Invenções de Tom Zé abrem projeto no Sesc

Partindo da idéia proposta pelo título do projeto, Esses Músicos Malucos e Suas Músicas Maravilhosas, no Sesc Vila Mariana, a primeira atração do evento, Tom Zé, vai interpretar suas composições "criadoras de problemas". Não é uma polêmica em vão, até porque o seu repertório é essencialmente crítico. É mais um motivo para fazer uma de suas "brincadeiras" (invenções brilhantes).Encabeça a lista de problemas a causar, a música Brigitte Bardot. "Ela nunca foi gravada bem. Hoje devo mostrá-la numa versão mais fiel a minha primeira idéia", afirma ele. Segundo Tom Zé, a composição possui diferentes volumes, do início ao fim. Originalmente, foi gravada com esses efeitos, mas houve limpeza sonora que pareou todo o volume, jogando fora o conceito da música.Para o show, também são destaques os instromzémentos, criados pelo compositor. São eles: a orquestra de herz ou hertzé (uma espécie de sampler pré-sampler), enceroscópio (feito com enceradeiras, aspiradores de pó, liquidificadores), a serroteria (um dispositivo feito com canos de madeira, PVC e outros materiais), o buzinório (um conjunto de buzinas manejadas num teclado) e as canetas Lazzari (um pequeno instrumento com canetas esferográficas). Tom Zé deve tocar apenas dois instromzémentos; outros dois, provavelmente o enceroscópio e buzinório, ficarão expostos no Sesc Vila Mariana."Desde quando fabriquei os instromzémentos, em 1978, penso neles como verdadeiros protagonistas dentro da música. E não só um simples participante", afirma Tom Zé, justificando o fato de nem sempre poder tocá-los, pois são grandes e delicados. "Agora, temos versões menores de alguns deles, como o buzinório por exemplo, que não cabia numa kombi."Os instromzémentos perseguem, desde 1978, o pensamento musical de Tom Zé. "Devo a eles, que estão o tempo todo no meu subconsciente, toda a modificação na estrutura da minha composição. Sinto-me apoiado em três pernas e meia e tudo isso dá um outro sentido à criação", acredita. "Essa ebolição virulenta que há na minha música é muito proveniente dessas máquinas."As invenções sonoras de Tom Zé também serão protagonistas da nova trilha de balé do Grupo Corpo. "Eles ficaram muito interessados em tê-los nessa nova trilha. Devo começar a compor já. Além de Gilberto Assis (fiel parceiro), Gil também vai dividir essa criação", conta. Tom Zé já compôs para a companhia. Com Zé Miguel Wisnik, criou a música de cena "Parabelo".O show terá ainda o ritmo chamegá. Significa: um gênero específico, com um violão que tem o acento de uma semicolcheia depois do tempo forte de bateria, com uma levada específica de contrabaixo, etc. Deixa disso. É mais uma de suas peripécias musicais inclassificáveis, que será traduzida por gestos pela coreografia de Laura Huzak Andreato e Paula Lisboa. Além das músicas dos CDs Jogos de Armar e Com Defeito de Fabricação.Rock in Rio - No antológico show na tenda Brasil, no Rock in Rio, em que pôs o público da noite de heavy metal nas mãos, Tom Zé domesticou a platéia. Em apenas 18 minutos de apresentação, ele saiu ovacionado pelo público metaleiro, que não aceitou o fim do curto espetáculo e insistentemente gritou por seu nome.Tom Zé, sem discursos maniqueístas, fez o Brasil pensar no Brasil. Não precisou explanar sobre a paz, o rock e a música brasileira, como Carlinhos Brown. Vestidos de operários, Tom Zé e Jarbas Mariz, um dos integrantes da sua banda, encenaram o metafórico confronto do samba e do baião. Após o embate, sem feridos, ele, mais uma vez, deixou no ar uma inteligente lição musical e social. Diminuiu a intensidade da voz, como num transe hipnótico, e cantou: "O Brasil bate no Brasil." Só por isso, as noites de amanhã e quarta-feira prometem.Tom Zé - Amanhã e quarta-feira, às 21 horas. De R$ 10 00 a R$ 20,00. Teatro do Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141, tel. 5080-3000.

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