Irvin Mayfield é trompetista prodígio

Qual artista de jazz pode ter a honra de ostentar, no seu primeiro disco, nomes de convidados como o patriarca Ellis Marsalis, o saxofonista Branford Marsalis e a nata musical de New Orleans?Bem, aos 22 anos, o trompetista prodígio Irvin Mayfield pode dar-se ao luxo de ostentar isso no currículo. Mas não é só. Mayfield é o caçula da programação do 15.º Free Jazz, abrindo a noite para Greg Osby nos dias 19 (MAM do Rio) e 20 (Jockey Club de São Paulo)."Eu irei ao Brasil com um quarteto, com o baterista Jazz Sawyer, de Nova York; o pianista Richard Johnson, também de Nova York; e o baixista Edwin Livingstone, de Dallas", ele disse, em entrevista na manhã de segunda-feira."Em minha opinião, músicos como Nicholas Payton e Wynton Marsalis deram ao jazz americano uma nova vida, revigorando o gênero e estabelecendo critérios para o ensino da música", garantiu Mayfield, que começou a tocar aos 9 anos sob influência de Miles Davis. "Eu acho que a discussão sobre as fusões e as influências no jazz dependem de pontos de vistas diferentes, mas é preciso lembrar que músicos como Louis Armstrong já expandiam o jazz em direção a muitos outros gêneros", afirmou.Essa gama de outros gêneros parece interessar bastante ao jovem Mayfield. Em abril, ele recebeu o prêmio Billboard pelo disco Los Hombres Calientes, como álbum de jazz latino do ano. O prêmio foi entregue ao vivo no Jackie Gleason Theater de Miami, no dia 27 de abril. Era o álbum de estréia de um grupo que Mayfield formou com Bill Summers (percussão e vocais), Victor Atkins (piano) e Edwin Livingston (baixo) para explorar a música latina contemporânea e a chamada world music. Eventualmente, recebem reforço de Horacio Hernandez e Yvette Summers.Há quem ouça até sutilezas de música brasileira por baixo da interpretação de Giant Steps, que Mayfield gravou em seu primeiro disco. "Acho que é possível ouvir algum samba, é proposital, como também o som de algum pandeiro perpassa algumas músicas de Los Hombres Calientes aqui e ali", ele disse. "Isso não é exatamente uma surpresa, já que a música brasileira vem tendo um grande diálogo com o jazz americano desde os anos 50 e ela praticamente é encontrada em quase todo disco de jazz", afirmou.Irvin Mayfield, no entanto, não é um "fusionista", no sentido mais democrático do termo. Seu mestre na arte do jazz não acharia isso exatamente elogioso, se ele se bandeasse para a fusion ou para a latinidade explícita. O mestre foi Ellis Marsalis, a quem Mayfield conta ter procurado quando tinha apenas 9 anos. "Ok, vamos ver o que você pode fazer", disse-lhe o patriarca do clã Marsalis.O impulso inicial foi decisivo e logo Mayfield estava no New Orleans Center for Creative Arts (Nocca), aprendendo sob a batuta e a influência de gente como Terence Blanchard, Harry Connick Jr., Kent Jordan, os irmãos Marsalis e muitos outros. Tocou também em igrejas, bandas marciais e paradas de rua.Quando estava no ginásio, fundou uma brass band que excursionou pelo México e Europa. Apesar da evolução, nunca deixou New Orleans para ir aos grandes centros musicais, como Nova York ou Los Angeles. Ele acredita na influência da cena natal no desenvolvimento da sua música e leva isso às últimas conseqüências."Geralmente, chamam de ´young lions´ caras como Branford Marsalis e Nicholas Payton, que são realmente excepcionais", ele disse. "Se me põem lado a lado com gente como eles, eu não posso reclamar, fico extremamente orgulhoso", avisou.Ele diz que gosta dos caminhos seguidos pelos dois irmãos Marsalis - tanto o de Wynton, que se encastela na tradição, quanto seu irmão Branford, que flerta com o pop de Sting e outros músicos do mainstrem roqueiro. "Essas pessoas, assim como eu, tocam aquilo no qual acreditam, o que é suficiente para mim como motivação artística", ele afirmou.Mayfield confessou entusiasmo e expectativa por tocar no Brasil pela primeira vez. Alegre e desinibido, diverte-se com o súbito (e longínquo) interesse pela sua meteórica carreira. "Sou um cara comum de 22 anos, gosto de jogar basquete e golfe - além das mulheres, claro", brincou. Um dos seus grandes hobbies é ler, confessa. "Tenho predileção por Hemingway e García Marquez, que acho um escritor excepcional", avaliou.Mayfield não vem com sua banda-projeto Los Hombres Calientes, mas boa parte de seu repertório deverá estar no show brasileiro. Los Hombres Calientes já é uma agradável novidade na cena jazzística americana. No ano passado, eles abriram show de Santana no New Orleans Jazz & Heritage Festival e, recentemente, excursionaram por São Francisco, San Jose, Atlanta, Jackson, Birmingham, Israel, pelo México, pela República Dominicana e pela França.Em Londres, agitaram o lendário clube Ronnie Scott, no Soho. Têm feito shows nos quais os convidados são, eventualmente gente como Danilo Perez, Donald Harrison, Ellis, Wynton, Branford e Delfeayo Marsalis e Wess Anderson.Além de sambas "clássicos", como diz Mayfield, eles tocam rumba, son, mambo, comparsa, blues, reggae, tango, música africana e bossa nova. "Eu adoro bossa nova e quem sabe não vamos incluir alguma no nosso show?", sugeriu.Free Jazz Festival. De 19 a 21 de outubro no Museu de Arte Moderna (Rio) e de 20 a 22 de outubro no Jockey Club (São Paulo). A venda de ingressos começa na próxima segunda-feira (em São Paulo, nos postos BR, Shopping Iguatemi e Jockey). Não serão aceitos cheques e cartões de crédito nos pontos de venda, só dinheiro. Informações e vendas também pelo site www.freejazz.com.br. Preços: de R$ 40 a R$ 60. Informações também pela Free Jazz Line (tel.:0800-212223)

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