Acervo Pessoal
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Inezita Barroso foi um bunker cultural, uma casamata de resistência

Artista tornou-se uma espécie de abrigo para todos os sobreviventes de expressões do Brasil rural e profundo de um outro tempo e ética

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

09 Março 2015 | 11h50

Inezita Barroso, a Dama Caipira, era uma espécie de abrigo, um refúgio de expressões culturais que eram depositárias privilegiadas da identidade do País. A ela recorriam formas em vias de desaparição, duplas e cantores e arquivos vivos que sobreviveram à blitzkrieg modernizadora de diversas décadas.

Ultimamente, em sua casa em São Paulo, com seus 22 passarinhos de gaiola (atestado de sua fidelidade para com o ideário caipira), ela ainda gravava participações no programa Viola Minha Viola (o mais longevo do País), como se sua existência representasse um bunker contra a pasteurização, o nivelamento cultural. Enciclopédia viva de uma época.

Opunha-se à presença de tecladistas em seu programa, além de alfinetar os conglomerados culturais. “É ridículo ver um personagem do campo falando com sotaque carioca”, ela disse, há 5 anos. Era confortador vê-la ali resistindo, procuradora de uma ética desaparecida, como uma Palmirinha da música caipira, uma doutora da roça.

Ainda assim, Inezita não era uma entusiasta da repetição passiva das formas tradicionais; seu rosto se iluminava quando se deparava com um artista que, ancorado nas formas arcaicas, transcendia seu invólucro e se projetava para a frente. Sua própria carreira como cantora se valeu dessa dialética transformadora: ela se destacou cantando Ronda, de Paulo Vanzolini, além de Noel Rosa e Ary Barroso. Sabia que o problema da afirmação nacional não era de fronteira, mas de autenticidade.

Nascida na Barra Funda, antigo bairro fabril de São Paulo, ela entretanto tinha alma de interior, tinha um destino de campo e mato. Também atriz e formada em biblioteconomia, cresceu artisticamente com a profissionalização do rádio e da TV no Brasil. E sonhava com o dia em que orquestras de moda de viola invadissem todas as cidades do País. Como cantora, experimentou o sucesso, mas sempre o preteriu à condição de divulgadora cultural, levando gerações a conhecerem as obras de Cascatinha e Inhana, As Irmãs Galvão, Pedro Bento e Zé da Estrada, Milionário e José Rico, Tonico e Tinoco, entre outros.

Mas não era onívora, certas coisas ela não engolia. “Essa música moderninha de hoje, que chamam de sertaneja, não tem valor. É sempre a mesma coisa, com a mulher que abandonou o marido. Com o agravante que só a tocam no mesmo ritmo, parece um realejo”, disse ao repórter Lucas Nobile.

Em sua biografia, escrita por Carlos Eduardo Oliveira e publicada no ano passado, Inezita contou como se decidiu pela vida artística após assistir a um show de Carmem Miranda e revela que teve de enfrentar a resistência dos pais conservadores. Vinha da classe média alta, e sua disposição de levar a vida com cabelos curtos, violão no braço e em rodas de viola com trabalhadores rurais chocou a família. Nas fazendas de familiares, colhia os ritmos (catira, cateretê, chamamé) e as canções que gravava e celebrizava (ou simplesmente introjetava na mente para uso futuro), como Moda de Pinga.

O curador Teixeira Coelho, em uma definição conceitual de cultura, afirmou o seguinte: “O melhor resumo da ideia de cultura, e que poucas políticas culturais se dispõem a aceitar, é aquela que apresenta a cultura como uma longa conversa. Uma longa conversa entre tudo o que é cultura, entre todos que movem a cultura. Uma longa e franca conversa. A melhor ideia de liberdade é essa ideia de conversa. Essa, na verdade, é a melhor ideia de liberdade”. Em sua conversa de uma vida, Inezita cumpriu essa ideia à perfeição.

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