ERNESTO RODRIGUES/ESTADÃO
ERNESTO RODRIGUES/ESTADÃO

Ivan Vilela faz sobrevoo revelador pela viola paulista

Professor e pesquisador faz, a pedido do Sesc Sesc, primeiro de três álbuns do projeto 'Viola Paulista', com novas linguagens para um dos instrumentos símbolos da cultura brasileira

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

29 Junho 2018 | 06h00

O sertanismo fantástico dos violeiros tem alargado fronteiras. Ivan Vilela, professor, músico e um dos homens mais importantes nos processos de permanência da viola na cultura do País, entregou, a pedido do Selo Sesc, um levantamento com violeiros que vivem no Estado de São Paulo, mas que não usam, necessariamente, a viola em sua linguagem mais tradicional.

Viola Paulista mostra 19 nomes de compositores, intérpretes ou grupos que tiram a viola de seus lugares mais confortáveis e a levam para a música erudita, como faz Bruno Sanchez, 30 anos, do município de Espigão, Regente Feijó, com suas influências do barroco de Bach; para o rock, como mostra o Trio Tamoyo na levada de Jacaré Pepira; para o virtuosismo instrumental de Vinicius Alves em Improviso Violado; à declamação de manifesto escolado em Dércio Marques de Moreno Overá em Brasil Viola; e ao reencontro com a própria terra de onde saiu, nas vozes da dupla Fabíola Mirella e Sérgio Penna, com Meu Sertão. Seria um disco, mas o material colhido precisou de mais. Estão previstos mais dois álbuns.

A viola pode ter mais dificuldades em se libertar de sua linguagem natural não apenas pelo preconceito que ainda persiste, mas por uma própria história sempre muito representativa na chamada música caipira. Vilela lembra que, ao contrário do violão, que puxou linhagens a partir de referências eruditas e populares, como Francisco Tárrega, Andrés Segovia, Baden Powell ou Yamandú Costa, a viola “não tem uma escola definida”, não se academizou e pouco foi objeto de peças clássicas escritas especialmente para ela. O autodidatismo faz parte do início da vida artística de muitos violeiros. O que poderia tornar sua produção menor se reverte em liberdade. “Sobretudo os mais jovens estão trazendo uma gama de informações surpreendente”, diz Vilela.

Outra questão é a falta de referencial pelo mundo. Se comparada ao acordeão, outro instrumento não brasileiro, mas adotado como um símbolo na música nordestina, a viola jamais teve ídolos em outros países, como sanfoneiros podem buscar na música francesa, latino-americana, africana ou russa. O mais longe que um violeiro pode encontrar semelhantes é em Portugal. Assim, toda a movimentação feita pelo instrumento em direção a outros campos, como mostra o trabalho dos artistas identificados por Vilela e outros que não estão ali, como a experiência radical de Ricardo Vignini fazendo uma estupenda imersão da viola pelo rock and roll, é fruto, mais uma vez, de uma liberdade criativa transbordante.

O timbre da viola seria outro impedimento para que ela fosse aceita definitivamente como instrumento da música erudita ou do jazz, por exemplo, sem causar estranhezas? Ivan Vilela lembra então que a viola, antes de ser caipira, foi o instrumento das grandes cidades até por volta de 1850, quando principalmente Rio, Belém, Recife e Salvador a colocavam como o principal instrumento harmônico do País. A história surpreendente não foi documentada e os maiores representantes desse período permanecem nas camadas arqueológicas mais profundas já que a indústria fonográfica só iria garantir as primeiras gravações no início do século 20, quando ela não estava mais presente nos centros. “No século 19, era a viola o principal instrumento acompanhador do País. Temos que lembrar que a primeira universidade do Brasil se dá em 1934. Ou seja, não podemos construir a história do Brasil apenas com documentos escritos”, diz o estudioso. “A viola começa a se ruralizar, a ser empurrada das cidades para o campo, no século 19.”

Assim, o violão, que tem seu primeiro registro feito por um professor em 1837, no Rio, se tornaria o algoz da viola. Imagina-se que a disposição de seis cordas, com um baixo mais presente, garantiria uma sustentação mais apropriada ao canto. E, com menos cordas, o instrumento se mostrava mais fácil de se aprender. “Ele vem e bota a viola para correr.”

Bruno Sanches acredita que o momento da viola, de partir para outras direções, está crescendo. “Ainda assim, muita gente pensa que o instrumento não deve ser usado para outros estilos.” Sua formação em violão clássico garantiu a linguagem que mostra no disco com Catira do Vale. De Botucatu, Osni Ribeiro, 54 anos, reinventa-se com um tema que fez em 1986, Viola, cheio de soluções harmônicas que saem dos lugares-comuns. “São as histórias orais que criam a cultura da viola”, ele diz. “Algo que fazia com que as modas fossem chamadas de romance.”

Quando o mundo era ainda das gravadoras, a viola viveu momentos esporádicos de pop star. Elis Regina conseguiu um deles gravando Romaria, de Renato Teixeira, em 1977. Mais tarde, Pena Branca e Xavantinho trouxeram o mesmo mundo de volta com Cio da Terra, em 1981. Nos anos 1990, nada foi mais poderoso do que a aparição de Almir Sater nas novelas Pantanal e Ana Raio e Zé Trovão, da Manchete. Em todos elas, a viola era a viola em seu esplendor. Agora, ela quer um pouco mais.

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