Christian Bruna/EFE
Christian Bruna/EFE

Inteligência artificial conclui obra inacabada de Beethoven

'Os compositores da época eram todos vanguardistas. Estavam sempre em busca de novas maneiras de fazer as coisas', diz maestro da orquestra que executou a obra

Redação, AFP

03 de setembro de 2021 | 17h05

O maestro levanta a batuta e a música começa a tocar diante de um público expectante, que tenta descobrir a marca de Beethoven em uma melodia baseada em algumas notas suas, mas completada com a ajuda de inteligência artificial.

A obra, executada em uma sala em Lausanne (Suíça) pela orquestra Nexus, é inspirada em um punhado de notas que o grande compositor alemão deixou, possivelmente fragmentos de sua 10ª sinfonia, e que foi finalizada em poucas horas graças à tecnologia.

Assim que foi terminada, a orquestra ensaiou por um tempo a peça inédita e, nessa mesma noite, a apresentou em um concerto.

A obra se chama BeethovANN 10.1 e foi criada graças a um programa de inteligência artificial. "ANN" refere-se à sigla (em inglês) de Rede Neural Artificial, uma das formas de inteligência artificial.

"Não sabemos o que vai ser. Essa parte é um pouco imprevisível, mas é preciso entender que não é o resultado que conta, mas o processo", havia explicado dias antes à AFP Guillaume Berney, o maestro da orquestra.

Por trás do BeethovANN 10.1 está Florian Colombo, um violoncelista que dedicou muitos anos ao projeto de ensinar uma máquina a compor no estilo de um dos maiores músicos da história.

Na quinta-feira, Florian Colombo abriu o arquivo Symphonie 10.1 em uma telona e, com um único clique, gerou a partitura final da peça, que dura cerca de 5 minutos.

Em seguida, Guillaume Berney fez alguns ajustes harmônicos e a peça foi apresentada ao público na mesma noite. Nesta sexta-feira está prevista uma segunda apresentação.

"É muito legal ver isso, é como estar na maternidade, é um parto", disse o maestro, com as primeiras folhas da partitura em mãos.

"Quanto ao que vejo ao nível harmônico, estamos mais no tempo de Beethoven, então podemos dizer que é um sucesso".

- Com um clique -

Durante o ensaio, Florian Colombo confessou sua "emoção". "Há um toque de Beethoven, mas isso é verdadeiramente BeethovANN, é algo a descobrir", apontou.

"Tem coisas que são muito boas, outras que estão fora de estilo, mas são agradáveis. Talvez falte a centelha do gênio", disse o maestro, sorrindo.

Colombo, um pesquisador de computação na prestigiosa Escola Politécnica Federal de Lausanne, educou redes de neurônios artificiais com os 16 quartetos de cordas de Beethoven e seus acordes particulares, e então pediu-lhe que compusesse a partir de fragmentos do que poderia se tornar a 10ª sinfonia.

"A ideia é poder apertar o botão e ter a partitura completa de toda a orquestra sinfônica, sem outras intervenções além do meu trabalho anterior", explica o pesquisador, que iniciou o projeto "há quase dez anos".

O objetivo do pesquisador, que está criando uma start-up, é "fornecer essas ferramentas para músicos profissionais, amadores, orquestras, para que todos possam [...] compor de forma lúdica [...] ou criar partituras personalizadas para necessidades específicas".

E se alguém vê isso como um insulto a Beethoven, Guillaume Berney responde: "Isso não é ofensivo. Os compositores da época eram todos vanguardistas. Estavam sempre em busca de novas maneiras de fazer as coisas."

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