JOÃO PIRES/ESTADÃO
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Triste de quem nunca esteve à frente de Miele

O homem que instituiu o espetáculo na música brasileira leva consigo uma biblioteca inteira ao morrer, aos 77 anos de idade

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2015 | 20h41

Os vivos ficavam mais vivos e os mortos renasciam graciosos quando Miele falava sobre eles. Escutar suas histórias era perturbador. Como não estávamos lá? Por que não vivemos assim? Onde estão as pessoas do nosso tempo? Miele seguia embrulhando suas memórias em papel de presente ao falar de Wilson Simonal, Elis Regina, Roberto Carlos, Vinicius de Morais, Tom Jobim, Roberto Menescal, Nara Leão, Wanda Sá, Carlos Lyra, João Donato, Jô Soares e de sua outra metade, Ronaldo Bôscoli, como se fossem todos personagens de histórias que ele reconstruía como um romance de época. A morte de Miele é a queima de uma biblioteca inteira.

Antes de se tornar o contador de histórias, no entanto, Miele foi o primeiro produtor de shows no Brasil de um tempo em que nem a essência dessa figura existia. Ao lado de Ronaldo Bôscoli, com quem criou a assinatura Miele-Bôscoli como se fossem uma só criatura, começou a fazer pequenos shows em bares com capacidade para 30 pessoas no Beco das Garrafas. Suas tiradas eram tão boas que a piada entre os músicos dizia que Miele e Bôscoli poderiam fazer um show funcionar até dentro de um elevador. A iluminação poderia ser feita com latas de óleo cobertas por papel celofane colorido e o camarim improvisado na calçada, mas o espírito do espetáculo estava lá.

Miele veio sempre antes. Stand up comedy? Ele já fazia nos anos 60. Pocket show? Já fazia nos anos 60. Espetáculo roteirizado amarrando texto com luz e cenário? Fazia. Espetáculo roteirizado com música, texto e sapateado? Também fazia. Banquinho e violão? Foi ele quem inventou. Rap no Brasil? Gravou o primeiro. Produção musical independente? Fez. Musicais para TV? Fez os melhores. Elis Regina? Também fez.

O cabo que ligava as luzes na tomada tinha Bôscoli como o fio negativo, Elis o positivo e Miele o terra. Suas intervenções entre os insultos arremessados de Elis a Bôscoli e vice-versa tornaram possíveis shows históricos da cantora, como o do Teatro da Praia, de 1969.

Elis Regina pairou sobre nós por uma tarde inteira quando entrevistei Miele para a biografia 'Nada Será Como Antes'. Estávamos em sua casa, em São Conrado, e minha impressão foi de que aquele homem trancava no coração algo que transbordava a admiração por Elis. “Você amou Elis, Miele?”, atrevi, encorajado por um desfecho que parecia despontar. “Eu não poderia, ela era mulher de meu melhor amigo”, disse, falando de Bôscoli. Não era exatamente um não, e o que estava no ar ficou no ar para sempre. Seguimos falando de Elis até que ela mesma, renascida e graciosa, deu o vulto da graça, como os olhos vermelhos de Miele me indicaram. Ele então avisou que iria chorar e, chorando, falou: “Elis foi o único talento com o qual eu nunca me acostumei”.

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