JÔ OLIVEIRA|DIVULGAÇÃO
JÔ OLIVEIRA|DIVULGAÇÃO

Homenagem à Estação Primeira traz 30 sambas-exaltação

Album duplo 'Sambas para a Mangueira' traz canções nas vozes de artistas como Leci Brandão, Nelson Sargento e Beth Carvalho

Fernando Paulino Neto, O Estado de S. Paulo

01 Janeiro 2016 | 03h00

No morro de Mangueira, lá pelo final da década de 20 do século passado, havia um grande número de blocos e ranchos carnavalescos. Com a intenção de uni-los, um grupo de sambistas do lugar resolveu fundar uma escola de samba. O primeiro samba da nova escola foi feito por um jovem de pouco mais de 20 anos, egresso do bairro de Laranjeiras, na zona sul da cidade. Chega de Demanda cantava o fim das querelas dos diversos blocos. E acabou inspirando o nome da agremiação: “Somos da Estação Primeira/ Lá do morro de Mangueira”.

Escrito nas regras da arte dos primórdios dos sambas de morro, Chega de Demanda tinha só a primeira parte. A segunda era improvisada. Neta do autor, o ícone Angenor de Oliveira, mais conhecido como Cartola, Nilcemar Nogueira está à frente do lançamento do CD duplo de sambas-exaltação à verde e rosa, cujas cores são outra contribuição de seu gênio maior. Nilcemar é responsável pelo Centro Cultural Cartola, localizado na Mangueira, que preserva a memória do compositor.

Não à toa, Chega de Demanda abre os trabalhos de Sambas para a Mangueira em interpretação de Beth Carvalho, entremeada com citações a grandes nomes do passado e do presente da escola. Vale comparar com a versão “de raiz” cantada por Neuma Gonçalves, filha do primeiro presidente da escola, Saturnino Gonçalves, em Samba de Terreiro e Outros Sambas.

O samba inaugural dá início a uma série de cinco composições de Cartola. A clássica Sala de Recepção, seguida da emocionante interpretação de Tantinho da Mangueira em Todo o Tempo Que Eu Viver. É o samba que canta a continuidade eterna do talento musical mangueirense. “Eis que Jesus me premeia/ Surge outro compositor/ jovem de grande valor/ com o mesmo sangue nas veias.” 

O próprio Tantinho, hoje compositor consagrado e baluarte da escola, foi um desses jovens que, pouco mais que um adolescente, já cantava os sambas do mestre nos encontros da escola, à época de chão batido, o que valeu o nome de samba de terreiro, cantados durante todo o ano (em contraposição aos sambas de enredo, exclusivo da época do desfile no carnaval).

De vozeirão para vozeirão, Tantinho entrega o bastão para Alcione deitar e rolar em Verde Que te Quero Rosa, parceria de Cartola e Dalmo Castello. O momento Cartola termina com Silenciar a Mangueira Não, com interpretação da referência portelense Monarco. O samba fala da união das escolas de samba, em especial de Portela e Mangueira, consideradas as “velhas companheiras” do carnaval.

Além do Monarco, outros representantes da águia altaneira participam. Seu filho Marquinho Diniz canta Escurinha, de Geraldo Pereira. Teresa Cristina interpreta nada menos do que o hino da verde e rosa, Exaltação à Mangueira e Paulinho da Viola colabora como autor do clássico Sei Lá Mangueira.

Outro gênio mangueirense, Nelson Cavaquinho, aparece com três sambas. Todos lindos. Entre eles, a obra-prima Folhas Secas, defendida com honra por Leci Brandão, da ala de compositores da escola.

Baluarte e presidente de honra da Mangueira, Nelson Sargento, de 91 anos, é o único nas 30 faixas dos dois CDs que canta uma composição própria. É Mangueira, Divina e Maravilhosa. O desfile de grandes compositores mangueirenses continua. Jorge Zagaia aparece com a pouco conhecida Mangueirense Feliz, com interpretação típica de Martinho da Vila. Depois vêm José Ramos, Zé da Zilda, Helio Cabral, Jurandir da Mangueira e o eterno mestre de harmonia, Xangô da Mangueira, que encerra os trabalhos com Mangueira, pérola recôndita do cancioneiro verde e rosa.

Compositores “de fora”, mas com forte ligação com a escola, como Chico Buarque, com Estação Derradeira, que ganhou interpretação pessoal de Leny Andrade, também participam. O sucessor de Jamelão como intérprete de sambas de enredo da Mangueira, Luizito, morto pouco antes do carnaval do ano passado, ganha homenagem. Ele canta a animadíssima Tem Capoeira.

Com o selo de qualidade e o cuidado de acabamento tradicionais da gravadora Biscoito Fino, o CD tem direção musical, arranjos e regência do craque Rildo Hora. Além disso, ele está presente como compositor de Meninos da Mangueira, em parceria com Sérgio Cabral, e faz participação especial com sua gaita sutilmente colocada em Estação Derradeira e em Cachaça, Árvore e Bandeira, de Moacyr Luz e Aldir Blanc. O samba de Moacyr e Aldir supre a lacuna de homenagear o principal parceiro de Cartola e um dos pioneiros da escola, Carlos Moreira de Castro, o Carlos Cachaça. Nos CDs não há uma música sequer de sua autoria.

Com muitos altos e alguns baixos, como acontece em trabalhos deste tipo, Sambas para a Mangueira é um passeio agradável pela história da maior campeã do carnaval e inspiradora de alguns dos mais belos sambas compostos, não só por mangueirenses, mas por todos aqueles que entendem a força da tradição do samba que nasceu e ainda tenta sobreviver no morro de Mangueira.

 

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