Ira! faz rock renovado em "Entre Seus Rins"

Nada melhor que um dia bom depois de um dia ruim. Para o Ira!, o dia bom está durando já umaeternidade e o novo disco da banda paulistana, Entre Seus Rins (Abril Music) só vem confirmar a boa fase. "A gente perdeu o pudor de saber se divulgar", avalia o guitarrista Edgard Scandurra, em entrevista. Mais que isso: o Ira! perdeu o medo de experimentar e recuperou a confiança perdida nos início dos anos 90 - bad trip que começou com uma acusação bem fundada de plágio (eles chuparam a letra da música Receita para Se Fazer um Herói de um poema do poeta português Reinaldo Pereira). Águas passadas. O novo disco do Ira! é simplesmente um dos melhores de rock da temporada - curiosamente, junto ao trabalho de outro grupo veterano, Os Titãs.Primeiro, o grupo tratou de ressurgir, fazendo um disco de versões (Isto É Amor) há dois anos - feito de alguns bons achados e escolhas duvidosas. Depois, voltou à estrada e atravessou o País de ponta a ponta, a bordo de outro bom´veículo´ de sucesso, o álbum MTV ao Vivo (2000, que vendeu cerca de 100 mil cópias). "Tocamos em quase todos os Estados,exceto a Paraíba e o Maranhão", diz Scandurra.Em 1997, o Ira! já tinha feito uma tentativa de fundir sua virulência rocker com um certo conceito pré-eletrônico, no álbum Você não Sabe Quem Eu Sou (Paradoxx), um disco "quequase não tocou, vendeu pouco, mas foi muito elogiado", lembra o guitarrista.Agora, com esse novo trabalho, eles sofisticam mais essa mistura, soando como uma espécie de U2 (aquele do disco Pop) com mais peso. E também um pouco experimentais, como na faixa deabertura, O Bom e Velho Rock´n´Roll, na qual o vocalista, Nasi, canta como se tivesse a voz processada num vocoder. "A gente conseguiu melhor que o U2", diz Scandurra, sem medo deparecer exagerado. "Eles ficaram mais presos à voz do Bono, mas as semelhanças talvez se devam ao fato de que somos da mesma geração, as informações são muito parecidas."Nem tanto. Há um tanto de Jovem Guarda em algum momento do disco do Ira!, como em Milhas e Milhas, parceria com o jovem guitarrista e compositor Mauro Motoki, do grupo paulistanoThe Maybees (uma das boas surpresas do pop rock dos anos 90).O tempo passou, o Ira! amadureceu sua pesquisa e viu que "o bom e velho rock´n´roll" não deveria ser apenas um casaco preto e uma cara feia. Precisava de curiosidade. Edgard Scandurra foi o primeiro a sair em busca das referências da novamúsica eletrônica, mas sem jamais perder o princípio básico."O Ira! dos primeiros discos tinha aquela coisa nervosa de garotos chutando microfones, e a gente torcia o nariz para muita coisa", lembra ele. "Hoje, a gente assumiu uma atitudede ir às rádios, de falar sobre o disco, não temos de provar mais nada para ninguém", pondera.Edgard deixou-se seduzir pelo big beat inglês e entrou de cabeça na parte mais instigante da eletrônica. "Mesmo onde o elemento eletrônico não é o mais forte, o disco busca sempre algo que transcenda aquilo que diz que a música tem de sercantarolada, que tem de ser aquela coisa antiga do bardo", pondera.Um exemplo disso é a faixa Para Ser Humano, entre as boas experiências de Arnaldo Antunes e um certo clima kraftwerkiano. "Quando vou a um clube, vejo muita gente dançando de olhos fechados, deixando-se levar pelo estímulosonoro", diz Edgard. "É importante levar isso para o rock, não buscar só aquele solo previsível, mas ter também a levada, a pulsão da música", pondera.Produzido por Marcelo Sussekind (que trabalhou comErasmo Carlos), Entre Seus Rins traz boa conexão com aquelas canções semibregas do rádio dos anos 60 e 70. Caso de Um Homem só, atualização de Lobo Mau ou O Homem do Braço de Ouro. Há somente uma cover, Homem de Neanderthal, de Frank Jorge, que foi gravada no disco-solo do compositor, ex-integrante da banda Graforréia Xilarmônica.A ambição do Ira! parece pequena. "Se a gente conseguir fazer um moleque de 15 anos dançar com os olhos fechados, batendo o pé, estamos realizados", arremata Edgard. Mas isso é o Nirvana do rock e eles estão na direção certa.Entre Seus Rins. Novo álbum do Ira!. Lançamento Abril Music. Preço médio do CD: R$ 20,00.

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