Jim Ross/Invision/AP
Jim Ross/Invision/AP

Inestimável coleção de riffs de Johnny Marr

Guitarrista, ex-Smiths, fala ao 'Estado' sobre o show gratuito no Festival Cultura Inglesa; confira vídeos

Entrevista com

Johnny Marr

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2015 | 02h07

O guitarrista Johnny Marr fez história à frente dos Smiths, ao lado de Morrissey. Ele ditou a musicalidade de um tempo. Depois, integrou o The The, o Modest Mouse, The Cribs e Eletronic. Anteontem, a 19.ª edição do Cultura Inglesa Festival anunciou a volta de Johnny Marr para um show gratuito em São Paulo, no dia 21 de junho, no Memorial da América Latina, ao lado dos irlandeses do Strypes. Foi um frisson. No mesmo dia do anúncio, o músico falou ao Estado por telefone, de Londres.

Você veio para o Lollapalooza no ano passado com Andy Rourke (baixista dos Smiths) como convidado. E agora?

Eu só planejo fazer meu show, tocar muito alto e rápido. O plano é apenas fazer um bom show.

Você tem um álbum novo, Playland, com sintetizadores e efeitos e faixas com abordagem dance, como Easy Money. É uma mudança de direção em relação ao anterior, The Messenger, não?

Não acho que seja uma mudança de direção, é mais um desenvolvimento à frente, porque nós tocamos uma porrada de concertos e o som ficou mais próximo daquilo que nós tocamos ao vivo, mais forte. Eu tenho tido uma vida que defino como muito energética, excursiono muito ao redor do mundo. É uma atividade de muita energia. Então, esse disco, Playland, é um pouco reflexo disso, tem mais barulho na batida da bateria.

Ouvi que você também está escrevendo sua autobiografia.

Sim, vou terminar no final do ano que vem.

Você está escrevendo sozinho ou tem um ghost-writer?

Escrevo eu mesmo. Não quero ghost-writers ou jornalistas envolvidos. Gosto de escrever, sabe? Tenho publicado artigos em jornais na Grã-Bretanha. Não quero ser traduzido pela mente de outra pessoa, ou pelas palavras de outras pessoas. Comecei há 6 meses.

Perguntei porque dá um trabalhão escrever uma autobiografia.

É um trabalhão. Mas gosto de trabalhar. Eu quero descrever aquilo que vivi, não quero culpar ninguém depois. É minha responsabilidade, e eu tenho uma memória muito boa. Há tantos livros ruins sobre minha vida, acho que posso fazer melhor que aquilo.

Morrissey publicou a autobiografia dois anos atrás. O seu será uma resposta para aquele livro?

De jeito nenhum.

Li que você tem uma citação de Aldous Huxley que é como um lema para você: "Após o silêncio, aquilo que chega mais próximo de dizer o inexprimível é a música". Pode-se interpretar isso como um manifesto de que você encara a música como se ela fosse uma abstração?

É correto. A linguagem geralmente costuma ser muito esperta, mas às vezes as palavras em inglês, espanhol, francês ou alemão, elas têm muitos buracos, deixam espaços vazios na linguagem. Acho que a arte, em especial a música, pode exprimir sentimentos de um jeito que a linguagem formal não pode. Eu não falo português, e falo só um pouquinho de espanhol. Mas posso entender o que um músico que canta em português está dizendo para mim. E as pessoas no Brasil podem entender a emoção que busco transmitir na minha música muito antes de eu pronunciar uma palavra. É algo bonito. Como descrever a real emoção que causa um simples pôr do sol? Como dizer como você se sente a respeito de algo? A música é um grande meio para expressar os sentimentos. Posso expressar raiva, medo. E, ao mesmo tempo, ela permite que se faça apenas entretenimento, que se tire um som legal. Toda a história da humanidade é descrita pela música, sejam os textos religiosos, as revoluções, o nascimento de uma criança. E você não tem necessariamente que usar palavras para isso. Muito de minha formação musical veio dos discos que eu ouvi nos anos 1970, e era algo que vinha de fora desse mundo. Podia ser desde uma estúpida nota de guitarra até um vocal de apoio de alguém. Eu me conectei com aquilo. E você nunca pode fingir uma experiência, ela se incorpora ao que você é. Tive muita sorte de ter um talento para me expressar pela música. Eu sou aquilo que ouvi: um lado B de um disco qualquer, ouvido no escuro da noite, sozinho no quarto ou com amigos. E eu me sinto afortunado pela jornada que me trouxe até aqui.

Algum tempo atrás, você foi convidado para escolher algumas bandas novas para gravar num projeto, e você escolheu, entre elas, a banda Au Revoir Simone, do Brooklyn. Gostaria de saber o que você viu de especial naquelas garotas?

Eu acho que elas são extremamente simples em sua abordagem. Muito puras. Sabe, nesses dias modernos, todo mundo se sente muito esperto. Sabem tudo de Jim Morrison, tudo sobre Smiths. Elas não estão buscando esperteza, sua música é quase infantil, refrescante. Isso foi o que ouvi.

Você tocou aqui em São Paulo a canção I Fought the Law, do Clash. Acha que ainda há espaço para um rock no mundo como aquele que o Clash fazia, esquerdista, engajado?

Eu geralmente não gosto de definir o que é um artista político, porque no final toda a música é uma alternativa à política. Spandau Ballett é político. Cramps é político. Se você ouve Smiths ou New Order ou Echo and the Bunnymen ou The Cure, mesmo os discos que não contêm manifestos políticos, você compreende que eles formam uma cultura alternativa que se contrapõe ao poder de Margareth Thatcher e, eventualmente, à política de direita. É claro que, hoje em dia, se pode perceber que as pessoas estão se deixando distrair pelo comercialismo, pelo entretenimento, pela Apple, pelo Google, e há uma necessidade de se gritar contra aquilo que está de fato controlando o mundo. É muito fácil também para os jovens serem envolvidos nas manipulações malandras da mídia e das corporações. Há 50 anos, durante as marchas pelos Direitos Civis, milhares de pessoas tomaram Washington Square e Grosvenor Square. Aquilo demorou para alcançar o mundo todo. Hoje, tudo é coberto instantaneamente. Há uma nova esperança. Mas é preciso escapar da manipulação da mídia.

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