FABIO MOTTA/ESTADÃO
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Isaac Karabtchevsky celebra seu aniversário à frente de duas orquestras

A poucos dias de se tornar um octogenário, maestro é titular da Sinfônica de Heliópolis e da Petrobrás Sinfônica

João Luiz Sampaio, Especial para o Estado

20 Dezembro 2014 | 16h23

“Para um octogenário, está mais do que bom, não?”, brinca o maestro Isaac Karabtchevsky. Ele se refere à sua agenda em dezembro. Entrou o mês à frente de uma nova produção de Madama Butterfly, de Puccini, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Deu um pulo em João Pessoa, para reger a orquestra local, da qual se tornou patrono. No caminho de volta, fez uma turnê por quatro cidades com a Orquestra Petrobras Sinfônica – e tudo isso enquanto chegava às lojas seu novo disco, em que interpreta, com a Osesp, a Sinfonia n.º 10 de Villa-Lobos.

A rigor, Karabtchevsky ainda não é um octogenário, afinal ele completa 80 anos apenas no dia 27 de dezembro. Mas a agenda intensa já comemora a data – e nela ainda faltam dois concertos bastante especiais. Hoje, na Sala São Paulo, e na segunda, no Teatro Municipal do Rio, ele rege a Sinfonia n.º 2, Ressurreição, de Mahler, à frente das duas orquestras da qual é maestro titular: a Sinfônica Heliópolis e a Petrobras Sinfônica. As solistas serão a soprano Lina Mendes e a meio-soprano Ednéia Oliveira, às quais se unem o Coral Cultura Inglesa (São Paulo) e o Coral dos Canarinhos de Petrópolis (Rio).

“Não é a primeira vez que junto duas orquestras para tocar uma sinfonia de Mahler. Quando fiz a Oitava, no Rio, uni a Sinfônica da Petrobrás com a Sinfônica de Porto Alegre. Mas a questão ali é que a partitura exigia essa grande massa de músicos, era uma necessidade. Desta vez, e isso me deixa muito feliz, a reunião desses artistas tem um caráter festivo”, diz o maestro, para quem a recente turnê foi “um alento”. “Estar na estrada com a orquestra, por mais que seja em uma agenda cansativa como essa, é sempre bom. Foi especial ver, por exemplo, em Brasília, a catedral lotada de pessoas interessadas em música.”

A escolha de Mahler para o concerto comemorativo não se deu por acaso. O compositor é uma das especialidades de Karabtchevsky. Mas o simbolismo é ainda maior: foi com a Sinfonia n.º 2 que ele fez seu primeiro concerto com os músicos da orquestra do Instituto Baccarelli, em 2011. Na sequência, vieram as sinfonias n.º 1 e n.º 3 – e o maestro fala na possibilidade de abrir o próximo ano com a Nona. Isso se deve à crença, o maestro explica, de que a Sinfônica Heliópolis precisa enfrentar o grande repertório sinfônico – e de que obras do romantismo tardio, como as de Mahler, ajudam no processo de criação da sonoridade do conjunto.

Decano. Karabtchevsky chega aos 80 anos como o decano da regência brasileira. No passado, ocupou postos de destaque: no Brasil, foi diretor da Orquestra Sinfônica Brasileira por mais de 20 anos e também do Teatro Municipal de São Paulo; na Europa, dirigiu a Tonkünstler, de Viena, o lendário Teatro La Fenice, de Veneza, e a Orchestre du Pays du Loire, na França, entre outros. Como convidado, esteve à frente de orquestras como a das Óperas de Viena e Washington. 

Já fez muita coisa, mas tem levado a sério sua máxima de que “aposentadoria é morte”. Além do comando das orquestras da Petrobras e de Heliópolis, ele é diretor do Municipal do Rio – e um dos principais regentes convidados da Osesp. Com ela, tem se dedicado a gravar todas as sinfonias de Villa-Lobos, para o selo Naxos. É um trabalho de fôlego, que inclui uma nova edição das peças, bancada pelo selo Criadores do Brasil. “Gravar Villa-Lobos é antes de mais nada estar atento à necessidade de lidar com partituras que nem sempre estão em bom estado e que exigem um cuidado na hora de fazer escolhas de interpretação”, ele diz. 

Após a décima sinfonia, agora lançada (leia a crítica abaixo), maestro e orquestra se preparam para gravar a de n.º 8. O registro deve ocorrer em fevereiro, depois de uma pequena turnê que a Osesp faz com Karabtchevsky pelo interior do Estado, entre os dias 5 e 8, na qual passará por Paulínia, Salto, Pirassununga e Guarulhos. O grupo vai interpretar, além da Sinfonia n.º 8, o Prelúdio das Bachianas brasileiras n.º 4, também de Villa-Lobos, e O Pássaro de Fogo, de Stravinski – o mesmo programa será apresentado na Sala São Paulo, nos dias 12 e 13.

A força da música de Villa-Lobos captura os ouvidos pela emoção

Em CD, Karabtchevsky, com a Osesp, faz leitura memorável e fundamental do maestro e compositor brasileiro 
Crítica: execelente. Gravação é um raro presente do nosso mais qualificado maestro

João Marcos Coelho - Especial para o Estado

Com certeza, estamos diante da primeira gravação de referência, ou incontornável, como os franceses gostam de dizer, da rara e monumental décima sinfonia de Heitor Villa-Lobos (CD Naxos). A leitura de Isaac Karabtchevsky à frente da Osesp, solistas e coro é daqueles momentos memoráveis que não saem da lembrança de quem assistiu aos magníficos concertos em que foi gravada, em fevereiro de 2013 na Sala São Paulo.

Os precários registros anteriores em CD pelas orquestras de Stuttgart com o maestro Carl St. Clair e a do Tenerife com Victor Pablo Pérez usaram partituras com muitos erros – todos corrigidos na edição crítica preparada pela Osesp. Um trabalho fundamental, que deve prosseguir até a conclusão da integral em 2016.

A Ameríndia é possivelmente a tentativa mais ambiciosa de Villa-Lobos construir um imenso painel sonoro do Brasil, do descobrimento ao século 20. Ela não é sinfonia nem oratório. É as duas coisas, e muito mais: uma obra-prima, heterogênea como é a cultura brasileira. Nasceu como encomenda da Comissão dos Festejos do Quarto Centenário de São Paulo, meio século atrás. 

Suas cinco partes ultrapassam uma hora. Ali, misturando tupi-guarani, latim, versos de José de Anchieta e a língua portuguesa, Villa-Lobos faz um gigantesco mural sonoro da história paulista. Ao primeiro movimento instrumental sucedem-se os demais com música vocal – destacando-se um magnífico Lento de proporções mahlerianas, de 25 minutos. 

O Villa está ali inteiro – no burburinho das cordas reproduzindo a floresta, nas flautas imitando passarinhos, nas belíssimas melodias que lhe brotavam aos borbotões em sua caudalosa criatividade (no recurso à “bocca chiusa” do coral feminino no segundo movimento).

A força da música de Villa-Lobos não convida a análises frias. Ao contrário, captura nossos ouvidos pela emoção de, por exemplo, achados como uma verdadeira “cadenza” feita só com os ruídos da floresta e cantos dos pássaros dialogando num surpreendente contraponto com os instrumentos da orquestra. Ou então nas cordas ondulantes que secundam as longas melodias nos metais e nas madeiras. E mesmo nos costumeiros e formidáveis aparatos percussivos. O Brasil de Villa-Lobos tem os versos em latim de Beata Vergine de Anchieta, falas dos índios em tupi-guarani e o português, superpõe episódios, fragmentos e sacadas sem cair em inconsistências.

A regência segura de Karabtchevsky e os ótimos solistas vocais – com destaque para o baixo Saulo Javan – e o Coro da Osesp complementam uma gravação que é um raro presente do nosso mais qualificado maestro à música brasileira na passagem de seus 80 anos.
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