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Ian Gillan fala do Brasil e sobre a turnê com a Nova Filarmônica de Frankfurt

Icônico vocalista do Deep Purple afirmou ter velhos amigos no Brasil, onde se apresentaram sete vezes nos últimos 15 anos

Lipe Fleury - estadao.com.br,

08 de outubro de 2011 | 00h00

Após uma pausa de dois meses, vocês se apresentaram na noite de ontem [segunda-feira,4] em Belém. Como o primeiro show de uma turnê difere dos outros? Ainda existe alguma tensão, após 40 anos de carreira?

 

Foi chocante. Fisicamente chocante. Ficar parado por dois meses é suficiente para que o primeiro show seja um choque físico, porque a energia despendida é enorme. Meu Deus (rindo e arfando), eu praticamente cambaleava de um lado para o outro no palco. É como futebol, nesse aspecto, porque você precisa de umas partidas para ficar em forma e preparado para as apresentações futuras. A energia ao longo da turnê é crescente, e ao final me sinto muito mais forte do que no início. Acho que é normal. Mas o show em si foi fantástico, o público foi ótimo. Todos estavam muito animados, entusiasmados, eu gostei muito.

 

Em suas últimas apresentações antes de turnê sul-americana, vocês excursionaram na Europa e nos EUA com uma orquestra de 38 músicos da Nova Filarmônica de Frankfurt, tocando os maiores sucessos da banda. Era realmente inviável trazer esse show para o Brasil?

 

Sim, a logística é algo surreal. É algo que gostaríamos de fazer, mas são muitas complicações e vocês vão ter de se satisfazer só com nos cinco (risos).

 

Como foram os preparativos para a turnê? Apesar de trabalhosa, como você mencionou, imagino que deve ter sido recompensadora.

 

Ah, foi muito legal. A orquestra não era sinfônica, como em 1969 ou em 99. Desta vez se aproximava mais de algo como a Count Basie Orchestra, uma expansão ou ampliação da banda, no sentido do swing. Era quase uma big band. O resultado foi muito funky, e absolutamente deslumbrante. Amei a experiência. A ideia era dar uma variada, mesmo.

 

 

E na hora de fechar os arranjos das canções algum de vocês teve um papel maior nesse processo?

 

Foi simples, na verdade. Trabalhamos com algumas restrições rigorosas, não queríamos que tudo fosse resumido a pads e ruídos em segundo plano. Evitamos que a orquestra fosse reduzida a um conjunto de instrumentos de apoio, aquela bobagem sinfônica. Os músicos formaram uma parte vital e integral da banda, realmente uma ampliação do nosso som, de modo que todos os uns 38 instrumentos tinham seu papel na melodia, nas seções rítmicas e na harmonia. Ao mesmo tempo, todos tinham suas próprias vozes, as seções de cordas, os metais... A pegada do jazz e do blues se manifestou em vários momentos.

 

 

Depois de tantos anos excursionando, ainda é possível se surpreender? Em um sentido amplo, seja com o público, com as cidades visitadas, com a cultura local...

 

Amo viajar. É uma das melhores partes do meu trabalho. Toda vez que nos unimos para uma turnê tudo é muito excitante, eletrizante na verdade. De maneira categórica, acho que existem muitas sobreposições em nossas viagens, porque tocamos em praticamente todos os cantos do mundo, repetidas vezes. Mas sempre conhecemos novos comportamentos, atitudes, comidas, climas, energias. São experiências holísticas que absorvemos, e que fazem valer a pena sair do conforto de casa.

 

 

Vocês passaram pelo Brasil sete vezes nos últimos 15 anos. Já se sentem em casa quando vêm para cá?

 

Poderia entrar em detalhes sobre frutas, cobras, roupas, e tudo mais. Normalmente, tocamos em seis cidades por semana. Aqui, costumamos diminuir o ritmo porque as distâncias são muito grandes. Isso faz com que tenhamos mais tempo para conhecer pessoas. Quando aterrissamos no Brasil, já antecipo encontros com velhos amigos. Alguns são jornalistas, alguns trabalham na indústria da música, outros são caras que conheci em uma mesa de bar. Esse é o tipo de troca cultural que me interessa hoje em dia.

 

 

Nas últimas semanas, sediamos a quarta edição do Rock in Rio, evento responsável pela popularização dos grandes festivais de rock no Brasil. Vocês testemunharam e participaram ativamente da gênese desse tipo de evento, mas me parece que não tem tocado mais em festivais. Existe algum motivo para isso?

 

Até onde eu sei, minha agenda tem alguns festivais aqui e ali, todos os anos. Nenhum deles na América do Sul, mas ainda gostamos de tocar com outras bandas. Adoro a atmosfera dos festivais, onde não existe partidarismo e as pessoas estão dispostas a apreciar bandas diferentes.

 

 

O último lançamento do Deep Purple, Rapture From The Deep, completou 6 anos em 2011. Existem planos para um novo álbum em um futuro próximo?

 

Quando a hora chegar, nós o faremos. Esse intervalo se deve ao fato de a banda estar se divertindo tanto com as turnês. Não vemos a necessidade de gravar um novo álbum agora. Costumamos gravar quando a urgência está lá, quando a essência criativa de cada um de nós está transbordando. Nunca vamos lançar nada para satisfazer a gravadora, ou cumprir com quaisquer expectativas de terceiros, o que transformaria o trabalho em um exercício artificial de segunda classe. Quando estivermos prontos, o disco vai aparecer. Já escrevi quase 500 canções, mas o Deep Purple nunca, em nenhuma ocasião em toda sua existência, deixou de ser espontâneo.

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