<i>A Filha do Regimento</i>, uma ópera bem-humorada

Poucos naquela noite de fevereiro de1840 imaginariam que A Filha do Regimento se transformaria emuma das mais queridas comédias de Donizetti e que, depois dedécadas fora dos palcos, passaria, em pleno início do século 21,por um processo de reavaliação com diversas montagens mundoafora - inclusive em São Paulo, onde abre sábado, 21, a temporada deóperas do Teatro Municipal. A produção de A Filha do Regimento faz parte doprojeto A Comédia na Ópera, que leva ao Municipal ainda estesemestre O Chapéu de Palha de Florença, de Nino Rotta, e AItaliana em Argel, de Rossini. "É uma comédia rasgada,irreverente, em que tudo dá certo", diz o diretor cênico AndréHeller. "O primeiro ato se passa durante uma batalha, mas não háum só tiro, ninguém morre, a heroína nem fica louca nem morre",brinca. O enredo é simples. A jovem Marie é abandonada aindacriança e criada em meio a um grupo de soldados. Já crescida,precisa escolher entre eles seu marido - mas conhece o jovemprisioneiro tirolês Tonio. E os dois, claro, se apaixonam. Orapaz resolve virar soldado para estar apto a casar-se com aamada. Mas a chegada da Marquesa de Birkenfeld traz revelaçõessobre o passado e a origem de Marie, o que vai fazer com que ofinal feliz dos amantes demore mais para acontecer.Estréia em 1840 Estreada em 1840, a ópera foi escrita em francês.Donizetti, após alguns fracassos em sua terra natal, a Itália,foi tentar em Paris a sorte - o que significou se encaixar noestilo que chamamos de opera-comique, em que as partes musicaissão intercaladas por diálogos falados. No mesmo ano, no entanto,Donizetti prepararia uma versão em italiano para a estréia daópera no Scala de Milão. Em seguida, a produção viajou por todaa Europa e chegou até aos Estados Unidos - e, a cada cidade, areação de público e crítica era um pouco melhor.A questão erabasicamente a seguinte: aos primeiros ouvintes da ópera pareciaque Donizetti estava apenas levando para a França a fórmula quecomeçava a ficar gasta da ópera cômica italiana; à medida que sefoi ouvindo a música com mais atenção, no entanto, percebeu-seque a combinação das duas escolas se dá de maneira original,resultando em uma partitura cheia de sutilezas, de tom leve, commomentos de exaltação (como a ária Ah, Mes Amis! do tenor),humor rasgado (a lição de canto no segundo ato) e outros maisenvolventes (o dueto entre Marie e Tonio). "Em muitos aspectos,A Filha do Regimento me parece mais interessante que muitasoutras obras de Donizetti como a própria Lucia", diz o maestroJosé Maria Florêncio, que comanda a Sinfônica Municipal. "Achoela melhor tanto em termos de libreto como em termos deinstrumentação. E o que para muitos é um problema, a união entreo bel canto italiano e a opera-comique, para mim é um de seusaspectos mais interessantes, ao qual, claro, é preciso prestaratenção."Versão francesa Florêncio optou por utilizar a versão francesa da ópera.Não se trata apenas da língua em que se canta, ele explica - naversão italiana, entre outras mudanças, Tonio perde uma de suasárias, ganha um outro dueto com Marie e os diálogos faladosganham acompanhamento musical. A escolha do maestro é justa. Éno seu original que a partitura de Donizetti soa maisinteressante. E a manutenção dos diálogos falados acaba servindotambém à concepção do diretor André Heller-Lopes, que assina atradução/adaptação dos diálogos."Procurei respeitar, claro, otexto original mas com o cuidado de aproximar a ópera dos diasde hoje. Essa ópera nunca foi feita em São Paulo. É quase comouma estréia. E quis recriar para o público paulistano aexperiência que o público francês teve em 1840", diz o diretor.A Filha do Regimento. Teatro Municipal. Pça. Ramos de Azevedo, s/n.º, 11-3222-8698. Sáb., 2.ª, 4.ª, 6.ª(27), 20h30; dom. (29),17 horas. R$ 20 a R$ 40 e de R$ 10 a R$ 20 (2.ª). Até 29/4

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