Indústria da música fechou 2001 em baixa

Ao contrário dos recordes quebrados na indústria cinematográfica, o ano de 2001 não proporcionou ao mercado da música americana motivos para celebrações. Pela primeira vez em uma década, esse setor do showbiz enfrentou uma queda em seus negócios. Segundo os números finais divulgados pela SoundScan na semana passada, as lojas dos EUA tiveram um descréscimo de 2,8%, número que pode parecer pequeno à primeira vista, mas representa que 23 milhões de CDs deixaram de ser vendidos, se comparado com a performance de 2000. Na Europa, a queda foi de 5% (dados oficiais do primeiro semestre) e, na América Latina, o desfalque foi desesperador: um tombo de 20% nas vendas, agravado sobretudo pelo aumento da pirataria no setor.Segundo Geoff Mayfield, diretor das tabelas e gráficos de CDs mais vendidos da revista Billboard, a performance da música em 2000 "foi um ato difícil de bater". "Tivemos seis semanas em que um álbum vendeu mais de 1 milhão de exemplares, contra apenas três semanas espalhadas nos outros oito anos da década passada."Os números finais da SoundScan, empresa que afere eletronicamente o desempenho da indústria fonográfica americana, mostram que, em 2001, foram vendidos 762,7 milhões de CDs, ante 785,1 milhões no ano anterior. Em 2000, os três álbuns mais vendidos foram: No Strings Attached, da banda N?Sync (9,9 milhões de exemplares); The Marshall Mathers LP, do rapper Eminem; e Oops... I Did It again, da popstar Britney Spears (ambos empatados com 7,9 milhões de discos). No ano passado, nenhum artista sonhou em chegar perto desses números.Best seller - A contabilidade de 2001 encerrou com Hybrid Theory, estréia da banda de rock Linkin Park, liderando as vendas com 4,8 milhões de CDs, seguido de Hotshot, do cantor americano nascido na Jamaica Shaggy e que mistura R&B com reggae (4,5 milhões); Celebrity, o novo do N?Sync; e Day without Rain, da cantora de new age Enya, empatando com 4,4 milhões de CDs vendidos. Apesar de possuir o álbum best seller do ano, os integrantes do Linkin Park não ultrapassaram o 7.º lugar da lista de mais vendidos da Billboard em 2001, tornando-se um raro caso de venda contínua durante o ano.Das cinco majors da música, somente a gravadora Universal conseguiu manter suas vendas em 2001, abocanhando 27% do mercado. Multinacionais como a EMI, BMG, Warner e Sony viram seus lucros diminuírem. Superproduções como Invincible, o aguardado novo álbum de Michael Jackson, que custou US$ 30 milhões, e Glitter, de Mariah Carey (US$ 10 milhões) foram grandes fiascos de vendas nos EUA. 2001 também viu apenas o nascimento de uma estrela com porte de aquecer o mercado, a jovem Alicia Keys, que lançou o álbum Songs in A Minor, produzido por Clive Davis, o executivo destituído do posto de mago da Arista depois de ser encostado por meses pela alta cúpula da companhia, e agora dono de sua própria gravadora, a JRecords.Além da falta de títulos capazes de conquistar o grande público, a má performance do mercado da música em 2001 é atribuído a vários fatores. O maior deles, é claro, vem do enfraquecimento da economia americana, agravado depois dos ataques terroristas de 11 de setembro. Os sites onde se pode fazer download de músicas de graça também foram culpados, mas outro duro golpe na indústria veio do aumento do consumo e da diversidad e de títulos de videogames, o que teria inibido a população jovem americana na compra de novos CDs. Também o espetacular ano do comércio de DVDs ajudou na recessão da música. Parece ser mais consensual para um pai investir US$ 19 no DVD de Shrek, Branca de Neve e Sete Anões ou de Legalmente Loira, que significa diversão para toda a família, do que US$ 14 no novo CD de Jennifer Lopez ou do rapper Jay-Z apenas para seus filhos.As vendas em 2001 também serviram para ilustrar uma nova tendência do mercado: a música pop fabricada por ídolos teenagers como N?Sync, Backstreet Boys e Britney Spears, entre outros, está cedendo lugar para a volta do rock. "A onda pop já não está mais quente", explicou Mayfield, da Billboard. "Nós estamos mudando para o rock, mas essa troca ainda não está a pleno vapor." Outro gênero que já dá sinais de enfraquecimento é o rap, que vendeu 15% a menos no ano passado.Entre os dez CDs mais vendidos em 2001, três deles são de bandas de rock: Linkin Park, Staind e Creed. As estrelinhas do pop perderam espaço até para dois lançamentos com zero por cento de apelo para o público infantil: o novo CD de Enya e a trilha sonora do filme dos irmãos Coen, E aí, Meu Irmão, Cadê Você?, uma coletânea de canções country, folk e blues de artistas marginalizados pela indústria.O megassucesso de Enya ajudou a levantar a bola do gênero new age, que teve um aumento de 83,2% nas vendas de CDs em 2001. Outros gêneros reavivados foram as trilhas sonoras (aumento de 16,7%), jazz e gospel. O gênero líder do mercado ainda continua a ser o Rythym & Blues, com 195,5 milhões de discos vendidos.As gravadoras esperam que o mercado volte a se aquecer em 2002. Os lançamentos mais aguardados do primeiro semestre incluem novos álbuns de Bruce Springsteen e dos Guns?N?Roses, que estavam prometidos desde o ano passado, mas sofreram várias mudanças de deadline. Hit garantido deve ser a caixa comemorativa dos 40 anos dos Rolling Stones. David Bowie solta um novo álbum de inéditas, o primeiro com o selo de sua gravadora, a ISO. Há também os novos da banda Coldplay e do cantor Ryan Adams, sensações de 2001, o debut-solo de Lisa "Left Eyes" Lopes, do TLC, e a volta do Nine Inch Nails em dois lançamentos: um CD de inéditas e uma coletânea tirada da turnê The Fragile.

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