Reprodução/TV Estadão
Reprodução/TV Estadão

Improvisação ensinada aos comuns

Não precisa ser gênio para improvisar, mas treinar bastante o ouvido e ter vontade de tocar

Carolina Spillari, do Estadão.com.br,

18 de novembro de 2010 | 10h00

Foi em um espaço subterrâneo do piso -1 do Centro Cultural São Paulo que o escocês Raymond MacDonald, fundador da Glasgow Improvisers Orchestra, deu uma oficina de livre improviso no domingo (14), a convite do Coletivo paulista Abaetetuba dentro do Festival Internacional do Improviso. Em duas noites e shows, sete músicos com diferentes instrumentos dividiram o mesmo palco usando o improviso musical. Durante o dia, quatro deles, os convidados estrangeiros, ensinaram a um grupo de até 30 pessoas - com ou sem instrumento - a arte do improviso musical. O Festival continua em dezembro.

 

MacDonald, com muita simplicidade, convidou o grupo, primeiro a relaxar antes de tocar. Metade dos oficineiros tinha instrumento e a outra metade não. Mesmo assim, todos participaram da improvisação livre. O primeiro passo foi conversar. Ideias foram trocadas. Com um intérprete ao lado, o facilitador era mediado por um tradutor. Em seguida todo o grupo começou a circular pela sala, em diferentes direções, com braços abertos, fechados, descontraindo o corpo. A partir daí uma sinergia começou.

 

Em outro momento, sentados, cada um foi convidado a produzir um som. Voz, instrumentos e outros barulhos começaram a se cruzar. Aí surgiu a improvisação. A experiência dispensa programação, valorizando-se o espontâneo. Mas até para trazer a criatividade à tona existe uma regra. Cada um precisava se comunicar com o outro através daquele som.

 

 

 

A improvisação não é uma exclusividade do jazz, mesmo que o gênero tenha consagrado o improviso. Para Raymond Macdonald, é possível improvisar em vários contextos. "É uma experiência muito excitante poder trabalhar com músicos oriundos de diversas formações, vindos do jazz, da música clássica e popular, todos tocando juntos", disse. Para ele, o improviso hoje em dia está presente em todos os aspectos musicais. "Improvisar decorre de um longo processo de escutar e entender música", mostrou.

 

Em uma composição improvisada, a criação acontece no presente. "Não é necessário um fundo para a improvisação. Músicos que nunca tocaram juntos, podem se comunicar improvisando", explica o escocês. Ele descreveu uma técnica muito simples: o uso de notas longas. "Músicos que nunca tocaram juntos antes podem experimentar tocar juntos longas notas, sem a necessidade de um fundo de jazz", argumentou. Segundo McDonald, não é preciso ser expert em música. "Estamos todos improvisando o tempo todo como improvisadores e não como músicos de jazz", completou.

 

Não linear. Improvisar não é algo convencional, que se enquadra no pop, no clássico. "Embora haja aproximação com o clássico, na minha visão", argumentou o curador do Festival, Juliano Gentile. A improvisação demanda um tipo de postura diferente tanto para quem está tocando para quem está escutando", comentou. "É preciso estar disposto a ouvir ou a fazer algo que não lhe é familiar. Não há ritmo, melodia, nem linearidade", acrescentou.

 

Os participantes do Festival são músicos que dominam o instrumento, mas a música é sempre feita na hora. "A palavra que melhor resume a improvisação livre é o diálogo", disse. Há uma variação de ideias acontecendo. "A música acontece e termina ali. É espontânea", sintetizou o curador.

 

O Festival, que começou em junho, vai até dezembro. "A gente convidou o Abaetetuba para fazer esse projeto dentro do Festival de Improviso porque é um grupo pioneiro no Brasil", contou Juliano Gentile. Dois integrantes do grupo, Iedo Gibson e Panda Gianfratti, já trabalham com improvisação há pelo menos dez anos. "A ideia era trazer o Abaetetuba justamente para agregar outras pessoas que estão interessadas em improvisação livre. Por isso a gente os chamou", esclareceu o curador. No último final de semana, eles foram representados por Panda, Thomas Rohrer e Michelle Agnes. "Eles fizeram a curadoria este mês e convidaram quatro músicos europeus", acrescentou Juliano Gentile.

 

Nos dias 10 e 11 de dezembro o Festival encerrará sua programação com Ken Vandermark, Luc Ex, Mark Sandars, Han Bennink e Phil Minton. O holandês Luk Ex vai trazer as influências do rock, pois foi baixista da banda The Ex. "A improvisação livre agrega todos esses diferentes tipos de música. Não é um gênero específico e sim um modo de fazer música", conclui o curador do Festival. Em dezembro, não haverá oficinas, somente os shows. Mais informações.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.