Tatiana Constant/ Estadão
Tatiana Constant/ Estadão

Ivon Curi é homenageado em disco ao vivo com intérpretes de várias gerações

Além de atuar no cinema e na televisão, ele teve uma sólida carreira como cantor, relembrada agora no álbum 'Um Personagem Chamado Ivon Curi'

Renato Vieira, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2020 | 08h00

“Pelas perucas do Ivon Curi!” foi um dos bordões de Renato Aragão em Os Trapalhões. A frase demonstra que a figura de Curi era tratada de um jeito folclórico, o que não o incomodava. Ele não escondia que usava peruca e, nos últimos anos de vida, direcionou sua verve artística a programas de humor, inclusive integrando uma das primeiras formações da trupe que tinha Aragão à frente. 

Além de atuar no cinema e na televisão, Curi teve uma sólida carreira como cantor, relembrada agora no álbum Um Personagem Chamado Ivon Curi. Captado em um show feito em São Paulo no ano passado, o disco conta com 17 intérpretes de diversas gerações e mostra como o homenageado foi versátil, indo dos ritmos nordestinos à canção francesa.



Nascido em 1928 em Caxambu, Minas Gerais, Curi foi morar no Rio de Janeiro e iniciou a carreira como cantor no hotel Copacabana Palace. Atuou em chanchadas como Aviso aos Navegantes (1950) e até dirigiu show da fadista portuguesa Amália Rodrigues. Quando morreu, em 1995, Curi interpretava o gaúcho Gaudêncio na Escolinha do Professor Raimundo de Chico Anysio.

O produtor Thiago Marques Luiz teve a ideia de homenagear Curi após incentivo do cantor Roberto Seresteiro, que participa do projeto cantando Delicadeza. “Encantado!/(Que coisa horrível!)/ É um prazer conhecê-lo!/ (Ê mentira danada!)/Como passou? Como vai?/(Não interessa!)/Na certa voltarei a vê-lo!/(Ham, Deus me livre!)”, diz a letra irônica.

“Concorri ao Grammy Latino, ganhei várias vezes o Prêmio da Música Brasileira, e nunca consegui patrocínio, nem mesmo para uma homenagem recente a Dalva de Oliveira, que foi tema de minissérie na Globo. Imagina para uma apresentação em homenagem ao Ivon, que hoje pouca gente lembra. Fiquei em dúvida se tocava pra frente”, conta Luiz. 

Ele decidiu colocar dinheiro do próprio bolso para fazer o tributo no Teatro Itália que deu origem ao disco, lançado nos formatos físico e digital, e convidou cantores amigos. Nenhum deles cobrou cachê. “O bom é que nenhum dos participantes se parece com o outro”, analisa o produtor.

Para o produtor, Curi foi esquecido como cantor justamente por sua imagem ter ficado mais forte como humorista. 

Entretanto, Curi esteve no centro - ou ao largo - de acontecimentos marcantes da música brasileira. O mais célebre deles é o dueto com Hebe Camargo em Noite de Luar no primeiro videoclipe exibido pela televisão brasileira, em 1950. Clássico da bossa nova, Desafinado foi oferecida primeiramente a Curi pelos compositores Tom Jobim e Newton Mendonça. Ele recusou e a música foi para um cantor baiano que até então poucas pessoas conheciam, chamado João Gilberto.

Também foi apagado da memória nacional o fato de que O Xote das Meninas, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, foi hit com Curi. “Somente quando a Marisa Monte cantou essa música virou cult, porque não era. E hoje pouca gente se lembra que foi sucesso do Ivon”, diz Luiz.

A música abre Um Personagem Chamado Ivon Curi, na interpretação de Filipe Catto, representante da nova geração no projeto ao lado de Ayrton Montarroyos, Bruna Moraes e Rafael Cortez, que vê paralelos entre sua trajetória e a de Curi. “Ele não foi uma referência direta para minha dolorosa opção de transitar por muitas áreas porque eu não o conhecia muito bem. À medida que fui me inteirando de tudo que ele fez, sem dúvida passou a ser. Lamento muito que o estereótipo que o público aplica a um artista seja maior do que a capacidade de o compreender numa esfera mais plural. Sou também violonista, compositor, cantor e ator. Mas a maioria das pessoas só pensa em mim como comediante”, afirma Cortez, que interpreta Telefonema, composição do próprio Curi.

Com direção musical do pianista Elias Jó, o álbum tem arranjos fiéis aos das gravações originais. “Quis manter esse tipo de arranjo porque as músicas são muito bonitas. Produzi mais de 100 discos e acho que o tributo ao Ivon é um dos melhores que fiz”, ressalta Luiz.

La Vie En Rose, defendida por Eliana Pittman, e Sob o Céu de Paris, em que Luciene Franco canta acompanhada pelo acordeom de Caçulinha, são bons exemplos da verve chansonnier de Curi. 

Gêneros que estavam em voga na canção brasileira durante os anos 1950, forrós, baiões e xotes foram bem divulgados pelo artista. Depois do êxito de Xote das Meninas, Zé Dantas lhe deu Farinhada, outro grande sucesso que no disco cai muito bem na voz de Maria Alcina. A dupla Célia e Celma relembra Baião das Velhas Cantigas. Já o cantor Raimundo José canta com voz empostada Xote Miudinho, outra canção de Gonzaga e Dantas, e Comida de Pensão.

Representantes da Bossa Nova em São Paulo, Alaíde Costa e Claudette Soares também estão no álbum, que, segundo Luiz, não deve ter show de lançamento. “Consegui reunir todos esses artistas apenas uma vez e acho que não vai acontecer de novo. Foi uma loucura, não ganhei R$ 1.”

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