é comercial ou não, mas ainda existe essa coisa de a indústria fonográfica ser um bicho-papão. E esse problema a gente enfrenta não só aqui, mas também lá fora", compara. Izabel considera que, de certa forma, Desassossego é mais uma concretização de sua parceria com Saggiorato, que divide com ela a direção musical do CD e assina os arranjos com o pianista Marcelo Onofri. Ambos estão ligados intrinsecamente ao projeto musical que a cantora vem desenvolvendo, equilibrando a voz e o instrumental no mesmo nível. Parceiro de longa data, Onofri participou de seus dois primeiros álbuns, Mar & Bel e Hein?, e Saggiorato dividiu com ela os méritos de Tons, lançado em 2005, como os demais, só na Europa. Foi na companhia de Onofri e Saggiorato que Izabel impressionou o público e o júri do Prêmio Visa, em notável exibição de maturidade artística, técnica e bom gosto. Causadoras de impacto em suas apresentações, Circuladô de Fulô (Caetano Veloso/Haroldo de Campos) e Frevo Diabo (Edu Lobo/Chico Buarque) estão entre as faixas mais marcantes de Desassossego. Além de três canções menos desgastadas de Chico (duas em parceria com Lobo), vem de outro contemporâneo dele, Paulinho da Viola, um dos sambas do disco - Onde a Dor não Tem Razão, parceria com Elton Medeiros. O outro é jóia rara dos veteranos Janet de Almeida e Haroldo Barbosa: o bem humorado Um Samba na Suíssa. Diante da receptividade do novo CD e o interesse despertado pelo resultado do Visa, ela já tem planos de lançar Tons por aqui. "Só quis esperar um pouco mais para não queimar Desassossego." O título refere-se não apenas à situação da cantora - que agora enfrenta o desafio de conquistar o Brasil com um projeto seguro, da qualidade que imprimiu nos clubes de jazz europeus -, mas ao clima geral, que se traduz em boa parte das letras. Um dos achados do disco, por sinal, é o medley com versos de duas canções de Gilberto Gil (Extra e Opachorô) e Baião da Penha (Guio de Moraes/David Nasser). "Eu, tu e todos no mundo no fundo tememos por nosso futuro", canta ela. Em duas faixas instrumentais - Mayara, baião do acordeonista gaúcho Alessandro Kramer, e Songs for Denise, choro do pianista austríaco Reinhard Micko - Izabel expande sua vocação para o improviso em vocais suingados por caminhos intrincados. A ação se intensifica na carreira de Pés no Chão (dos portugueses Mário Laginha/Maria João), conduzida pelo acordeom de Kramer. Em contraste, um quinteto de cordas e a voz de Renato Braz envolvem de suavidade Dueto, de Chico. Alinhando-se ao baixo de Saggiorato, Kramer ressurge em Ensolarada, de Luís Felipe Gama, outra revelação recente. O mais inusitado está nas versões para Lagrimas de Oro (Manu Chao), só com baixo, guitarra distorcida e palmas, e Retalhos de Cetim (Benito di Paula), em arranjo sofisticado, que também causou frisson no Visa. Intensamente integrados, Izabel, Onofri e Saggiorato criam unidade na diversidade dos arranjos e do repertório, cuidadosamente selecionado. De voz nasalada e belo timbre, Izabel tem em Desassossego uma boa investida para conquistar seu nicho na Terra Brasilis, ainda que o mercado seja restrito. E ela ainda é melhor ao vivo.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.