Itamar Assumpção faz show no Supremo Musical

Parafraseando a vinheta, que deve abrir o novo disco de Itamar Assumpção e Naná Vasconcelos, essa conversa nasce cor de azeviche, antitriste, antimesmice, antipastiche. Tudo por causa do entrevistado, Itamar, que faz show sexta e sábado, no Supremo Musical, às 22 horas,com Clara Bastos e Anelis Assumpção.Pretobrás 2 - Itamar Vasconcelos e Naná Assumpção - Tem Que Ter Repercussão é "um som que nasce da junção de dois bonecos de piche, numa conexão entre São Paulo e Recife". Umpouco do disco será apresentado no show, mas, como enfatiza Itamar, ainda não é a hora, "tem que ter repercussão". Lógico que o motivo não é apenas esse. "Naná está em Pernambuco comsua moçadinha (as 220 crianças do projeto social Flor do Mangue, criado por ele) e eu fiquei com a parte da produção. Temos tudo gravado, as músicas da trilogia Pretobrás estão prontas, porém ainda vamos finalizar alguns detalhes. Mas não temproblema, pois o nosso tempo é outro. Vai ter de sair como tem de sair. Somos livres."A liberdade, entretanto, não impede uma negociaçãohonesta com as gravadoras. Eles estão prontos para isso. Itamar pensa, até mesmo, em atingir um público mais amplo. "Sou compositor de música popular, não adianta vir com historinha,pois a nossa música ainda não chegou numa maioria. E não me venha com essa de maldito, só se maldito significar aquele que faz o que tem de ser feito. Eu não posso ficar nessa. Meusantepassados são a Clementina de Jesus, que foi empregada doméstica durante a vida inteira, e o Cartola", afirma ele, sem afagos desnecessários.Itamar dá um exemplo de o que é ser compositor popular, com a letra de uma de suas novas canções: "Devagar com esse andor, Leonor. Meu cachê é um horror, Leonor, não sobrou nem procigarro. Não tenho nem gravador, Leonor, meu São Benedito é de barro. Meu menu é feijão com arroz que divido com mais dois, quando não falta trabalho. O que tinha de valor, Leonor. Ummacacão furta-cor, uma colcha de retalho, o que não está no penhor foi pra casa do c.."Ele explica: "Uma música popular é isso: quando ocompositor canta sem precisar de nada, só tocando um pandeiro. Qualquer um canta isso que eu cantei pra você. Cheguei nisso há muito tempo. Aprendi com Ataulfo, Pixinguinha, Adoniran. Todosme ensinaram." Os versos são da inédita Leonor, homenagem a Clementina. Itamar deve interpretá-la no show.Segundo Itamar, para aquele que se considera um compositor, como ele, Luiz Melodia, Jards Macalé, Milton Nascimento e outros importantes nomes, é preciso saber da nossa história. "Se você não souber quem é Luiz Vieira, está danado", acredita. "É muito antepassado, é complicada a música brasileira. Paulinho da Viola já complicou o samba. Acho legal isso."Se qualquer um aprende música popular, então ela ésimples? "Um simples que não é fácil. O problema é enxergar o simples e chegar ao simples. Fui tirar a música de todos os caras e saber qual é que é. Então, por exemplo, Milagre dos Peixes, do Milton. Eu toco. Mas o que o cara inventou é uma doidera. A coisa é feia, difícil", explica. "Música brasileira é ancestral."Um outro exemplo de Itamar para entender o simples: Ronaldinho. "Entendo de futebol legal. Sei que, quando você entra no palco ou campo de futebol, o físico é mudado pela adrenalina. Você tem dor de barriga e pode ter convulsões. Estava tudo nas costas dele, para ser o garoto-propaganda da Nike. Ele não segurou a onda no momento exato. Sabe por quê? É aquele mulato brasileiro que fica rico do dia pra noite e vaiouvir pagode, então fica auto-alimentando-se. O cara não sabe o que faz com uma Ferrari. Por que não olhou Pelé? Acho que o Pelé ia dar uma acalmada nele. Não tem humildade, não conhece a sua história, sua cultura. Pelé já passou e segurou essa onda. Isso é a minha cultura", acredita.Doido lúcido - Esse paralelo soa estranho, mas pertinente. Como já foi dito sobre o compositor, morador do bairro da Penha, de tão lúcido Itamar passa por doido. O popularde Itamar não exclui a "erudição" da poesia de Haroldo e Augusto de Campos, que "escrevem no balanço da voz". Para ele, o Brasil é estar ligado a tudo também. "A minha conversa é coma literatura, poesia, artes plásticas, filosofia, com o Arrigo (Barnabé). É essa afinidade naturalíssima que eu e Naná tivemos,de eu pegar o violão e ele o pandeiro e ficar tocando por três anos sem parar. Não precisa ficar maquinando. Fora as músicas que eu já tinha, eu chegava no estúdio com uma música composta de um dia para o outro", conta. Os dois discos da trilogia terão também a participação da Zélia Duncan, Virgínia Rosa, Rita Lee, Miriam Maria e Denise Assumpção.A maldição - Arrigo também estará em algum dos álbuns da trilogia. "Arrigo tem de estar comigo. Vou entregá-lo para o meu público. Vou incluir uma música de minha autoria, Já Deu praSentir, que ele gravou no disco Suspeito. Ele canta bossa-nova, na primeira parte, com a arranjo do Eduardo Gudin, depois eu entro, no meu estilo sei lá o quê", conta. "Vou expor o Arrigo (dá risada). Somos a música pós-Cartola, a maldição e complexidade estão aí."Itamar, antitristeza, está feliz também por reencontrar Rogério Duprat. "Ele que me botou na música. Eu levei as minhas fitas quando já estava na Penha, casado, morando em fundo de quintal, com filha já nascida. Pensei: eu tenho de levar isso pra alguém que entenda desse bagulho, para eu tirar essa ilusão. A maior expectativa da minha vida foi durante aqueles dias. Eleme pediu uma semana. Cheguei lá, ele começou a falar do Beijo na Boca, que estava na fita, do meu astral com Jimi Hendrix. E ficou tudo certo", recorda ele.Itamar Assumpção. sexta e sábado, às 22horas. R$ 20,00 (reserva de ingressos até as 21 horas). Supremo Musical. Rua Oscar Freire, 1.000, tel. 3062-0950.

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