GABRIELA BILÓ / ESTADÃO
GABRIELA BILÓ / ESTADÃO

Irene Atienza mostra a força de uma interpretação que há muito não surgia no Brasil

Cantora e compositora espanhola lança nas plataformas o belo 'Salitre', fazendo o encontro do flamenco com a música brasileira

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

26 Janeiro 2018 | 06h00

O mesmo mar que banha sua Santander de 180 mil habitantes, no litoral norte da Espanha, é o que bate nas costas do Brasil. Um capricho geográfico que define a existência de Irene Atienza. Seu primeiro disco solo, Salitre, álbum que tem potencial para ser dos mais festejados da temporada a partir de hoje, dia de seu lançamento oficial nas plataformas digitais, atinge o ponto raro dos encontros entre grandes culturas. Quando Irene canta, com uma voz de força flamenca impactante e arrebatadora, não se sabe mais onde começa a Espanha e termina o Brasil. Ela faz seu próprio país em algum lugar entre os continentes.

E é ela quem define melhor, em um texto de contracapa, a ideia de ligação marítima reduzindo-a a um grão de sal entre seu país de origem e o de destino, onde vive desde 2013. “Quero mostrar o salitre que há na pele de minhas músicas que nasceram entre Espanha e Brasil e mergulharam em outros mares. Salitre que me faz voltar para casa em cada novo lugar. Porque somos sal do mesmo mar.”

Irene, 36 anos, tem a Espanha palpável nos violões e no canto. A dramaticidade do flamenco que a criou desde a infância em Santander encontrou no Brasil sua tradução no violão de sete do brasileiro Douglas Lora, que já esteve com ela em outras formações.

Del Mismo Mar, a canção em espanhol que abre o disco, já vem com a voz grande preenchendo tudo. Irene é das cantoras que economizam para não transbordar. Sinais, agora em português, é um samba-canção na ideia, mas com a mesma economia nos arranjos de Lora, apenas as sete cordas, bateria e percussão. E o son cubano De La Vida segue para outro campo, com o piano havanero de Pepe Cisneros, o baixo acústico de Danilo Penteado e a percussão de Kabê Pinheiro. E então vem Grãos de Sal, a isca jogada nas redes antes de tudo acontecer. Uma canção afrolatina e caribenha cheia de suingue e com a voz de Lenine.

As músicas apontam para um começo fora da curva de uma nova cantora no Brasil com uma segurança de interpretação e um faro pelo bom repertório que não se vê há tempos. Sem buscar pelo ‘conceito dos ruídos’ ou pelas ‘quase-interpretações’ que poderiam alinhá-la ao que se chama de nova MPB, Irene tem a temperatura sempre elevada. Seus arranjos, assinados por Lora e pelo craque Swami Jr, não desperdiçam notas. E ela ainda é cantora de si mesma, compositora de quase todo o disco.

Além das quatro iniciais, são suas também o samba triste Como Assim; o samba-flamenco (cem anos depois, eis um novo primo) Las Calles de Lunes; e Vem Cá, Dor, com arranjo de Douglas Penteado, que chega dizendo assim: “Vem cá, dor / vem me fazer maior / vem me fazer chorar / até o mal sair de mim.” 

As homenagens são para quatro compositores de países que marcam o que Irene faz. Do cubano Silvio Rodríguez, ela canta Demasiado. Do espanhol Joaquín Sabina, tem Peces de Ciudad. Do argentino Atahualpa Yupanqui, faz Piedra Y Camino. E do Brasil canta, em espanhol, O Bem do Mar (vertida para El Bien Del Mar, com violão impecável de Jony Gonçalves), de Dorival Caymmi.

Irene chegou ao Brasil guiada por um espírito livre que se descobre no terceiro minuto de conversa. Quando vivia em Barcelona, depois de deixar Santander, conheceu músicos brasileiros e, com eles, formou o grupo Saravacalé, a embarcação que a traria ao Brasil pela primeira vez. Quando estava em temporada no Rio, o telefone tocou. Era a secretária do diretor de novelas da Globo, Jaime Monjardim. As vacas ainda eram gordas e a Globo, depois de conhecer Irene por vídeos na internet, a queria como personagem da novela Flor do Caribe, de 2013. Ela era a cantora do bar, uma simples coadjuvante que mudaria sua vida por sete meses. Irene, a gringa das rodas da Lapa, estava, de repente, vivendo de frente para o mar da Barra da Tijuca com motorista à sua espera. “Os meus amigos na Espanha não acreditavam naquilo.”

A estrela não se apagou com o fim da novela. Irene veio a São Paulo e se empenhou em aprender samba, choro, baião. O que poderia ser um problema, o sotaque ou a divisão contaminada pela contundência do canto espanhol, foi se tornando marca e as portas começaram a se abrir. Depois do projeto Con Alma, que a uniu à bailarina Alê Kalaf, ela sentiu que era o momento de colocar as músicas em um disco com seu nome na capa. “As músicas saíam algumas em espanhol, outras em português. Era tudo muito natural. Nunca pensei que algumas pessoas poderiam não entender o idioma, mas espero que tenha se tornado um trabalho universal.”

Lenine. O pernambucano chegou com gentileza. Essa é a palavra com a qual Irene se recorda de como Lenine foi parar em seu disco. “Quando o Swami Jr sugeriu, eu pensei: ‘Lenine? Será que ele aceitaria?’” Um telefonema e uma troca de e-mails depois, com Grãos de Sal devidamente conhecida pelo cantor, a gravação estava agendada. “Ele simplesmente respondeu: ‘Eu topo’. Veio ao estúdio aqui em São Paulo e não quis nem o dinheiro do táxi.”

As coisas agora acontecem depressa. Depois de colocar o single Grãos de Sal nas redes, duas empresas portuguesas já a procuraram para fechar trabalhos. No dia 18 de janeiro, ela fez um pré-lançamento no Centro Cultural Rio Verde que lhe serviu como bom termômetro. “As pessoas parecem ter saído bem satisfeitas, não estavam acostumadas a me ver com grupo de cinco músicos.” Os projetos agora, ela diz sem mais detalhes, estão “pipocando”.

As conexões ibéricas serão usadas em sua carreira. Logo depois do Brasil, ela quer lançar Salitre na Espanha e em Portugal. E viver? Ela volta para a Espanha? O que se ouve primeiro é um sorriso. “A minha ideia é ficar um pouco mais no Brasil, agora que minha carreira está ficando boa por aqui.” E, desde sua chegada, o que observa como características que diferem brasileiros e espanhóis? Uma pergunta de resposta sempre dolorosa de se ouvir. “Eu sentia muito o que achava ser uma espécie de falta de compromisso do brasileiro. Um ‘se rolar, rolou’. E eu acreditava em tudo. Acabei me acostumando com isso. A palavra, na Espanha, tem mais peso.” Por outro lado, ela diz: “Aqui, o nível dos músicos é incrível. A música no Brasil é algo que não tem fim, é intensa, não termina nunca por aqui. É o que me prende ao Brasil.”

 

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