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Ícone na música francesa, Charles Aznavour lança novo trabalho, 'Encores'

Aos 90 anos, cantor inicia turnê internacional com esse trabalho que traz memórias da infância; confira 

EFE

04 de maio de 2015 | 11h46


Charles Aznavour, “a voz” da canção francesa e uma das figuras mais importantes da história musical do planeta, é um garoto de quase 91 anos, que completará em 22 de maio, que agora desfruta de sua autêntica juventude. “Eu fui velho sendo muito jovem, quando tinha de me preocupar com a sobrevivência”, afirma o cantor de origem armênia.

Ainda na ativa, o cantor francês de origem armânia lança nesta segunda-feira, 4, seu novo disco, Encores, e daqui alguns dias inicia turnê internacional pela Espanha, em Madri.

Em entrevista, comentou que há 30 anos não pisava na capital espanhola simplesmente porque “não ocorreu a nenhum produtor que fosse uma boa ideia” trazê-lo. Numa conversa com Efe, ele fala de seu passado, de seu presente, e, sobretudo, do futuro.

O senhor revela um amor profundo por sua profissão. Como consegue? A maioria dos casamentos não é tão sólida.

Sou filho de imigrantes. Primeiro tive de lutar para ser aceito como imigrante nascido em Paris. Adquiri nacionalidade francesa com cerca de três anos. Depois quis ser um francês autêntico e consegui. Depois disso, decidi que eu seria o que quisesse, neste caso, artista. Larguei o colégio aos 10 anos e aprendi tudo por contra própria.

Com um repertório tão extenso como o seu, por que continua lançando álbuns? Ainda não está satisfeito com sua obra

Eu não seria feliz se em cada volta minha eu fizesse a mesma coisa. O pior que pode haver é a pessoa provar que não consegue se superar.

O senhor lança um novo álbum no qual colaborou com um jovem artista francês, Benjamin Clementine. Como surgiu a parceria?

Foi iniciativa dele. Ele me disse que era um grande admirador meu. Em minha carreira, gravei com muitos artistas (entre eles, Frank Sinatra, Liza Minnelli, Plácido Domingos), mas no palco eu adoro estar só, este é o meu território.

O que mais pode falar sobre este seu mais recente trabalho?

É um dos melhores discos que já fiz. Nunca havia escrito uma linha sobre nostalgia até agora. Mas evito referir-me a ele com esse termo. Utilizo outros, assim como evito a mesma história de sempre. Tento ir onde outros ainda não estiveram.

Aliás, o senhor se orgulha de ter composto a primeira canção sobre homossexualidade 30 anos antes de qualquer outro artista. O que pensa, quando atua num país como a Rússia, onde há tantas pressões contra este coletivo?

Eu as ignoro. Também cantei Ave Maria em todo lugar onde fui. A primeira vez que estive num país islâmico me preveniram: “Nem pense em cantá-la”. Eu disse que sim e soou maravilhosamente. Depois fui a Israel e tornaram a me prevenir, mas eu tornei a cantá-la.

Aparentemente o senhor nunca temeu represálias, mas será que sua idade o terá libertado de todos os medos?

Continuo temendo a estupidez das pessoas. Mas, neste negócio, no concreto, não sinto medo de nada.

Como cuida de sua voz?

A voz não especialmente, mas tenho uma bronquite crônica. Por isso, às vezes, fica difícil cantar, de modo que sim, eu me cuido muito.

Na sociedade ocidental é comum que à medida que uma pessoa envelhece ela se afaste dos círculos de influência. Em seu caso, porém, sucede exatamente o contrário. O senhor se sente um privilegiado?

Sim, mas é que eu faço o que outros não fazem, por exemplo, procuro entender os jovens. Entre meu público há muita gente jovem, de fato.

O senhor se sente velho?

Já fui velho sendo muito jovem, Com 18 anos tinha de me preocupar com a sobrevivência e em alcançar êxito. Hoje já não tenho esses problemas, e assim me sinto mais jovem.

Raphael, com quem o senhor já gravou, diz que não se sente um ícone porque é um tipo de pessoa que já não está “envolvido nas coisas”. O senhor tampouco se considera um ícone?

Não. O que eu sou é um artesão. Sou alguém que escreve com pluma. A lenda fica para depois da morte.

O senhor é o autor de La boheme, She, For me, formidable, Sur ma vie... É verdade que compôs mais de mil canções? Como faz para não plagiar a si mesmo?

Há temas suficientes no mundo para dar ideias para uma canção e só há um louco que os conhece, eu.

E como consegue ser simples, sem cair no simplório?

Mantenho os pés no chão. Isso é o mais importante. E não se deixar levar por cantos de sereia que não são relevantes. Não se deve olhar para trás, sempre para frente. Não se sabe o que pode vir desse lado.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

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