Ilustração: Baptistão/ Estadão
João Gilberto. Com a disputa entre os 'herdeiros', nenhuma gravadora se arrisca a reeditar os trabalhos do mestre Ilustração: Baptistão/ Estadão

Insegurança jurídica e desentendimento familiar emperram relançamentos da obra de João Gilberto

Clássicos interditados. Gravadoras evitam lançar discos do cantor por temer pendência judicial

Alberto Bombig e Renato Vieira, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 06h00

A insegurança jurídica envolvendo o espólio musical de João Gilberto está dificultando a natural onda de relançamentos que costuma se erguer no mar da indústria fonográfica após a morte de um ídolo. Com a disputa entre os “herdeiros”, nenhuma gravadora se arrisca a reeditar os trabalhos do mestre. Álbuns antológicos, verdadeiras joias da MPB e do jazz universal, permanecem restritos a lançamentos das décadas de 70, 80 e 90, isso sem falar da trilogia inaugural da Bossa Nova, composta por Chega de Saudade (1959), O Amor, o Sorriso e A Flor (1960) e João Gilberto (1961), completamente interditada por conta da demanda judicial envolvendo a antiga gravadora Odeon.

As dúvidas judiciais não se restringem à discografia de João Gilberto, morto em julho deste ano. Elas também amedrontam quem tem o desejo de colocar no mercado gravações até agora inéditas, algumas até circulam na internet, principalmente shows feitos no Brasil e no exterior, momentos raros, como uma das últimas apresentações dele em São Paulo, no Auditório Ibirapuera, em 2008.

Quem perde, claro, é o público, especialmente as novas gerações, impossibilitadas de travar um contato mais físico (para além do mundo dos serviços de streaming) e direto com a obra de João Gilberto.

Pelo menos por enquanto, as gravadoras Universal e Warner, que detém a maior parte do catálogo de João Gilberto, não têm planos de reedições, muito menos de colocar em lojas físicas e em plataformas digitais material inédito (sim, há gravações inéditas de João esperando para serem lançadas). A informação foi confirmada ao Estado por fontes do mercado fonográfico: não há segurança jurídica neste momento. A Universal é a detentora da maior parte dos registros de João Gilberto em estúdio. Depois da fusão com a EMI, a gravadora passou a ter em seu poder dez discos dele, gravados originalmente para os selos Odeon, Verve e PolyGram. Outras pepitas do acervo da Universal, que também incorporou o catálogo da antiga Copacabana, são as faixas Quando ela Sai e Meia-Luz, do primeiro 78 rotações que João fez - em 1952, seis anos antes da gravação de Chega de Saudade - e um álbum inédito ao lado de Caetano Veloso e Gal Costa, registrado no estúdio da TV Tupi, em São Paulo, em 1971.



A Warner tem em seu poder os discos gravados entre 1977 e 1986. No Spotify, estão disponíveis apenas os álbuns com Stan Getz, Amoroso (1977), João (1991), João Voz e Violão (2000) e algumas coletâneas. No Deezer, é possível ouvir Brasil (1981), com Caetano Veloso e Gilberto Gil, e João Gilberto in Tokyo (2004). 

Outros registros lançados no exterior jamais chegaram ao Brasil. É o caso de Getz/Gilberto '76, lançado em 2016, e o BluRay com um show no Japão. No ano passado, a Polysom relançou Amoroso em vinil, mas ainda não há previsão de novos títulos nesse formato clássico. Se, por um lado, a insegurança jurídica restringe a divulgação da obra “joãogilbertiana”, de outro, faz crescer a mitologia em torno de João Gilberto: um gênio que, mesmo depois de morto, continua alimentando polêmicas e disputas. 

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Sem vida digital, imagens de artistas podem desbotar

Para o pesquisador Marcelo Fróes, cabe ao bom herdeiro organizar a obra, administrá-la e ser generoso

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 06h00

 

Um jovem de 17 anos, classe média, estudante de um colégio particular de São Paulo, olha para uma foto de Chico Buarque e pergunta ao amigo: esse não é o carinha do meme?

Quando Chico Buarque se torna mais conhecido por um meme retroalimentado nas redes sociais do que por seus 55 anos de carreira, algo está em curto no circuito de transmissão natural da cultura de um povo.

O garoto e Chico Buarque não estão só. À parte de uma geração que entra na idade adulta, imagens de artistas tidos como fundamentais por seus pais já começam a aparecer desbotadas. 

A memória de um artista na era digital não depende mais apenas de sua relevância histórica para seguir presente, atualizada, relevante e influenciadora. Cada vez mais, a renovação de um público ouvinte depende das operações de manutenção de seus legados realizadas pelos herdeiros. E aqui está o gargalo da história: os herdeiros.

João Gilberto, por todas as páginas que escreveu desde 1959, quando criou a bossa nova, tem vida longa, mas seria eterna? Nenhum produto que traga seu nome será lançado legalmente nos próximos muitos anos, nem mesmo álbuns gravados ao vivo que nunca vieram à tona. Muitos deles seguem escondidos nos arquivos de terceiros que temem a reação de seus representantes, irmãos rompidos entre acusações e processos judiciais. O perigo da ganância pode ser hoje impensável, mas não deixa de ser plausível: torná-lo, em 2059, o carinha do meme.

Em outras palavras, quem não souber administrar a vida digital de seu representado, além de entender a importância arqueológica ao passado e ao futuro de filmes, biografias, documentários, séries de TV, musicais, camisetas, vinis, canetas e bonés, estará trabalhando duro para sua extinção.

Carmelo Maia, filho de Tim Maia, fez acordo recente com as plataformas digitais para incluir nesses ambientes os discos da fase Racional, considerados dos melhores. “Duas coisas jamais andarão separadas: o formato da mídia e a forma da distribuição. É quase um casamento”, diz. “Foi preciso se adequar ou, mais, se reinventar.”

A Legião Urbana é um caso que inspira atenção. O herdeiro de Renato Russo, Giuliano Manfredini, segue rompido com os músicos Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, que integraram a Legião desde o início, e o lançamento ou relançamento de obras da banda fica interrompido. “Tenho um songbook da banda pronto há 10 anos e tentei relançar o álbum 2 nos 20 anos do disco, em que tocamos Juízo Final, de Nelson Cavaquinho, mas não conseguimos. Eu perco a vontade. Espero não nos tornarmos os caras do meme”, diz Dado. Giuliano não respondeu às mensagens da reportagem.

Para o pesquisador Marcelo Fróes, cabe ao bom herdeiro organizar a obra, administrá-la e ser generoso. “Tom Jobim é um cara que deveria ter lançamentos todos os anos. É um dos maiores.” Nelson Motta fala também de Jobim, mas como exemplo de gerência. “A família administra bem o patrimônio, cobra 10 mil dólares para uso de um trecho de Águas de Março ou Garota de Ipanema em documentário. Tem o instituto, o teatro, as músicas sendo gravadas, tem toda a obra digitalizada… Não vejo o que mais poderiam fazer."

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'Meu pai queria ficar comigo', diz filho de João Gilberto

Filho mais velho do cantor, João Marcelo Gilberto diz que o pai desejava morar com ele nos EUA e que não consegue ter acesso ao testamento

Entrevista com

JOÃO MARCELO GILBERTO

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 06h00

Filho mais velho de João Gilberto, de seu relacionamento com a cantora Astrud Gilberto, o baixista e produtor carioca João Marcelo Gilberto, de 58 anos, vive em Nova Jersey, nos EUA – país para onde se mudou com a mãe ainda criança. Casado com Adriana Magalhães, é pai de duas filhas, Katryna, de 26, e Sofia, de 3, e tem uma enteada, Alice, de 17. Aliás, na página do Facebook de Sofia é que foi possível acompanhar as últimas imagens de João Gilberto, que morreu no dia 6 de julho. Quase quatro meses após a partida do cantor, João Marcelo diz, ao Estado, que ainda não conseguiu ter acesso, por exemplo, ao testamento de seu pai ou aos detalhes de suas finanças. Leia a seguir entrevista feita por e-mail.

Como era a relação com seu pai?

Minha relação com meu pai sempre foi de muito amor e carinho. Ele me chamava de John Boy. Ele sempre teve brigas com todo mundo que estava próximo dele, mas nunca comigo. Em adulto, eu fazia parte da banda da minha mãe como baixista, mas tinha um contato constante com meu pai quando ele vinha aos EUA ou quando eu ia ao Rio. Meu pai também morou nos EUA por um tempo, cerca de uma década, e eu morei um tempo em criança no Leme, Rio, períodos em que ficamos bem próximos. Recentemente, meu pai conseguiu um apartamento em Ipanema para eu morar no Rio, queria que eu ficasse um tempo próximo. Ele sentia que estava frágil e ameaçado por pessoas próximas a ele naquele momento. Fizemos algumas comemorações bonitas juntos nesse apartamento, como os festejos do meu aniversário e Natal. Passei praticamente 3 anos no Rio, mas tive que voltar para os EUA para resolver umas coisas antes de retornar novamente ao Rio. Eu ia ao Brasil constantemente para estar com ele. Meu pai atualmente me ligava e dizia: 'meu filho quero que você coordene tudo da minha vida; isso que estão botando no jornal contra você é um absurdo, é injusto que você fique com uma imagem ruim'. Falava sempre do amor que sentia por mim e dizia que queria vir para ficar comigo, com as netas e com Astrud aqui nos EUA (ela mora em Philadelphia). Ele falava: eu estou indo praí meu filho, me espera.

Quem são essas pessoas pelas quais ele se sentia ameaçado?

As pessoas que “tentavam administrar” sua vida.

A quem cabia a curatela de seu pai recentemente?

Caberia a mim e a Bebel (Gilberto), mas, quando disse que gostaria de dividir a administração com ela, Bebel deu entrada sozinha e sem meu conhecimento. Infelizmente fui intencionalmente afastado de poder cuidar do meu pai adequadamente, como poder trazê-lo para estar comigo.

Você nunca pensou em se mudar para o Brasil quando a saúde de seu pai se mostrou mais frágil?

Como disse, passei alguns anos morando no Brasil recentemente, mas tive de voltar para cuidar de algumas coisas aqui nos EUA. Minha vontade e a de meu pai era que ele viesse para estar aqui com a nossa família, para isso construí uma suíte para ele em minha casa. Eu poderia cuidar dele e cozinhar para ele. Gosto muito de cozinhar.

Você chegou a cogitar levá-lo aí para os EUA? Se sim, o que impediu que ele fosse morar com você aí?

Sim, eu e ele cogitamos, mas infelizmente não podemos concretizar esse sonho. Não posso contar os reais motivos desse impedimento, pois tenho uma gag order (ordem da mordaça) contra mim neste momento, em que não posso falar livremente para imprensa. Estou impedido de contar minha própria história de vida.

Qual foi a última vez que você ficou junto com seu pai? Foi aqui no Brasil? Nessa ocasião, você conversou com seu pai sobre ele ir com vocês para os EUA?

Pessoalmente no Brasil, mas falávamos constantemente por áudio e vídeo. O único momento em que perdi contato com ele foi no início de sua curatela.

Nos últimos dias de vida de seu pai, vocês postaram fotos dele com Maria do Céu. Como era a relação dela com João?

Maria do Céu cuidou do meu pai no último ano de vida dele, mesmo que muitas vezes não cooperasse para um ambiente de paz. Ela só foi para a casa dele porque perdeu seu apartamento. Postamos imagens carinhosas de família, inclusive meu pai gostou muito e estava ciente de tudo. Maria nos apoiou por aparecer em fotos melhorando a imagem dela aos olhos do público. Nós e o advogado a apoiamos nesse sentido para tentar melhorar a imagem dela e ela estava feliz e solidária com isso.

Como seu pai e Maria do Céu se conheceram? E quanto tempo eles ficaram juntos?

Uma ex-mulher de meu pai contava que eles estavam jantando e Maria trabalhando na área, quando ela os abordou sentando na mesa do restaurante com eles. Meu pai pagava as contas para ela, mas nunca quis assumi-la como esposa ou companheira, sempre deixou isso muito claro para os filhos. Passei alguns anos no Brasil recentemente, indo e vindo, e eu ia muito na casa do meu pai e ele vinha na nossa casa, e ele sozinho, sem estar acompanhado por qualquer uma de seus relacionamentos. Além de Maria, ele sempre teve diversas namoradas simultaneamente. Meu pai queria que Maria tivesse sua própria vida. Inclusive ele nunca quis que ela se metesse em nada de seus compromissos profissionais. No único testamento que meu pai fez, ele fez questão de deixar claro que não tinha união estável com ninguém. Maria pediu recentemente para eu e Adriana assinarmos cartas para ela tentar conseguir uma união estável e acabamos fazendo, apesar de isso não ter sido a vontade do meu pai. Fiz somente porque tinham pessoas tentando afastá-la dele naquele momento, para poder tirar meu pai de seu apartamento e achei que Maria poderia ajudar para que isso não acontecesse. Naquele momento, a coisa mais importante para mim era manter meu pai em sua própria casa e sua própria cama. Maria e meu pai sempre brigavam muito e Maria brigava também com as pessoas que se aproximavam dele para os afastar. Maria também tentou impedir que minha filha mais velha, Katryna, falasse com meu pai. Isso foi particularmente difícil para minha filha, pois ela sempre teve um relacionamento ótimo com ele e ele era apaixonado por ela, sempre a tratando com enorme carinho.

Maria do Céu alega ter tido relação estável com seu pai. Eles tinham mesmo?

Como disse, meu pai sempre teve namoradas e sempre ajudou minha mãe financeiramente. Juridicamente, Astrud é viúva do meu pai, pois nunca se divorciaram e sempre mantiveram grande lealdade, companheirismo, respeito e ajuda. Quando tinha entrada de dinheiro, ele sempre mandava para Astrud e para mim, ele sempre esteve presente nas nossas vidas.

Por que você não conseguiu ir ao velório de seu pai?

Por questões burocráticas, também não tinha vontade de encontrar com algumas pessoas que estariam lá, mas falei com meu pai minutos antes de sua morte e diariamente até esse momento, e falamos coisas essenciais, de muito amor, isso pra mim é o que importa.

Surgiram notícias de que, no dia do velório, houve pedido de gestão do inventário por parte de Bebel e Maria do Céu. Como ficou essa situação?

Como disse, não posso falar abertamente por estar impedido, mas duas pessoas deram entrada para ser inventariantes ainda durante o velório do meu pai. Soube que, no pedido de inventário que foi dado entrada durante o velório, por maldade escreveram no pedido que eu nāo poderia ser inventariante porque não tinha uma boa relação com meu pai. Sempre disseram, na interdição de meu pai e agora no seu inventário que está em andamento, mentiras maldosas com o intuito de me excluir. Muito triste e doentio tudo isso. Já Maria assinou papéis com os advogados literalmente durante a cerimônia do velório, em pleno Theatro Municipal. Achei particularmente de mau gosto, mas o importante agora é cuidar da imagem do meu pai e de sua obra. 

Como está a questão do testamento? Maria do Céu foi excluída dele?

Meu advogado tenta notícias sobre tudo e não consegue, mas imagino que sim. Continuam dificultando as informações.

É possível dar detalhes sobre o que João Gilberto deixou de herança para vocês?

A herança artística é enorme e atemporal, as outras ainda serão avaliadas.

E em relação às dívidas que ele tinha, como elas ficaram?

Como disse, meu advogado tenta notícias sobre tudo e não consegue. Não conseguimos acesso a nada financeiro, nem do que sai nem do que entra. Um tempo atrás, o advogado pediu a prestação de contas da época da curatela e a atual, e até agora nada. Continuam dificultando as informações.

Como está o acervo pessoal que ele mantinha no apartamento?

Gostaria muito que um de seus violões ficasse com minha filha Sofia, que mostra interesse pelo instrumento, mas acho que um bom lugar para estarem é no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, assim como a pulseira que não saía de seu braço. Fiquei sabendo recentemente que seu Grammy, assim como outros pertences dele, foram colocados secretamente, sem permissão dele nem de seus filhos, em um guarda-móveis. Isso tem que ser resgatado urgentemente e preservado. Inclusive, o acervo pessoal de fotos do meu pai estão em seu apartamento, com fotos dele e minhas de família. Precisamos recuperar essas fotos e preservá-las.

Você acha que em algum momento você e suas meia-irmãs poderão se conciliar? 

Sempre desejei uma boa relação com todos, mas fui intencionalmente excluído. E nunca foi me apresentado um exame de DNA da Luisa (filha de Claudia Faissol). Fiquei sabendo recentemente que, por causa da hérnia que meu pai tinha, dificilmente ele poderia ter tido mais filhos, mesmo na época do nascimento da Luisa. A história que me foi contada foi que o pai anterior da Luisa, quando ela tinha cerca de 3 anos, pediu um DNA para ver se ela era mesmo filha dele e foi descoberto que não era. Por que meu pai também não pode ter sido enganado como foi com outros assuntos profissionais? Fica a dúvida, mas não é tarde para comprovarmos. Nosso advogado, que era o advogado particular de meu pai em seus últimos meses de vida e convivia com ele, diversas vezes lhe perguntou se tinha visto alguma vez um exame de DNA da Luisa, e meu pai sempre lhe dizia que não se lembrava de ter visto.

Por que você foi contra a interdição de seu pai no ano passado? 

Eu aceitava a interdição com a condição de que pudesse acompanhar as informações do que estava sendo feito, o que não foi aceito e Bebel deu entrada sozinha. Considero isso uma violação à lei brasileira. Eu nunca quis curatela exclusiva, apesar de ter sido acusado disso. Está fazendo 4 meses que meu pai faleceu e ainda estou sem acesso a nada, tentam esconder tudo de mim. Fui bloqueado de mandar mensagens para ela, que ironicamente me acusou na imprensa de não ter lhe mandado mensagens na época do falecimento de sua mãe, com a intenção de ferir minha imagem. Na interdição, fez-se questão de esconder tudo, todos os valores bancários, até hoje não tive conhecimento nem acesso a nada financeiro, nem sobre o patrimônio artístico dele, como gravações que podem ser lançadas. Na época do início da interdição, fomos a várias reuniões com a Bebel e advogados, em Nova York e no Rio, para resolvermos questões como o acordo com a EMI, que desejávamos fazer juntos, e outras questões da vida de meu pai. Eu achava que os valores que meu pai recebia mensalmente dariam para pagar suas despesas e com isso ele viveria sem problemas financeiros, mas como não sou uma pessoa litigiosa, e na época não tinha advogado, nunca tive como realmente saber. 

Quando você soube das dificuldades de saúde e financeiras de seu pai?

O condomínio do prédio entrou em contato comigo dizendo que meu pai estava para ser despejado a qualquer momento. Vi que meu pai estava frágil e por isso queria ter trazido ele para morar comigo. Construí uma suíte para meu pai em nossa casa nos EUA, onde ele teria privacidade e conforto, e poderia ficar em segurança. Casa que ele ajudou a comprar e construir.

É verdade que Bebel entrou judicialmente contra você? Por qual motivo? 

O absurdo é que com esses processos ela tenta tirar meu direito de falar sobre minha própria vida e contar minha própria história. Os processos contra mim têm o intuito de eu não poder falar livremente com a imprensa, um “gag order”, com isso não posso contextualizar as histórias da minha própria vida com meu pai e as histórias completas ficam comprometidas. Eu poderia ter feito o mesmo, ou seja, entrando com processos contra ela, para poder impedi-la de falar na imprensa também, mas não o fiz por não ser meu estilo.

Como está o processo movido contra a Universal, antiga do EMI, que não pagava royalties da venda de discos de seu pai desde 1964? 

Esse caso vai ter que ser revisto e estou juntando um time para ver a melhor forma de fazer isso. Meu pai sempre teve confiança em mim como consultor técnico de som dele. Adotei cedo tecnologias de áudio digital, sendo capaz de fazer o laudo técnico e a análise científica de áudio que provou definitivamente a remasterização e ganhou o processo contra a EMI. Gostaria de terminar bem essa negociação com a EMI e liberar esses trabalhos novamente para o público, com a qualidade que meu pai desejava.

No Facebook de sua filha Sofia, há fotos e vídeos dela com João Gilberto. Como era a relação dos dois? 

Minha mulher Adriana criou a página da Sofia no facebook por causa de alguns projetos de educação infantil que estamos desenvolvendo, ligados a cultura, música e ciências, como o Playground Playlist e o Philo e Sofia, e acabamos colocando fotos do cotidiano da Sofia na página, entre elas imagens com o avô, por quem ela tem uma grande paixão. Sofia criava as musiquinhas e cantava junto com meu pai, que aprendeu algumas delas e cantava com ela. Sofia canta o dia todo, tem muito interesse por música.

Você tem planos de projetos envolvendo o legado de seu pai?

Além dos projetos para crianças, tenho vontade de fazer um documentário autobiográfico sobre minha vida, contando parte do meu trabalho com meu pai. Com ele fiz várias turnês como consultor de som e diretor de palco, incluindo seus shows no Carnegie Hall em Nova York, shows na Itália, em Montreux na Suíça, na Califórnia. Participei na edição digital e produção de um disco dele, fiz o laudo de análise de áudio do processo contra a EMI que ele ganhou demonstrando que os discos originais dele foram remasterizados e essas remasterizações foram péssimas, prejudicando a qualidade das gravações originais e denegrindo sua obra. Gostaria sempre de divulgar o trabalho dele para as novas gerações.

Como foram os últimos dias de vida de seu pai?

Meu pai passou a vida sem querer ir a médicos. Uma pessoa deve ter a soberania do próprio corpo e ter permissão para recusar o tratamento, se for seu desejo. Era o seu modo em toda sua vida, era o seu desejo, era a sua vontade. Ele gastou um de seus últimos dias de vida tendo que fazer, contra a vontade dele e a minha, um exame de sanidade mental que o deixou muito triste. Pra quê? Por quê? Já tínhamos concordado que seria bom que ele fosse interditado, para assim afastar de sua vida todas as pessoas que lhe usurparam e lhe trazer de volta a merecida segurança financeira em sua velhice. Eu nunca disse que queria ter controle total sobre os assuntos do meu pai, mas gostaria de ter sido ouvido. Eu simplesmente queria participação e transparência durante os tratamentos do meu pai. Eu não recebi nenhuma consideração a respeito, a lei foi desrespeitada por eu ser o filho mais velho e todos foram contra a vontade de meu pai, que era que eu estivesse a frente. Nos seus últimos meses de vida, Sofia ia pra casa dele quase que diariamente o que lhe trouxe um pouco de alegria e amor. Fico feliz com isso.

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Advogados de Bebel Gilberto, Claudia Faissol e Maria do Céu comentam as afirmações de João Marcelo

Ação judicial contra a EMI e os os direitos autorais sobre a obra de João Gilberto fazem parte da herança deixada pelo músico e motivam as desavenças entre os herdeiros

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 06h00

RIO - Procurada pelo Estado para comentar as afirmações de João Marcelo Gilberto, a cantora Bebel Gilberto se manifestou por meio de sua advogada, Simone Kamenetz. “Quanto à entrevista de João Marcelo, Bebel não tem interesse algum em responder a qualquer referência que ele tenha feito a ela. Bebel está em turnê, retomando a vida pessoal e profissional, depois de deixar tudo suspenso pelos quase dois anos em que se dedicou a cuidar do pai. Entendo que seja sua obrigação profissional buscar ouvir o outro lado, quando há menção sobre essa outra parte, e aprecio seu contato. No entanto, não há necessidade de enviar perguntas, pois Bebel não vai desperdiçar tempo e energia em assuntos de pouca importância. O que importava para ela, que era tentar dar qualidade de vida ao pai em seus últimos anos, apesar dos óbices e dificuldades que enfrentou para isso, teve seu fim com a partida de João.”

Advogado de Claudia Faissol, mãe de Luisa, Leonardo Amarante respondeu sobre temas tratados com João Marcelo, como a herança deixada pelo músico. “Não deixou bens imóveis, mas apenas os direitos autorais sobre a sua obra, e a ação judicial contra a EMI. A partilha será feita no inventário já aberto em partes iguais - 1/3 para cada herdeiro.” Em relação às dívidas, ele afirma que “serão pagas segundo ‘as forças da herança’”. “Muitas delas já foram pagas e ainda há algumas sendo discutidas na Justiça.” Questionado sobre a afirmação de João Marcelo de que nunca foi apresentado a ele um exame de DNA da Luisa, Leonardo Amarante disse que não vai se posicionar sobre o que ele chamou de “tamanhas aberrações”. 

Representando Maria do Céu, o advogado Roberto Algranti Filho diz que ela e João Marcelo “sempre tiveram uma relação muito boa”. Algranti reforça o que Maria do Céu afirmou, em entrevista ao jornal O Globo, de que ela e João Gilberto nunca se separaram. “Eles nunca se separaram nos mais de trinta anos de relacionamento contínuo e notório. Este relacionamento ininterrupto encontra-se muito bem retratado em muitas dezenas de documentos que, no momento oportuno, serão levados ao Poder Judiciário”, diz. “A união estável entre eles é inequívoca e, como disse, está fartamente documentada.” Sobre a participação dela no testamento, ele diz: “Esta questão está sendo analisada pelo Poder Judiciário, e a nossa opinião é que a validade do testamento feito em favor de Maria do Céu será seguramente reconhecida judicialmente. Questão de tempo e de se vencer preconceitos”.

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