‘Impressionismo de Câmara’ reúne sete  músicos da Orquestra Sinfônica do Municipal

Concerto apresenta timbres refinados e surpresas a cada compasso

João Marcos Coelho, ESPECIAL PARA O ESTADO

18 Julho 2015 | 05h00

Claude Debussy libertou a música da camisa de força das formas tradicionais clássicas. Renunciou aos preceitos acadêmicos. Por exemplo, saboreia e degusta cada acorde por causa de sua beleza intrínseca, e não por sua consonância ou dissonância na frase musical. “É idiota pedir carteira de identidade e estado civil a um acorde. Não existem regras teóricas. Devemos escutar, simplesmente. Não existe outra regra a não ser o prazer.” Natural que colassem na sua música o adjetivo impressionista, importado da pintura francesa dos anos 1870-1890, definição que aceitou sem discutir. 

Esta nova forma de pensar e criar música nasceu em 1892-4, quando Debussy compôs Prélude à l’Après-midi d’un Faune, obra que dominou a imaginação e influenciou o mundo musical francês. Pois foi com ela que o septeto formado por ótimos músicos da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal de São Paulo abriu na quinta, 16, o concerto Impressionismo de Câmara na bela e acolhedora Sala do Conservatório Dramático Musical, hoje joia da Praça das Artes. O ótimo arranjo é de Fabrice Pierre, professor da harpista Paola Baron (ex-Osesp, hoje na OSTM). A seu lado, dois dos irmãos Brucoli – Fábio ao violino, Mauro ao violoncelo –, Silvio Catto à viola, Tiago Naguel ao clarinete e Marcelo Barboza à flauta.

No prelúdio de Debussy, os lugares de honra, aparentemente, ficam com a flauta e o clarinete, mas o encanto final é provocado pelos entrelaçamentos de timbres refinados, surpreendendo a quase cada compasso.

A peça foi coreografada e dançada em 1912 por Nijinsky, dos Balés Russos. E estimulou uma avalanche de obras “impressionistas” nas décadas seguintes. Como as duas interessantes peças seguintes do concerto. A Serenata para Flauta, Trio de Cordas e Harpa, de Albert Roussel (1925), soa levíssima, mas sempre apoiada num pulso dançante que quase “pede” a participação de bailarinos. Deliciosa.

Já a Suite en Rocaille, de Florent Schmitt (1935), foi talvez a peça mais convencional no trato com uma formação instrumental tão luxuriante como flauta e harpa apoiadas pelo trio de cordas.

Na obra que fechou a noite, Paola comandou um miniconcerto para harpa, cordas, flauta e clarinete. Introdução e Allegro, de 1905, é dessas criações mágicas de Maurice Ravel, o outro gênio contemporâneo de Debussy. Se este último dizia que preferia ver o nascer do dia a ouvir a Pastoral de Beethoven, Ravel afirmava que havia mais substância no Prelúdio do Fauno do que na Nona de Beethoven. Em entrevista de 1922, ele define o impressionismo em música assim: “Os compositores franceses atuais trabalham com telas pequenas, mas cada pincelada é vital”.

Paola contou que a harpa cromática é recente, do fim do século 19. E Erard, o fabricante, intimou compositores a criar para ela. Ravel entregou-lhe esta incrível Introdução e Allegro, em que Paola brilhou em passagens tecnicamente dificílimas e em duas cadências.

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