Hiroyuki Ito/The New York Times
Hiroyuki Ito/The New York Times

Irmãos ingleses buscam renovar repertório da música clássica

Sheku e Isata Kanneh-Mason apostam em obras com as quais criam conexão musical e de sentimento

David Allen, The New York Times

05 de maio de 2022 | 20h00

Sheku e Isata Kanneh-Mason representam o que de mais raro pode existir: jovens superestrelas da música clássica, em torno do qual o hype parece não sumir?

Certamente é o que parece. Os dois pertencem a uma família de sete irmãos e irmãs britânicos, todos músicos, que ficaram famosos quando o violoncelista Sheku Kanneh-Mason ganhou o Prêmio Jovem Músico da BBC em 2016. 

A exposição de Sheku, em particular, tem sido enorme desde que tocou no casamento do duque e da duquesa de Sussex em 2018. Mas, para além disso, ouça ele e os irmãos tocar e encontrará músicos que, ainda nos estágios iniciais de suas carreiras, já têm coisas sérias e distintas a dizer.

Sheku Kanneh-Mason, de 23 anos, fez sua estréia na Filarmônica de Nova York em novembro, tocando o Concerto para Violoncelo de Dvorak, uma performance que o mostrou como um “protagonista carismático um colaborador generoso”, como Joshua Barone escreveu no The New York Times.

Isata Kanneh-Mason, de 25 anos e pianista, gravou dois álbuns solo de destaque - um repleto de obras de Clara Schumann, o outro habilmente transitando entre compositores como Samuel Barber, Amy Beach, George Gershwin e Samuel Coleridge-Taylor.

Depois de uma aclamada aparição juntos no Weill Recital Hall em dezembro de 2019, eles voltaram a se apresentar no Carnegie Hall, em Nova York, parte de uma longa e movimentada turnê que continua em Boston e Atlanta antes de uma etapa europeia.

Cada um de vocês tem suas próprias preocupações como artistas, então como compilam um programa quando tocam juntos em uma turnê como essa?

Sheku Kanneh-Mason: O principal critério é a música que ouvimos ou queremos descobrir, sobre a qual talvez tenhamos algo a dizer, o que nos fazer querer trabalhar nelas cada vez mais. Além disso, é sempre interessante escolher um repertório que talvez seja novo para alguns dos públicos para os quais nos apresentamos.

Isata Kanneh-Mason: Às vezes, quando apresentamos peças que não são tão conhecidas, você tem que fazer com que os promotores de concertos as aceitem e confiem que o público vai gostar delas. Descobrimos nesta turnê que o público gosta dessas peças; eles realmente respondem à música. Isso só mostra que toda boa música pode ser comunicada, seja popular ou não.

Sheku, o que te atrai na sonata de Frank Bridge, que vocês têm apresentado?

Sheku Kanneh-Mason: É uma música incrivelmente bonita e às vezes comovente. O primeiro movimento foi escrito antes antes da Primeira Guerra Mundial e o segundo, no final do conflito. Bridge certamente foi afetado pelo que aconteceu. O primeiro movimento termina pacificamente, e então o segundo começa em um mundo completamente diferente. É como um lamento, com alguns momentos sombrios e duros também. Termina com o tema do primeiro movimento e, quando o faz, é nostálgico, quase desesperado. É uma peça realmente fascinante.

Já a sonata de Shostakovich foi escrita em 1934, após a estreia de “Lady Macbeth de Mtsensk”, mas antes de sua denúncia política em 1936. Como você a descreveria?

Sheku Kanneh-Mason: Ele escreveu durante um período de separação de sua esposa, mas não acho que a peça seja sobre isso necessariamente. Há elementos bastante clássicos em termos de forma, o estilo de cada movimento, como as frases são construídas, mas harmonicamente, ritmicamente e as cores que ele escolhe usar são muito particulares. O terceiro movimento é onde ele derrama todo o seu coração, tristeza e alma. Os movimentos externos são bastante divertidos. Ele tinha um bom senso de humor.

Você tem uma página favorita na partitura?

Isata Kanneh-Mason: Seria no quarto movimento, cerca de seis páginas antes do final. A música diminui, há esse momento de silêncio - e então o piano explode! É tão Shostakovich ter uma mudança de humor tão dramática. Quando eu era mais jovem, essa passagem sempre me apavorava, mas, agora, depois de muitos anos praticando, geralmente fico animada para chocar o público com esta explosão.

Vocês dois mostraram interesse em expandir a diversidade da música que seu público ouve, seja Clara Schumann ou música enraizada em spirituals. Há espaço para fazer mais disso em seus programas de música de câmara?

Isata Kanneh-Mason: Há um grande repertório no mundo da música de câmara de compositoras, de compositoras negras, mas isso virá a nós naturalmente, como qualquer peça de música - quando ouvimos e nos sentimos compelidos a tocá-la. 

Sheku Kanneh-Mason: É uma pena que exista tanta pressão para que mulheres toquem obras de compositoras e negros toquem a música de compositores negros. Você não costuma ver um artista branco tocando música de Samuel Coleridge-Taylor, por exemplo. Então, o simples fato de que somos artistas negros, acho, já faz enorme diferença. /TRADUÇÃO DE JOÃO LUIZ SAMPAIO

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