Angelo Trani/Divulgação
Angelo Trani/Divulgação

Ivan Lins canta bela homenagem em italiano

Grupo InventaRio convoca músicos da Itália e o próprio Ivan para disco

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

20 de dezembro de 2013 | 11h00

Ivan Lins só pode ser dois. Um é o brasileiro de Madalena, de Começar de Novo, integrante pouco mais jovem e com menos regalias que os outros da linha clássica da música brasileira. Sua carreira é indissociável da de sua madrinha, Elis Regina, e sua origem remete aos festivais da Globo dos anos 70. A mídia de seu País não defenestra seus discos, mas por vezes os ignora.

O outro Ivan é jazzista. Músico dos músicos, criador de melodias avalizadas por harmonias tão engenhosas que acabam em livros acadêmicos para serem estudadas em conservatórios, é reverenciado com honras de Estado por audiências e instrumentistas latinos, norte-americanos, japoneses e europeus. “Fiz com ele o melhor disco em duo da minha carreira”, disse ao Estado a autoridade do piano cubano, Chucho Valdés.

À revelia de suas pretensões, Ivan é percebido de formas distintas no Brasil e fora dele, mesmo quando canta a mesma canção. Um álbum lançado agora no Brasil reflete um respeito por sua obra, agora, vindo da Itália. InventaRio encontra Ivan Lins é projeto de um coletivo de músicos italianos que decidiram gravar Ivan Lins vertendo suas canções mais vitoriosas para o italiano na voz do próprio autor. “Sugeri apenas duas ou três”, diz o músico.

Ivan ganha a oportunidade de fazer algo que talvez não fizesse por iniciativa própria. Uma nova visita a Madalena, Começar de Novo ou Iluminados, canções sedimentadas em seu repertório e regravadas em série no dos outros, exalaria facilmente o aroma dos presentes de Natal embrulhados em cima da hora. Mas, da forma como são apresentadas e, sobretudo, gravadas no ótimo Virus Recording Studio, em Siena, na Toscana, soam frescas e vibrantes, instigantes por serem descobertas de novo.

Imprevedibile, o jazz que abre o disco, é a novidade, com letra de Max de Tomassi, amigo, consultor artístico e articulador do projeto. A partir de então, os músicos do InventaRio, sempre com algum nível de envolvimento de Ivan nos arranjos, mostram seus trunfos e convidam mais nomes italianos, sobretudo cantores, a cada faixa. Renata Maria, de Ivan e Chico Buarque, vira Stella D”A Mia e ganha a voz de Maria Pia de Vito. O próprio Chico canta o samba Sou Eu, que fez com Ivan, transformada em Con Me. “Nesta eu tive um pouco mais de dificuldade com a língua”, fala Ivan.

A Itália tem hoje os melhores músicos de jazz depois dos norte-americanos, na opinião de Ivan Lins. E um mercado de shows que, assim como o japonês, já ultrapassou o da terra de Duke Ellington. Os músicos do InventaRio não apostam em improvisos diante das obras, mas deixam claro muitas vezes que estão segurando os leões dentro de si. A frente toscana tem o pianista Giovanni Ceccarelli; o cantor, guitarrista e baixista Ferrucio Spinetti; e o baterista e percussionista Francesco Petreni. O brasileiro infiltrado é o baixista dos Novos Baianos, e de tantos outros, Dadi Carvalho. Aqui, curiosamente, faz tudo menos tocar baixo: voz, guitarra, bandolim e violão.

Os italianos mexeram nos arranjos, nos andamentos e um pouco nas harmonias. Das parcerias de Ivan com Vitor Martins veio o maior lote: Iluminados (Illuminati, com voz de Samuele Bersani); Cartomante (com a cantora Petra Magoni); Começar de Novo (Nascere di Nuovo, com Vanessa da Mata); Guarde nos Olhos (Dentro Ai Tuoi Occhi); Lembra de Mim (Maybe One Day, Maybe in Vain, com Chiara Civello); Camaleão (Camaleonte), com vozes de Jessica Brando e Maria Gadú); e De Nosso Amor Tão Sincero (Amore Sincero). Madalena, talvez seu maior sucesso no Brasil, aparece instrumental, com um vocal e violão de Vinicius Canturária e a melodia no flugelhorn de Fabrizio Bosso.

Ivan cuida bem das palavras quando fala de si para não soar pedante. “Os músicos italianos me respeitam, gostam de mim. Muitos tocam até de graça quando sabem que estou envolvido em algum projeto.” Mas reconhece que seu espelho lhe mostra duas imagens pela manhã. “Sou mais popular aqui no Brasil, lá fora eu sou jazz.” A razão deste duplo sentido pode ter uma explicação plausível. “Quando surgi, eu era o cantor de Madalena e O Amor é o Meu País, músicas com tratamento muito mais popular do que jazzístico, apesar das harmonias. Se eu não cantar Madalena nos meus shows no Brasil, apanho.”

Um outro equívoco que diz perceber, este entre os ouvidos iniciados, é o dos que ressaltam suas harmonias com mais euforia do que suas melodias. “Minha especialidade não é a harmonia, mas a melodia, mesmo quando visto essas melodias com sofisticação.”

Ivan veio em uma segunda fornada de compositores revelados por Elis Regina nos anos 70, posterior à de Gil, Milton Nascimento e Edu Lobo, contemporânea à de Paulo Cesar Pinheiro, Guinga, Gonzaguinha, João Bosco e Aldir Blanc. “Elis carregou mesmo autores mais sofisticados para o mundo popular.”

O curioso ‘efeito Elis’ funcionava de forma seletiva. Se só os melhores seriam gravados, todos queriam ser os melhores. Assim, a qualidade das composições batia nas alturas. “Até hoje componho pensando em ser gravado por ela”, já disseram Ivan, Milton Nascimento e Paulo Cesar Pinheiro.

A Elis de calças na vida de Ivan Lins foi Quincy Jones, o melhor padrinho que um músico brasileiro poderia ter para chegar aos Estados Unidos nos anos 80. Foi o percussionista Paulinho da Costa, radicado havia anos no mercado internacional, quem mostrou as primeiras gravações de Ivan a Quincy. A sequência veio sem cortes: Quincy ouviu as músicas, pediu que Paulinho ligasse para o Brasil e passou a mão no telefone: “Ivan, estou impressionado com suas músicas. Estou pensando que algumas poderiam ser gravadas pelo George Benson”.

O curioso ‘efeito Quincy Jones’ funcionou de forma pulverizante. As canções de Ivan voaram da guitarra de Benson para os discos de Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Toots Thielemans, Carmen MacRae e Barbra Streisand. Em 2000, o álbum A Love Affair fez um tributo a Ivan, digno apenas talvez a Tom Jobim e João Gilberto, com suas músicas regravadas por Sting, Dianne Reeves, Vanessa Williams e Chaka Khan.

Shows no Brasil para o lançamento do álbum italiano não são cogitados por enquanto. Afinal, trata-se de um projeto que requer verba e disponibilidade de agendas de muitos músicos. A Itália também não dá sinais de poder ter Ivan por lá em um palco tão cedo. E aí não é mais questão de deformidade ótica entre um país e outro. Tanto o Ivan Lins brasileiro quanto o gringo podem ser simpáticos e acessíveis, mas deixaram de tocar em troca de um sanduíche de mortadela há muito tempo.

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