Itamar Assumpção prepara-se para fazer Papa Negro

Há cerca de três anos, Itamar Assumpção foi procurado por Paulo Betti. Para sua primeira experiência na direção, o ator queria que o compositor fizesse Nhô João. Itamar ouvira falar da história do preto curandeiro alcunhado "papa negro", que viveu na região de Sorocaba, e interessou-se pela possibilidade de atuar. Aceitou o convite, mas a idéia pareceu ficar apenas no papel.Um mês atrás, porém, leu no Caderno 2 que o filme está em fase de captação de recursos e se chamará Cafundó. Descobriu também que é o único ator confirmado do elenco. Ficou feliz. Em comum com Nhô João, Itamar têm a ancestralidade africana e o espírito libertário. Refletem a diversidade de elementos que constituem a cultura popular brasileira. "Contar a história de Cafundó é muito mais do que contar a história de um lutador (Nhô João) que chegou a ser preso 17 vezes por conta de suas convicções religiosas", diz.Itamar, na sua própria definição, é apenas um compositor de música popular brasileira que faz música "difícil". "Minhas composições não têm o imediatismo de um pagode, por exemplo". Mesmo assim, defende-se: "se me derem oportunidade e divulgarem meu trabalho, emplaco alguns sucessos". O que não se pode esperar de Itamar é que se venda ao mercado fonográfico. "Desde o início da carreira resolvi caminhar de outro jeito. Foi difícil, claro, mas hoje eu digo que tem que ser muito macho para chutar bens materiais. Segui o caminho dos meus ancestrais, da Clementina, do Cartola", afirma.O segundo volume da trilogia Pretobrás sai este ano, pela gravadora Atração. Está previsto para ser lançado em outubro. Será diferente de tudo que Itamar já fez. "Pretendo neste disco explicitar o que está implicíto em minha música". Por exemplo: se antes fundia rap, reggae, rock e baião em uma mesma faixa, agora irá gravar uma canção de cada gênero. "Mas não adianta achar que vai ser diferente. É baião, simples, mas foi composto por mim."Por outro lado, espera que o disco, mais fácil de ser assimilado, tenha boa aceitação. "Espero poder ampliar meu público. Com isso posso apresentar a Ná Ozetti, que é minha parceira, apresentar a Virgínia Rosa, a banda Isca". Está cheio de planos. Além do filme e do disco, quer, ainda no ano que vem, teminar a trilogia com Pretobrás 3. Também pretende começar um CD em parceria com Alice Ruiz, poeta paranaense esposa de Paulo Leminsky. Sobre o papel de Nhô João, diz que irá se valer da experiência teatral que vem acumulando. Cita o exemplo de sua irmã, atriz do Teatro Oficina por mais de dez anos, e que recentemente gravou seu primeiro disco, com músicas de Noel Rosa. "Ela veio para o meu lado, e eu para o dela", brinca.Vivência - Criou as duas filhas, Anelis e Serena, com dinheiro ganho na música. Está com cinqüenta anos. Sete discos lançados. Por baixo dos "dreadlocks" grisalhos, o cabelo é branco. Mora na Penha, periferia de São Paulo, há vinte e três anos. Suas filhas nasceram no bairro, e ele não pretende sair de lá. A casa hoje é espaçosa, mas já foi um conjugado quarto-sala-cozinha. "O banheiro era fora", lembra.Nascido em Tietê, passou a adolescência em Arapongas, Paraná. Em Londrina, conheceu Arrigo e Paulo Barnabé. Começaram a formular o que mais tarde seria a vanguarda da música paulistana. Ao chegarem na terra da garoa, batalharam espaço. Não foi fácil, e Itamar foi trabalhar recolhendo impostos na prefeitura. Mas enfim, em 1980, Beleléu, primeiro álbum de Itamar Assumpção, chegou ao mercado. Estabelecidos e reconhecidos, ele e seus companheiros puderam colocar as idéias em prática. Introduziram elementos nunca antes explorados na música popular brasileira, entre eles, o atonalismo e o grotesco. As influências eram as mais variadas. No caldeirão, misturaram Kerouac, Ginsberg, Tom Zé e Gilberto Gil. Debussy e capoeira. Erudito e popular. Juntos, Arrigo e Itamar compuseram a opereta Motorista de Táxi. Para o compositor, a palavra vanguarda só passou a existir após esse encontro. "Eu sou filho de pai de santo. Não posso ser avant garde, vanguarda no sentido francês do termo. Sou preto, africano. Agora, quando eu encontro o Arrigo, a coisa muda."Não tem mais contato íntimo com os antigos parceiros. Seguiram caminhos opostos. Arrigo aprofundou-se em música erudita. Itamar foi em busca de sua raízes populares. Só não dá para disfarçar a frustração. "O lugar do Arrigo não é aqui. Se ele tivesse investido em sua carreira na Europa, seria um músico reconhecido. Agora, sabe por que a gente não sai daqui? Porque essa é a nossa escola. Se é difícil perto, quanto mais longe?." Considera-se um compositor autoral. Não admite que cheguem a ele e digam: gostei de tal música. "É impossível sacar o que estou fazendo hoje sem nunca ter ouvido o que fiz no Beleléu. Minha música é um processo contínuo".Fardo - Itamar gosta de citar Tim Maia, que certa vez teria sentenciado: "Ou você é Tim Maia ou está f.....". Da mesma forma, a frase poderia ser reescrita infinitas vezes. "Não é fácil ser músico popular no Brasil."Lembra de quando foi procurar o arranjador Rogério Duprat para que avaliasse suas músicas. Ele teria dito: "você quer acabar comigo, você é um compositor-arranjador". "Na hora não caiu a ficha, mas hoje entendo o que ele queria dizer", diz Itamar. Duprat referia-se ao fato de Itamar, além de compor e escrever as letras, pensar a música como um todo. Além do violão, da letra, sabia o que fazer com o baixo, cordas, metais e percussão "O problema é que você chega nesse meio e percebe o bando de feras que faz parte dele. Não tem medíocre. Ou você cai de pára-quedas e é chutado, ou você é rápido no gatilho". Por isso não se acomodou. Estudou, pesquisou música brasileira, foi conhecer outros compositores para saber onde se inserir. Recentemente gravou um álbum só com canções de Ataulfo Alves. "Separei cinqüenta músicas. Em três anos escolhi vinte e disse para mim mesmo: chega!". O estágio cantando Ataufo foi produtivo. Além de compositor, tornou-se intérprete. "Mas é difícil. Eu demorei três anos para fazer o disco. Se eu pego Paulinho da Viola, demora sete, Arrigo, doze, Gismonti, não sei o que será da minha vida. E Hermeto, bem, esse eu nem tento."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.