Instituto Moreira Salles compra acervo de Tinhorão

José Ramos Tinhorão começou a escrever sobre música no Brasil em 1961. Lembra-se até hoje da falta que lhe fazia um bom material de pesquisa. Foi assim, motivado mais pelo cotidiano que pela responsabilidade histórica, que começou a comprar discos, revistas, livros antigos que tratassem de música brasileira. Na mesma época, para as colunas semanais encomendadas a ele pelo Jornal do Brasil, passou a entrevistar músicos, como João da Baiana, Pixinguinha, Donga, Luiz Peixoto, Heitor dos Prazeres. Guardou as fitas. 40 anos depois, o historiador acumulou o que é considerado o maior acervo pessoal de música brasileira. Depois de mantê-lo por longo período num apartamento de 31 m2 na Rua Maria Antonia, vendeu os seus discos, livros, revistas, jornais, partituras para o Instituto Moreira Salles. Dentro de um ano, talvez seis meses, no prédio do IMS, na Avenida Paulista, o Acervo Tinhorão abrirá suas portas para o público."Quem passa um negócio desse para frente não passa só discos, fitas, mas uma vida", comenta o pesquisador, ao mesmo tempo em que arruma os seus cerca de 4500 discos de 78 rpm. "Esse é o último material que não mandei para o pessoal do instituto. Precisa cuidado para embalar", explica. Além do acervo, incorporado pelo instituto, Tinhorão passa a ser, pelos próximos dois anos, consultor da instituição na área de MPB. Ficará responsável por administrar seu acervo, o de Pixinguinha, comprado pelo IMS do Rio, orientar publicações, realizar cursos, e produzir novos livros. "Eu tinha que fazer isso porque cheguei a um certo ponto que não dominava mais o que tinha", diz. "Muitas vezes sabia que tinha o material mas não onde encontrá-lo em meio à tamanha bagunça."Remexer seu acervo é, para ele, repensar a vida. Está empolgado com o novo trabalho no instituto. "Agora que eu tenho tema como o diabo para fazer meus livrinhos", comemora. De bate pronto cita pelo menos três novos projetos. Um sobre artistas de outras áreas que gravaram discos, como a miss Marta Rocha. "Hoje convidam atrizes e modelos para tirar a roupa, mas na época queriam é que elas cantassem sambas", ironiza. Outro sobre os compositores que na década de 30 e 40 se metiam a cantores. Cita como exemplo Nássara, parceiro de Noel Rosa, que gravou um único álbum usando seu primeiro nome, Luiz Antônio. Por último, e talvez o mais importante deles, revelar os nossos bissextos. Usa esse termo, em diálogo com Manuel Bandeira, para qualificar os cantores e compositores que só gravaram um ou dois discos e depois deixaram o mercado fonográfico.O apartamento em que mora agora está vazio. Tinhorão faz troça de sua situação. "Agora quero ser novo rico, só vou ter livro bonito na prateleira, desses que você compra por metro." Os próximos passos já estão anunciados. Vai começar a tirar o material da caixa no início de janeiro. Pela frente, catalogar, restaurar o que o tempo estragou e arrumar nas estantes, prateleiras e afins. Espera que em julho esteja pronto para poder continuar a fazer o que sempre fez, pesquisar.

Agencia Estado,

08 de dezembro de 2000 | 16h54

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.