Marco Borggreve via The New York Times
Marco Borggreve via The New York Times

Iván Fischer e a reinvenção de sua orquestra

Em concerto na Sala São Paulo, maestro transforma apresentação em uma festa ora emocionante ora em um festejo junino

João Marcos Coelho, O Estado de S. Paulo

01 Julho 2015 | 11h33

Definitivamente, não foi um concerto convencional. Os contrabaixos, no fundo do palco, abraçando a orquestra inteira e a percussão à direita, o que tornou a sonoridade global mais equilibrada; violinos divididos em dois grupos, na frente, à esquerda e à direita; cellos e violas ao centro; madeiras a direita, metais à esquerda. No segundo movimento da quarta sinfonia de Mahler, a spalla Violetta Eckahrdt alternou instrumentos; nos momentos solísticos tocou num instrumento de timbre mais brilhante e aberto porque afinado um tom acima dos demais, e ao se integrar ao naipe, empunhou outro, de afinação compatível com os demais.  De repente, uma trompa sai dos fundos do palco e se coloca à esquerda do maestro, como um solista; ainda soavam os derradeiros acordes do incrível Adagio quando a soprano Miah Persson entrou passeando discretamente entre os violinos até chegar ao primeiro plano, ao mesmo tempo em que se iniciava o finale-canção, na definição de um comentador. 

O público aplaudiu com entusiasmo, mas ainda emocionado com a grandeza e o refinamento da acridoce quarta sinfonia de Mahler, de um lado; e, de outro, pela maravilhosa interpretação de Fischer e da Orquestra de Budapeste. O clima entre respeitoso e hipnótico quebrou-se como um vaso precioso  que é derrubado por acaso com o bis: o sacudidíssimo "Mambo" de Leonard Bernstein. Aqui, os músicos não só se levantaram gritando "mambo" nos breaks. Os violinos, à esquerda e à direita, fizeram uma dancinha das cadeiras, trocando de lugar aos pares.

Desde o início do concerto me espantava o modo com Fischer e seus músicos se reinventavam a cada obra. A orquestra que tocou os cinco "Esboços húngaros" de Bela Bartok parecia ter nascido para tocar estas  danças e melodias divinamente orquestradas pelo compositor por motivos alimentares. Em seguida, transformaram-se em especialistas em Richard Strauss, com uma leitura perfeita, emocionante e ao mesmo tempo plácida, como o estado de espírito do compositor em seu derradeiro ciclo de canções que se despedem da vida e flertam com a morte não como fim, mas como rito de passagem. Na célebre No crepúsculo, última delas, um casal, o próprio Richard e sua amada Pauline, juntos há 55 anos, passeia de mãos dadas e se pergunta "é isso a morte?" A voz afinadíssima de Persson é acariciada pela orquestra. Fischer modela cada frase, transforma num fluxo contínuo o canto e a orquestra, sem quebras nem sobreposições que costumam encobrir a voz nos pianíssimos.

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Segunda parte. Quarta sinfonia de Mahler. Pode-se chamá-la de sinfonia-canção (namora o tempo todo com a melodia de A vida celestial, do ciclo A trompa mágica do menino). Um dos segredos de uma interpretação correta de Mahler é o modo como o regente promove o balanço entre os timbres - às vezes, em dois, três compassos, há fortíssimos e pianíssimos. O fraseado -- tecido a partir do que parecem ser fragmentos de lembranças, evocações do menino, aspirações e decepções - reflete este mosaico que hipnotiza nossos ouvidos quando realizado não só com perfeição mas com intensa, sublime musicalidade. 

Ao final da sinfonia, percebe-se por que a gravação das sinfonias de Mahler por Budapeste ganhou praticamente todos os prêmios disponíveis. E concluímos: ora, esta é uma orquestra mahleriana por excelência. Não. Ela não é bartokiana, straussiana nem mahleriana. É a orquestra reinventada, capaz de transformar um concerto que tinha tudo para ser ritualístico, engessado, numa festa ora emocionante, ora num clima de festa junina (no Mambo). Heresia? Jamais. Fischer é um dos maestros que mais defendem a reinvenção da orquestra no século 21. Concertos para jovens à meia-noite, para crianças de 5 a 12 anos, ou sem anunciar o repertório; apresentações em hospitais, igrejas, sinagogas. Ir também aonde o público está. Manter um nível de qualidade extraordinário (o que o legitima diante do público de concerto), mas com espírito de entretenimento - afinal, esta é a característica mais fundamental de uma arte performática como a música. O público que assistiu ao "Mambo" saiu rindo, quase dançando...

Cotação: excelente.


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