Aijaz Rahi/AP
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Ícone da música clássica indiana, Ravi Shankar morre aos 92 anos

Shankar tornou-se o ‘embaixador da cítara’ pelo mundo, a partir dos anos 60. Seu virtuosismo incorporou a complexa escola melódica e ritma do erudito indiano à tradição ocidental

Roberto Nascimento , O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2012 | 17h17

Ravi Shankar, o mestre da cítara responsável pela popularização da música clássica indiana no Ocidente, morreu nesta terça-feira, 11, aos 92 anos, em um hospital, em San Diego, Califórnia. De acordo com familiares, o músico sofria de problemas respiratórios e havia feito cirurgia para substituir uma válvula cardíaca. “Infelizmente, apesar do esforço de cirurgiões e médicos, seu corpo não aguentou. Estávamos ao seu lado quando morreu”, disseram, à Reuters, sua mulher, Sukanya e sua filha, Anoushka.

O músico morava na Índia e nos EUA, e além de Anoushka, com quem tocava, era pai da cantora Norah Jones, que faria turnê pelo País esta semana, mas cancelou shows em Porto Alegre, São Paulo e Rio. Nesta quarta-feira, 12, em nota à imprensa, a cantora pediu desculpas aos fãs.

Por intermédio de colaborações com roqueiros, eruditos e músicos de jazz, Shankar tornou-se o ‘embaixador da cítara’ pelo mundo, a partir dos anos 60. Seu virtuosismo incorporou a complexa escola melódica e ritma do erudito indiano à tradição ocidental. Suas turnês propagaram os meditativos improvisos do gênero entre o movimento hippie sessentista. Era chamado de “padrinho da world music”, por George Harrison, seu famoso pupilo, cujo interesse pela cítara, em 1965, ajudou a abrir as portas do Ocidente a Shankar. Suas colaborações com o violinista Yehudi Menuhin, com quem gravou três discos, foram igualmente importantes, ao fazerem uma ponte entre a tradições eruditas. Sua amizade com Harrison foi responsável pela sa escalação para o festival de Monterrey, em 1967, época em que já era conhecido entre um movimento que abraçou as filosofias de seu país. Tocou também em Woodstock, em 1969, e no concerto para Bangladesh, de 1972.

Seu instrumento, a cítara, é feito de uma pequena câmara de ressonância, acoplada a um braço, como um alaúde. As melodias microtonais do sistema indiano, que possui um número maior de intervalos do que o sistema ocidental, são tocadas por 6 cordas, e amparadas por outras 25, que ressoam livremente pelo corpo do instrumento. Os improvisos são feitos sobre ragas, a forma cíclica de melodias e ritmos sobre a qual é sustentado o repertório indiano.

Shankar era adepto da mistura, e suas polinizações entre estilos preconizaram a explosão da world music, nos anos 80. Nos anos 60, o músico colaborou com John Coltrane, com quem encontrou diversas vezes para lhe ensinar os princípios ritmos e melódicos das ragas. Coltrane batizou seu filho de Ravi.

Nascido em 7 de abril de 1920, em Varanasi, a cidade mais religiosa da Índia, Robindra Shankar Chowdhury, ainda jovem, viajou a Paris para apresentar-se na trupe de dança clássica indiana liderada por seu irmão. O grupo viajou pelo mundo, mas aos 20 anos, Ravi abandonou o show business para concentrar-se na cítara e em outros instrumentos da música erudita indiana. A ideia de conseguir que o mundo ocidental apreciasse os detalhes da música indiana veio a Ravi quando ainda era dançarino. Ouvia reclamações de que a música indiana era entediante sem a dança e resolveu aprofundar-se na cítara. Mas um mestre do instrumento logo apontou que havia muito chão para Shankar virar um grande citarista.

Assim, em 1937, Shankar desistiu da carreira de dançarino, vendeu suas roupas e voltou para a Índia para tornar-se um aprendiz. “Eu me rendi aos velhos modos. E posso dizer que foi difícil ir de lugares como Nova York e Chicago, com os quais estava acostumado, a uma vilazinha remota cheia de mosquitos, percervejos, lagartas e cobras, Eu era um homem ocidental, mas tive que superar isso”, contou, em entrevista ao New York Times, nos anos 1980.

Shankar venceu três Grammy’s e foi homenageado várias vezes ao longo de sua carreira. Recebeu a Ordem do Império Britânico, da Rainha Elizabete, o Bharat Ratna indiano e a Legião da Honra francesa.

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