Todd Heisler|The New York Times
Todd Heisler|The New York Times

Inspiração de Paul Simon não envelhece em novo disco

'Stranger to Stranger' traz o extenso vocabulário de sons de seu criador

John Pareles - NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2016 | 20h30

NOVA YORK - No beiral da janela atrás da escrivaninha de Paul Simon, cujo escritório fica em Manhattan, havia um instrumento em forma de gota: um gopichand indiano, com uma corda no meio e dois bambus flexíveis nas laterais. Na entrevista que me concedeu ali, o músico mostrou como puxar o fio e apertar os lados para obter o “boing” que é o primeiro som de Stranger to Stranger, seu 12.º álbum solo e o primeiro desde 2011.

O disco reúne uma série de canções que brincam e levantam questões sobre amor, morte, espiritualidade, beisebol, desigualdade e a própria música. É o capítulo mais recente, ambicioso e cheio de melodia, de uma carreira que tem muito mais a ver com curiosidade do que com a vontade de agradar ao público. Ao longo do caminho, vendeu milhões de discos, primeiro com Art Garfunkel na dupla Simon & Garfunkel, nos anos 1960, e depois percorrendo o mundo sozinho. Conquistou vários prêmios, inclusive o Grammy, e reconhecimento - mas também recebeu críticas pesadas por projetos como o musical que fez para a Broadway, em 1998, The Capeman, embora os revivals baseados só nas músicas e não na história tenham sido elogiados. 

Aos 74 anos, Simon poderia tranquilamente se aposentar, aproveitando a popularidade duradoura de antigos hits como America, que doou para os anúncios da campanha de Bernie Sanders, ou The Sound of Silence, que voltou a ser sucesso, no ano passado, na voz da banda de hard rock Disturbed; ou, quem sabe, continuar na estrada, tocando as antigas canções, que é como os fãs mais velhos se recordam dele (embora recentemente tenha dito que a volta com Garfunkel estava “fora de questão”). Poderia também continuar compondo novidades no estilo que já provou ser um sucesso absoluto.

Em vez disso, seus álbuns mais recentes são mais experimentais do que nunca. “Além de confiar em si mesmo, ele se cobra muito, o que é uma combinação muito boa. Se você tem um, mas não o outro, pode acabar enfrentando problemas”, afirma o compositor Philip Glass, amigo antigo e parceiro ocasional. Simon tem uma regra clara: “Um disco pop tem que ser muito interessante, senão ninguém ouve”.

Em Stranger to Stranger, Simon está, acima de tudo, improvisando. “Foi o som que me levou aos resultados. O tema desse álbum não são as letras, mas sim o som. Retrata, ou melhor, é consequência dos tempos em que vivemos e o resumi com fontes que considero valiosas. De certa forma, o esquema não é muito diferente do dos caras do hip-hop que apostam na sonoridade, tipo Kanye ou Kendrick.” 

Stranger to Stranger abre com The Werewolf, um som jovial que acusa os ricos de ficarem cada vez mais ricos em meio à “ignorância e arrogância”. Ele jura que a letra foi escrita antes da atual campanha presidencial. Cool Papa Bell é o nome do corredor negro mais rápido da Negro Leagues, antes de o beisebol ser integrado; já The Riverbank descreve o funeral de um veterano que cometeu suicídio. A canção-título fala de inspiração e romance: “O amor suporta todo massacre e os desvios inúteis”, ele canta.

A música de Stranger to Stranger é rica em percussão: quatro das primeiras seis faixas não tem guitarra nenhuma. E se estende além do padrão pop de quatro minutos, assumindo mudanças surpreendentes (mas, no fim, totalmente lógicas). Elas se conectam sutilmente, com algumas canções compartilhando elementos rítmicos - e também continuam a expandir o vocabulário sônico de Simon com instrumentos únicos, além dos recursos eletrônicos, loops e sampleados.

Simon sempre foi considerado um perfeccionista, mas para Mark Stewart, guitarrista da banda que o acompanha desde 1998, a descrição é “simplista”. “Estamos mais para um safári sônico. Ele vive em busca da ave rara e não desiste de encontrá-la. E, é claro, estamos todos lá para ajudar. Ele vai continuar nessa busca até encontrá-la.”

A música mais agitada do álbum, Wristband, começa como uma história fictícia e se transforma em uma metáfora sobre privilégios. O narrador é um cantor que sai para fumar um cigarro, ouve a porta do palco se fechar atrás de si, percebe que deixou a pulseira de identificação no camarim e tem que enfrentar um leão de chácara que é “um armário de 2 m de altura”. 

A melodia de Wristband saiu dos tons dançantes de uma faixa de tambores falantes da África Ocidental. Simon pediu a Carlos Henriquez, da Orquestra de Jazz do Lincoln Center, que os reproduzisse no baixo e descobriu um trecho que parecia montuno, o ritmo precursor da salsa. O filho de Simon, Adrian, deu a dica da música eletrônica de um produtor italiano, Digi G’Alessio, que se autodenomina Clap! Clap! e com quem Simon se encontrou durante excursão na Europa com Sting. Mais tarde, visitou seu estúdio, na Sardenha, para escolher o sincopado eletrônico. Há também as palmas de um grupo de flamenco e a percussão e os metais da banda que o acompanha. O resultado da montagem, além de complexo, simplesmente explode.

Outros sons também incluem instrumentos inventados pelo compositor Harry Partch, entre eles o chromelodeon e as tigelas de “cloud chamber”, que dividem a oitava em 43 fases, usados para alterar o ambiente harmônico de Insomniac’s Lullaby. E as vozes gospel do Golden Gate Quartet, gravadas em 1939, que tiveram o tom alterado e rodado para frente e para trás. Ao ouvir os vocais inversos, Simon discerniu as palavras Street Angel, que lhe garantiram o nome de uma canção e o personagem que aparece em duas faixas: um sem-teto esquizofrênico e poeta que acaba internado em um hospital. “Dopamina em excesso o transforma num esquizofrênico; na medida certa, faz de você um visionário”, constata.

Simon já está em turnê, tocando em casas pequenas, embora a apresentação de Nova York, em 30 de junho, seja no Forest Hills Tennis Stadium, no Queens, onde cresceu. Sua banda inclui africanos (Nguini e Bakithi Kumalo, da turma de Graceland), músicos clássicos contemporâneos (do YMusic, Bang on a Can All-Stars e Philip Glass Ensemble), um percussionista (Jamey Haddad) especializado em jazz, música indiana e do Oriente Médio, um saxofonista com raízes também no jazz (Andy Snitzer), um acordeonista adepto do Tex-Mex, zydeco e blues (Joel Guzman) e um baterista de Nashville, Jim Oblon. “Tudo isso se funde de uma forma que reverte a impressão inicial de simplicidade.”

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