Ana Luísa Marinho
Ana Luísa Marinho

'Ilusão à Toa', álbum de Mauro Senise, revisita clássicos de Johnny Alf

Cheio de liberdades criativas, compositor foi fundamental para a evolução da MPB

João Marcos Coelho, Especial para o Estado

12 de novembro de 2020 | 05h00

Nós nos acostumamos a conviver e repetir com uma narrativa equivocada em relação ao pianista, compositor e cantor Johnny Alf, morto aos 80 anos em 2010. A de que ele foi um injustiçado porque era preto, pobre e gay. Teve a ousadia de prefigurar, com todos os seus contornos, a bossa nova branca da zona sul carioca dos anos 1950. E pagou um preço alto por isso: a marginalidade, o recalque. Uma lida no saboroso livro de João Carlos Rodrigues (Johnny Alf, Coleção Aplauso, Imprensa Oficial, 2012) repõe as coisas no seu devido lugar, pois reproduz as raras entrevistas de Alf e depoimentos privados. 

A conclusão é tão contundente quanto a matéria do The New York Times de 6 de agosto passado, republicada aqui no Caderno 2. Só que na direção inversa. No texto de divulgação do novo álbum do saxofonista e flautista Mauro Senise ora lançado (Ilusão à Toa, Biscoito Fino), Roberto Muggiati escreve que a narrativa do injustiçado “simplesmente não aconteceu”. Zuza Homem de Mello, em outro texto preciso e precioso de 2006, já colocava a questão em seus reais termos: “Johnny Alf foi o maior ídolo dos citados jovens da bossa nova quando tocava piano nos anos 54-55 no bar do Plaza no Rio de Janeiro, que eles frequentavam como quem vai ouvir o pároco pregar. Basta comparar Rapaz de Bem (êmulo harmônico de Desafinado), Nós e o Mar e Ilusão à Toa com hits da época como Café Soçaite. A dose do novo nas músicas de Johnny é cavalar. Atingiu em cheio as mentes musicais abertas à modernidade”.

Johnny Alf, portanto, foi mais do que parteiro da bossa nova, foi seu sumo sacerdote que pregava modernidades para João Gilberto, Tom Jobim e a moçada branca que cristalizaria essa dose cavalar de novo em 1958, com o start genial de Desafinado.

Sua formação musical clássica abriu-lhe caminhos inéditos. Desde os 21 anos cantava, como gostava de dizer, “jazzisticamente”, e ao piano emulava modernidades da música de invenção do século 20. Não por acaso, Alf justificava como Claude Debussy as liberdades harmônicas que assumia: “O que se há de fazer? Explicar que uma harmonização não tem pátria? Que um dó de nona pode ser usado por mim, pelo Villa-Lobos, pelo Debussy, pelo Luiz Gonzaga ou pelo Thelonious Monk sem que isso interfira na nacionalidade da obra de cada um?”. Debussy: “É idiota pedir carteira de identidade e estado civil a um acorde”.

E foi assim, cheio de liberdades, que Johnny Alf se impôs como fundamental para a evolução da música popular brasileira. Não fez grande sucesso? Não vendeu milhões de discos? Nenhum ressentimento. Fazia questão de dizer que sempre fez o que bem entendeu: “Sou eu que pago as minhas contas e o aluguel no fim do mês”.

Por tudo isso, o álbum de Mauro Senise é um oásis, um bálsamo de música de alta qualidade, no mesmo diapasão das infelizmente poucas gravações do homenageado. Senise está com 70 anos. Revisita os clássicos de Alf com impressionante maturidade. Solos muito bem construídos – à flauta e aos saxofones – e escolha criteriosa de parceiros. Senise toca basicamente com três formações diferentes. 

Seu Chopin, desculpe foi composta numa brincadeira em que um grupo de músicos escutava um álbum do trompetista Red Rodney interpretando jazzisticamente clássicos. Alf topou o desafio de criar uma canção a partir da Valsa do Minuto, a opus 64, n.º 1, de Chopin. Aqui reina poderosa a flauta de Senise ao lado de Adriano Souza (piano), Bruno Aguiar (contrabaixo) e Ricardo Costa (bateria). 

Em O que é amar, gema maior de Alf, faz diferença o excelente piano de Cristóvão Bastos substituindo Adriano (este, por sinal, ótimo em Rapaz de Bem, outro clássico). O solo de Senise ao sax alto em O que é amar é modelo de sensibilidade, técnica e maturidade. Uma lição de música, que esse mestre desfila nas treze faixas. O piano de Jota Moraes brilha de modo intenso em Ilusão à Toa. E, fechando a constelação de grandes pianistas coadjuvando luxuosamente Senise, está Gilson Peranzzetta, soberano ao lado do violoncelo emocionante de David Chew acolchoando os voos líricos da flauta em sol do líder.

Três pepitas finais: a voz expressiva de João Senise na única faixa cantada, Eu e a Brisa, que também conta com o gigante do contrabaixo Zeca Assumpção; Podem Falar, onde o pandeiro é o elo que faz a transição entre o cadente universo do samba-canção e a bossa nova; e Melodia Sentimental, de Villa-Lobos, registro de Johnny Alf cantando e se acompanhando ao piano, com Senise “comentando” na sua querida flauta em sol.

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