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Inspirado em Rihanna, ‘Selah and the Spades’ mostra uma adolescente negra poderosa

Personagem líder de uma facção que atua em um internato, responsável pela oferta de álcool e drogas na escola, quer deixar o grupo mas não está certa disso

Mariane Morisawa, ESPECIAL PARA O ESTADO

29 de abril de 2020 | 05h00

Desde que Selah and the Spades foi adquirido pela Amazon Prime Video, em julho do ano passado, depois de ser exibido no Sundance Festival, Tayarisha Poe sabia que ele estaria disponível no streaming. Só não desconfiava que seria no meio de uma pandemia. “Sempre quis que meu longa de estreia fosse visto pelo máximo de pessoas possível. Então, estou feliz que o mundo inteiro possa assistir”, disse a diretora em entrevista ao Estado. “Lançando agora, espero que ele possa oferecer algo de bom, uma inspiração para alguém, nesses tempos tão difíceis.” O streaming tem sido uma das válvulas de escape de milhões de pessoas ao redor do mundo, em confinamento por causa da covid-19 – o número de minutos assistidos dobrou nos EUA.

Em Selah and the Spades, Selah (Lovie Simone) é a líder de uma facção num internato. Os Spades são os responsáveis pela oferta de álcool e drogas na escola onde os adolescentes ficam meio soltos. Seu braço direito é Maxxie (Jharrel Jerome, vencedor do Emmy por Olhos que Condenam). Selah está no último trimestre no colégio e quer deixar os Spades para alguma outra liderança. Sua escolhida é a fotógrafa Paloma (Celeste O’Connor) – mas seus sentimentos em relação a “passar o bastão” e começar outra fase da vida são ambíguos. “Selah apenas é. Ela não está tentando ser como ninguém, está apenas tentando ser. E por isso você gosta dela e às vezes não gosta”, disse a atriz Lovie Simone ao Estado.

Tayarisha Poe contou estar cansada de ver filmes e séries de televisão em que as garotas negras são boas meninas ou então passam por trauma atrás de trauma. “Queria fazer um filme com personagens que fazem coisas ruins, mas não são más pessoas. E queria dar a eles espaço para descobrir as coisas, porque são adolescentes. Normalmente, queremos que os adolescentes sejam adultos.” 

Selah tem uma fachada quase impenetrável, sendo cool e poderosa ao mesmo tempo, mas passa por seus momentos de fragilidade, sempre escondidos. “Sendo uma mulher negra jovem, eu sei como é isso. Você precisa constantemente modular sua voz, seu tom, mudar a maneira como se veste, como se penteia, porque sempre estão dizendo que não é aceitável. Demora um tempo para ver que é fácil dizer: dane-se, vou fazer o que quero e ser a mulher negra que eu amo ser.” 

Sua ideia era que Selah fosse uma anti-heroína nos moldes dos personagens masculinos, de meia-idade e brancos que fizeram sucesso nos últimos anos, de Tony Soprano a Walter White. “Os homens brancos costumam se safar das coisas. Meninas negras, não”, disse. “Eu fiquei pensando: e se a gente decidir criar uma imagem no mundo ficcional que queremos que se torne realidade em nossas vidas? Eu acho que a arte imita a vida. Mas a vida também imita a arte. Precisamos mostrar pessoas que levam vidas ambíguas e que sejam minorias.” 

Poe tinha como missão contar uma história em que crime e drogas não viessem necessariamente atrelados à violência. “Queria que os personagens com a minha cor de pele pudessem ter ambiguidade moral sem ser pegos ou mortos pela polícia, sem passar por um trauma relacionado à supremacia branca. Não desejava que fossem válidos pelas ocorrências em sua existência. Queria que eles fossem válidos apenas por existirem.”

Para criar o rico universo de Selah and the Spades, a diretora inspirou-se em sua experiência num internato, mas também em diversas obras, da fotografia icônica de Huey P. Newton, um dos líderes dos Panteras Negras, numa cadeira de vime, feita por Blair Stapp, até O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, e o álbum Anti, de Rihanna. Seu método foi pouco convencional. Sem experiência em longas, resolveu escrever várias histórias curtas. “Escolhi algumas delas. Algumas viraram curtas-metragens, outras, colagem de fotos, outras ficaram na forma escrita.” Assim, ela lançou Selah and the Spades – Overture” em 2014. “Explorei como fazer filmes. Sabia que eu sabia contar histórias. Foi muito valioso começar pequeno”, diz. Deu tão certo que agora vai fazer uma série baseada no seu universo. 

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