Diego Moura|Estadão
Diego Moura|Estadão

Ilha de Marajó, no Pará, vai receber festival de ópera anual

Apresentações têm como palco natural os igarapés e os manguezais da região paraense

Diego Moura, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2015 | 18h50

Dez minutos de caminhada por uma trilha sob a luz de lanternas e chegamos ao porto onde foi o embarque. As canoas já estavam à nossa espera para levar o público ao concerto daquela noite, em pleno rio, na cidade de Soure, na Ilha de Marajó, no Pará. O Banquete Ópera Festival levou três dias de apresentações clássicas para dentro da Floresta Amazônica na última semana e promete repetir a dose todos os anos. Tudo tão etéreo quanto um romance de Gabriel García Marquez - parecia que, a qualquer momento, um Buendía saltaria sobre uma das embarcações. Não saltou.

O silêncio nos barcos se integrava aos múltiplos sons da floresta que parecia assistir curiosa à passagem do comboio fluvial. Eis que surge, à direita, outra canoa. Na proa, a soprano Gabriela Geluda, num vestido branco esvoaçante, acompanhada por um violoncelo e pelo tenor Juremir Vieira, entoava a Melodia Sentimental, do compositor Heitor Villa-Lobos. Em 2016, a obra do brasileiro ganhará ainda mais destaque: a ópera completa estará no palco dos igarapés.

O músico foi a principal inspiração da atriz e diretora teatral, Katia Brito, e do estudioso de música Caio Cezar, idealizadores do evento. "Quisemos levar de volta Villa-Lobos à floresta criada por ele", explicou Cezar, na sede da Fazenda São Jerônimo. "As apresentações têm muito de experimentação da própria floresta. Na parte internacional, o desafio do próximo ano será transformar uma monumental floresta de manguezais no espaço onde se passa a versão de Fausto, de Charles Gounod."

Banquete. Na primeira edição do evento, além de peças menores, foram apresentadas as óperas Carmen, de Georges Bizet, e uma adaptação de La Serva Padrona, de Giovanni Pergolesi, com direito a diálogos em português e referências à Ilha de Marajó e ao estilo de vida marajoara. O mesmo palco, nos moldes do Teatro Elizabethano, ganhará uma versão amazônica de A Flauta Mágica, de Mozart, no próximo ano.

A apresentação de O Guarani, do maestro brasileiro Carlos Gomes, foi cancelada, porque no dia de "La Serva" choveu. Este, aliás, é um ponto fraco do evento: não ter um 'plano B' para se antecipar à chuva.

O banquete fez jus ao nome: maniçoba (folha de mandioca cozida por sete dias com carne de porco), pato no tucupi, frito do vaqueiro (carne de búfalo preparada à moda dos vaqueiros), doce de leite e queijo de búfala, preparado por chefs como Mara Sales, do Tordesilhas, o espalhol Andoni Aduriz, do Mugaritz, e dona Jerônima Brito, proprietária da fazenda.

Reinvenção. Para Katia, se trata de reinventar um estilo musical clássico e adaptá-lo. "Esse evento foi um 'piloto' nascido de nossas experiências. No fundo, a pergunta é: 'como manter um público diante de novos cenários?'", explicou. E a apresentação cativa o público com os "toques regionais", como os coletores de açaí escalando árvores de 20 metros de altura durante a apresentação de Carmen, ou as catadoras de caranguejo e seus filhos, encantados com as confusões de La Serva Padrona.

"É muito difícil você comparar uma apresentação assim com um teatro. O teatro tem suas qualidades, e aqui também, são características muito diferentes", disse a soprano Edna D'Oliveira, enquanto caminhávamos pela estrada de volta à fazenda. O público aqui é muito atencioso", complementou a mezzo-soprano Ednéia de Oliveira.

A apresentação de Carmen ocorreu em estruturas de madeira suspensas montadas sobre o manguezal. O som ecoava tão perfeitamente que parecia haver microfones - a acústica ficou a cargo das enormes raízes, um grande palco natural. Até um grupo de guarás, pássaro vermelho e comum na região, revoou durante um dos solos. "Você vê como a floresta responde a gente?", me disse emocionado seu Raimundo Brito, dono da fazenda que deu espaço ao festival.

Em Marajó logo se aprende que tudo depende das marés, inclusive a montagem da peça, os ensaios e toda a logística. Num dos testes, que terminou depois da meia-noite, os músicos retornavam para o alojamento quando o remo da canoa onde estavam bateu em algo e demorou para voltar. "Batemos num jacaré", contou com certa naturalidade o tenor Juremir Vieira. Para realizar um evento assim só com as bençãos da natureza mesmo. E quem conhece os detalhes? Os marajoaras, responsáveis pela "consultoria" nos caminhos do mangue e das marés e na confecção dos figurinos. "Sem o pessoal local não daria para fazer nada", sorriu Katia.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.